Terapia da Fala

Processamento Auditivo Central (PAC)

Sabia que as crianças que não dizem o /l/ e o /r/ podem não ter uma dificuldade na articulação do som, mas sim na forma como a informação auditiva do mesmo é descodificada?

Hoje em dia sabe-se que o foco da Terapia da Fala não se destaca apenas na Fala, mas numa série de requisitos fundamentais para uma comunicação funcional e eficaz. É nesta conduta de pensamento que surgem as Perturbações do Processamento Auditivo.

A Perturbação do Processamento Auditivo Central (PAC) caracteriza-se por um impedimento neural que remete para a incapacidade da criança interpretar a informação auditiva que é emitida, podendo comprometer a forma como ela comunica com os parceiros e o meio. Este impedimento neural define-se em (1) reconhecer padrões sonoros, (2) discriminar, (3) separar e agrupar diferentes fontes sonoras, (4) localizar a fonte sonora, e (5) ordenar os sons da fala.

Atualmente, continuam a persistir obstáculos na definição de um diagnóstico diferencial, não só por ser uma patologia sensivelmente recente, mas por ser muitas vezes confundida com outros problemas da atualidade: défice de atenção e hiperatividade, défice linguístico ou cognitivo.

– Então, como consigo perceber que o meu filho tem alterações do Processo Auditivo (PA)?

Em primeiro lugar, será importante conhecer os sintomas relacionados.

Estudos revelam que os principais sintomas são: (1) dificuldades em tarefas escolares que envolvam os sons da língua (discriminar, manipular, memorizar e relembrar); (2) pouca aptidão para tarefas que envolvam música; (3) dificuldade em perceber a fala na presença de ruído; (4) dificuldade em seguir uma instrução dada pelos pais e professores, com duas ou mais ordens (“vai à cozinha buscar um copo de água e deixa-o na bancada”); (5) dificuldade em compreender o que lhe dizem quando falam muito rápido; e (6) dificuldade em manter a atenção conjunta numa atividade proposta.

É de extrema relevância compreender que as dificuldades do processamento auditivo geralmente são descritas em crianças com limiares normais de níveis de audição. Por esta razão, é imprescindível uma avaliação diferenciada pelos demais profissionais de saúde.

– O meu filho foi diagnosticado com Perturbação do Processamento Auditivo (PPA) e a professora continua a dizer que ele tem dificuldades de aprendizagem. É possível?

De facto, é possível. Sabe-se com o avanço da ciência que o nosso sistema é interminavelmente complexo e essa confirmação vem contemplar que as dificuldades de processamento da informação auditiva podem ou não repercutir para dificuldades em outras áreas, como na linguagem, na aprendizagem e no comportamento. Não obstante, o importante é compreender que elas não são a consequência mas a causa das dificuldades supra citadas, o que permite delinear um plano de intervenção com base no treino auditivo. Em contrapartida, muitas vezes torna-se difícil traçar um limiar de gravidade e consequências entre as alterações de processamento auditivo e as dificuldades de linguagem/aprendizagem, o que reforça a necessidade de uma avaliação por uma equipa multidisciplinar.

– Que estratégias posso adotar para o dia-a-dia, de forma a que o meu filho consiga superar melhor as suas dificuldades?

Tal como em outras áreas de intervenção, a colaboração dos pais e dos professores tem um papel elementar no processo evolutivo de crianças diagnosticadas com PPA. Neste sentido, existem algumas estratégias que poderão adotar na rotina familiar e escolar, de acordo com a competência lesada no processamento da informação auditiva. São elas: comunicar a mensagem verbal sempre na mesma direção; evitar pedidos/ordens complexos e transmitir uma informação curta e precisa; direcionar a fonte sonora para o ouvido melhor (conto de histórias, falar ao telefone); colocar o aluno nas primeiras filas da sala de aula; evitar colocar o aluno perto de janelas e portas pela questão do ruído envolvente; integrar a criança em aulas de música; ter atenção ao ruído presente nos diferentes contextos.

Surgiram mais dúvidas? Estamos disponíveis para esclarecer!

Destrava Línguas – Terapia da Fala

pac

Standard
Parentalidade Positiva

Afecto não é educação

No rescaldo da polémica em torno do “beijinho da avó”, acho importante reflectirmos sobre o assunto.

Em primeiro lugar, não se trata da avó, do tio ou da prima – o que está em causa é o afecto forçado, independentemente de quem o pede.

Desde cedo que enquanto seres humanos temos necessidade de contacto físico. Inicialmente esse contacto remete-se apenas aos que nos são próximos, cujas formas, vozes e cheiros são familiares, até que com base num processo de socialização aprendemos o cumprimento. A distinção essencial surge aqui, entre a educação (cumprimento) e o afecto.

Acredito que de forma gradual as crianças necessitam de ser sensibilizadas para o cumprimento como normal social que promove o espírito comunitário. Não obstante, a maior parte dos adultos parece exigir afecto da criança, não o cumprimento social. O afecto em nada corresponde à educação. O afecto (beijos, abraços, sentar ao colo) pressupõe espontaneidade, à vontade entre as partes, desejo de um contacto mais próximo com o outro, indo muito além de uma mera norma social. O cumprimento, enquanto mecanismo básico de educação, trata-se, como referi, de um tipo de contacto que poderá não ser genuíno e que não exprime um desejo de criar propriamente proximidade (acenar, dizer “bom dia/tarde/noite”, cumprimentar com a cabeça, dar um aperto de mão). Penso que a educação deverá ser estimulada, é neste ponto que enquanto educadores nos devemos centrar, ao passo que o afecto deverá ser usado quando a criança assim o deseja.

Se analisarmos a fundo as motivações por detrás dos pedidos insistentes de afecto que os adultos fazem às crianças emergem de imediato duas: 1) A motivação dos pais para demonstrarem publicamente o seu controlo sobre os filhos e se sentirem validados (“Vejam como ele é obediente, faz tudo o que mandamos” ou “reparem como ele é educado e elogiem-nos (pais) por isso”); 2) A motivação dos outros para se sentirem amados, independentemente da vontade da criança. Serão realmente estas as motivações certas para os nossos filhos beijarem alguém?

Infelizmente vivemos numa sociedade em que as nossas crianças cada vez têm menor controlo sobre o seu tempo, em que se dedicam a matérias com as quais nem se identificam, em que são obrigadas a permanecer sentadas horas a fio – o seu poder de escolha e decisão tende a ser menor. Permitamos que, pelo menos, possam decidir quais os limites do seu corpo e quais as suas vontades em termos afectuosos.

A educação (cumprimento) deverá estar presente em qualquer interacção social, o afecto poderá estar ou não, caberá à criança decidir.

 

afecto

Standard
Terapia da Fala

Aquisição da fala – algo complexo

Sabia que… a FALA é algo bem complexo?

Mas afinal o que precisamos para falar?

Em primeiro lugar, precisamos de ter as condições ótimas para que o processo inicie: ausência de problemas auditivos, musculatura adequada, capacidades neurológicas sem alterações e estruturas emocionais saudáveis.

Depois disto, precisamos de mais um fator: o ESTÍMULO adequado a cada criança.

Então, é aqui que surgem as dúvidas … estas são algumas das mais frequentes:

Que estímulo devo dar ao meu filho, em cada idade?

Primeiro, é importante perceber que existem diferentes formas de estímulo, que somos expostos a vários estímulos desde que nascemos e que naturalmente no nosso dia-a-dia, existem muitos estímulos.

Tudo, desde uma expressão facial, uma mudança de entoação, uma simples brincadeira, como dar uma “turra”, esconder a cara e fazer “cucu”, são estímulos que acontecem antes de falarmos e que nos despertam o interesse para a comunicação.

Depois disto, o importante é que o estímulo exista, desde brincar às escondidas, contar uma história, cantar uma canção, pedir para pôr a mesa ou conversar sobre o dia-a-dia.

Todos os estímulos são válidos e fundamentais para que a criança absorva a informação e comece também ela a utilizá-la.

Então, e como sei que o estímulo que o meu filho recebe, lhe permite ter um desenvolvimento saudável?

Aqui é importante perceber que todas as crianças são únicas, e que passam por este processo de forma diferente, tendo o seu próprio ritmo.

No entanto, existem etapas de desenvolvimento que são esperadas que as crianças consigam realizar. Por exemplo:

Sabia que aos 3 anos é expectável que a criança já tenha adquirido o som /g/, apesar de não o dizer em todas as palavras? Pode dizer água corretamente, mas dizer “dato” em vez de gato e ser o esperado para essa idade, mas se isto acontecer aos 4 anos, já é um sinal de alerta.

Sabia que é esperado que crianças com 2 anos digam frases com duas/três palavras e que aos 4 anos consigam contar acontecimentos?

Sabia que aos 4 anos uma criança pode dizer “pota” para porta, mas aos 5 anos isso já não é esperado?

Sabia que aos 6 anos é esperado que as crianças já apresentem um discurso elaborado, com frases corretas e sem trocas de sons?

O importante é estarmos atentos às crianças, às suas conquistas e às suas dificuldades ao longo do crescimento, para podermos identificar eventuais dificuldades atempadamente.

Surgiram mais dúvidas? Estamos disponíveis para ajudar!

Email: Destravalinguas.saude@gmail.com/                     Telefone:918 483 143

Facebook: Destravalinguas.saude

fala

Standard
Actividades em Família

O Refúgio das Origens – Actividades em Família

Após termos decidido visitar o Badoca Safari Park, iniciámos a procura por um sítio onde ficar. O que seria apenas um local para pernoitar tornou-se no ponto alto da viagem.

O Refúgio das Origens fica nas Ermidas do Sado, no Concelho de Santiago do Cacém, Baixo Alentejo. Este espaço, anteriormente utilizado pelo pai da proprietária – Rosa Azevedo – para produção de artigos de origem animal, foi reaberto em 2013 como um local de turismo rural. “Era um sonho que tinha há longos anos“, confidenciou-nos Rosa, visivelmente emocionada. Com muito empenho e amor reestruturou o espaço e abriu-o ao público, com o apoio do marido e dos filhos.

Podia tentar explicar-vos a paz que se sente no Refúgio das Origens (o nome assenta na perfeição), o ar leve que se respira, as cores diferentes que só vemos no campo, mas prefiro deixar-vos algumas fotografias que o explicam.

espaçoespaço 2espaço 4espaço 9espaço 10espaço 12

A Letícia, que habitualmente estranha locais novos, ambientou-se assim que chegámos – acho que todas as crianças apreciam a liberdade que os meios rurais lhes dão.

 

Existem diversas actividades em que podem participar em família (nós fomos a todas). Primeiramente fomos conhecer as galinhas e fazer uma verdadeira caça ao ovo.

 

De seguida, dirigimo-nos até à estufa onde pudemos colher – e comer – morangos e físalis.

No final, fizemos um passeio pedestre pelo (enorme) terreno, conhecemos as cabras e vimos o lindo pôr do sol.

 

A noite foi muito tranquila, os quartos são acolhedores e a única coisa que se ouvia era o silêncio (é tão bom acordar sem o barulho dos vizinhos ou dos carros a passar).

 

No dia seguinte tomámos um pequeno-almoço recheado de produtos biológicos confeccionados pela Rosa, desde o sumo de laranja e pêssego ao doce de melancia. De barriga cheia, demos uma volta de bicicleta pelo alpendre (levámos apenas a da Leti, no local disponibilizam bicicletas para os adultos).

 

Após termos dado mais um passeio pedestre pelo Refúgio, fomos alimentar os burros (Carlota, Cortiço e o filhote Peter) e colher à horta alperces, pêssegos, pimentos e figos (a Leti estava em êxtase).

 

 

Em conversa com a Rosa fiquei a saber que ao longo do ano o Refúgio das Origens organiza diversos eventos para famílias, pelo que podem ir seguindo a página de facebook e espreitando as novidades – https://www.facebook.com/refugiodasorigens/

Se ainda estão na dúvida, deixo-vos algumas fotos muito esclarecedoras 😉

espaçoespaço 11espaço 6espaço 8espaço 5espaço 7

Standard
Terapia da Fala

Amamentação e Terapia da Fala – Dois velhos amigos

Sabia que o Terapeuta da Fala (TF) pode ser uma grande ajuda durante a amamentação?

É verdade! Certamente estará a questionar-se como pode o TF intervir nesta área se a criança apenas tem dias/meses e não fala.

Pois bem, na verdade o TF intervém muito para além da fala, tendo sete áreas distintas de atuação: Comunicação, Linguagem verbal e não verbal, Articulação, Voz, Fluência(gaguez), Leitura e Escrita e Motricidade Orofacial (MO). Esta última (MO) está relacionada com todas as estruturas faciais, ósseas/dentárias e musculares – sistema estomatognático –  e em conjunto promovem as funções que a cavidade oral (boca) desempenha: Sucção, Respiração, Mastigação, Deglutição (ato de engolir) e Fala.

Sendo a sucção uma das primeiras funções que a criança desempenha após o nascimento, através da amamentação, não podíamos deixar de vos falar sobre ela.

Como sabem, a amamentação é um ato natural, no entanto pode não ser propriamente simples uma vez que depende, entre outros fatores, da condição clínica e anatómica da mãe e do recém-nascido.

Para o TF, a amamentação tem uma grande importância, pois propícia o harmonioso crescimento e desenvolvimento das estruturas que compõem a nossa face (sistema estomatognático) e suas respetivas funções. Amamentar aprimora a mobilidade, postura e tonicidade dos músculos envolvidos, contribuindo para uma respiração nasal e um crescimento harmonioso da face, além de prevenir a instalação de hábitos orais de sucção (chupeta, biberão, etc) e de más oclusões dentárias. Desta forma, um bebé recém-nascido poderá não amamentar por diversas razões, pelo que o TF poderá ser um facilitador neste processo, trabalhando toda a parte muscular, facilitando a sucção e por isso a digestão, coordenando os períodos de pausa, aumentando a oxigenação durante e após as mamadas, auxiliando na transição da alimentação por sonda para a alimentação oral, entre outras questões.

Tem alguma dúvida ou questão? Estamos por cá para ajudar =)

Email: Destravalinguas.saude@gmail.com/                      Telefone:918 483 143

Facebook: Destravalinguas.saude

tf

 

Standard
Menina, Mulher & Mãe

As mães têm medo do escuro

Vou contar-te um segredo, promete-me que não dizes a ninguém. Aproxima-te mais, não quero que nos oiçam. Sabes, a verdade é que as mães têm medo do escuro.

Quando nasce uma mãe, existe um caminho que se percorre no escuro com um bebé nos braços. “É só ir em frente”, dizem os mais experientes, esquecendo-se que para quem não conhece o percurso, andar no escuro é assustador – são tantas as dúvidas e incertezas. Dás o primeiro passo a medo, é tudo novo – “Estarei a ir no caminho certo? Será que devo ir mais rápido ou mais devagar? Se colocar o pé ali, será que vou cair?”. Invadida pelo receio e pelas dúvidas vais dando um passo, depois outro, ainda sem certeza se estarás a ir no caminho certo. Ainda assim, não existe outra hipótese, há que seguir em frente.

Ao longo do percurso vais encontrando locais cheios de luz e cor, sentes-te feliz e plena, olhas para o teu bebé e por momentos acreditas  que estão a ir na direcção certa. Ainda assim, esses locais vão-se intercalando com outros mais sombrios, no trajecto tropeças e cais, sentes-te frustrada pois eras capaz de jurar que estavam a ir tão bem. À frustração junta-se a culpa que te aponta o dedo por não conseguires fazer o caminho de olhos fechados e a dada altura dás por ti a rever todos os passos que pensas terem sido mal dados e no impacto que têm no teu filho.

A dada altura, no pico da exaustão (sim, caminhar no escuro com um bebé ao colo é desgastante), sentes vontade de gritar: “Por que raios passa por aqui tanta gente e ainda ninguém criou um mapa? Por que não me avisaram que estaria tão escuro aqui?”. Parece tão simples, bastava criar um guia por onde quem por ali passa se pudesse orientar. A verdade é que apenas te podem colocar algumas velas no caminho como forma de o iluminarem mais um bocadinho; não existem percursos iguais, não tentes ver no chão as pegadas que os outros foram deixando, a forma como caminham é diferente da tua e os seus destinos, de acordo com o que viveram e aquilo em que acreditam, também o serão.

No meio do escuro, com as emoções à flor da pele, é fácil comparares-te  com quem vai mais à frente e esqueceres-te de olhar ao teu redor. Se o fizeres, poderás ver outras mães com os seus filhos ao colo, com tantas dúvidas e incertezas como tu, com receio de não estarem a seguir o melhor caminho, a culparem-se por cada passo que as levou a tropeçar. Podes continuar a fingir que tens a certeza do que estás a fazer ou olhá-las nos olhos enquanto assumes que lidas com o mesmo; aposto que se caminharem de mãos dadas, iluminando os percursos umas das outras, o percurso será mais fácil para todas.

Vou contar-te um segredo que talvez só seja secreto para quem não tem filhos: todas as mães têm medo do escuro, não és só tu.

escuro 3

Standard
Menina, Mulher & Mãe

Filhos – as nossas bolas de sabão

Fechamos os olhos e enquanto sopramos esperamos que a bola de sabão se forme como sempre a sonhámos – grande, redonda e perfeita. Quando a vislumbramos pela primeira vez  todas essas preocupações caem por terra; damos por nós a perceber que ela só poderia ser como é – perfeita.

Não conseguimos tirar os olhos daquela que será seguramente a nossa melhor criação. Perdemo-nos no tempo a observar os seus detalhes, como é brilhante e simplesmente linda; conhecemos cada contorno seu, cada reflexo, cada sonho. Sentimos que ela é muito mais do que poderíamos pedir – ai, como o coração se enche de amor e gratidão!

Ali está ela, ainda trémula, a tentar ganhar o seu espaço.

À volta levantam-se vozes que nos dizem que a nossa criação poderia ser maior/menor, mais larga/mais estreita, mais/menos colorida; irão compará-la às suas criações e levar-nos-ão a sentir que a nossa não voa suficientemente alto. O que eles não sabem é que o melhor da nossa bola de sabão não está à vista – naqueles reflexos que só nós conhecemos vivem histórias, experiências e sonhos únicos que a tornam tão especial, cores demasiado bonitas para serem descritas.

Enquanto a observamos sonhamos com os sítios por onde irá passar, as pessoas que irá ver, o que irá aprender ao longo desta aventura. O coração contorcesse cada vez que constatamos que a dada altura teremos de a deixar voar sem a nossa supervisão.

Começamos por controlar a nossa criação de perto, não sabemos até que ponto será capaz de voar alto e vencer. Trememos cada vez que uma rajada de vento se aproxima. O  seu voo vai-se tornando cada vez mais alto e aquela bola que era só nossa vai-se tornando do mundo.  Por muito que nos sintamos tentados a agarrá-la e a mantê-la protegida entre as nossas mãos, sabemos que tal a faria rebentar, soprar com força obrigando-a a seguir um determinado caminho também seria arriscado; resta-nos soprar docemente, dando alguma orientação e afastando-a dos obstáculos, cientes de que o caminho será sempre percorrido por ela e que não a poderemos afastar de todos os perigos – muitos deles terão de ser contornados sem ajuda.

Ter filhos é isto: criar, cuidar, amar e deixar voar enquanto os observamos com orgulho.

 

 

bolitas.jpg

Standard
Menina, Mulher & Mãe, Sem categoria

Larguem as mamas das mães

Hoje, uma colega (não é a mesma de segunda-feira) deixou um saco em cima da mesa cujo interior era visível a partir do ângulo em que eu estava sentada. Lá dentro era possível ver uma bomba eléctrica de extracção de leite.

Sentimentos e recordações à parte, pensei de imediato como deveria ser duro para ela tirar leite longe do seu bebé. Decidi meter conversa com o intuito de a reconfortar caso precisasse.

Quando a meio da conversa lhe perguntei a idade do bebé, notei uma certa hesitação a que se seguiu a resposta: “já tem 10 meses!”. “Oh, ainda é mesmo bebé!”, disse eu. De seguida percebi perfeitamente o motivo da sua hesitação: “Estão sempre a dizer-me que já é demasiado grande para mamar”.

Eu juro-vos que faço diariamente um esforço para compreender outras perspectivas mas esta noção de que nos podemos intrometer nas escolhas das pessoas incomoda-me imenso. Sobretudo nesta área da parentalidade e mais especificamente no que toca à amamentação, um processo tão pessoal e intimamente ligado à vinculação entre mãe e bebé. Entenderia se fosse uma prática com consequências negativas, mas que malefícios o aleitamento materno traz para a criança? Nutrição e carinho?!

Se a amamentação de cada um fosse um assunto comunitário todos poderíamos dar de mamar àquela criança. Uma vez que apenas a mãe pode, e se a cria é sua e do pai, parece-me claro quem são as partes envolvidas e com direito a partilhar a sua opinião.

Cuidem de vocês, da vossa saúde e dos vossos corpos e deixem que sejam as mães a decidir o que fazem com as suas próprias mamas 

mamas

Standard
Osteopatia

Síndrome de morte súbita e Plagiocefalia

Actualmente, de acordo com as linhas orientadoras da Organização Mundial de Saúde, é aconselhado que os bebés durmam em DD (de barriga para cima) a fim de evitar a síndrome de morte súbita. Esta não tem uma causa determinada, mas parece estar relacionada com um défice de oxigénio em bebés quando deitados em DV (de barriga para baixo) e uma imaturidade de algumas zonas dos seus cérebros.

Desde 1992 que estas recomendações fizeram diminuir em mais de 50% as mortes no primeiro ano de vida, contudo contribuíram para o aparecimento mais frequente de deformidades cranianas nos bebés.

As deformidades cranianas surgem devido a pressões externas exercidas na cabeça do bebé por longos períodos de tempo:

-por factores intra uterinos (tipo de parto, alterações pélvicas maternas, gestação múltipla, etc),

-prematuridade,

-torcicolo muscular congénito,

-deitado de barriga para cima de forma prolongada (para evitar síndrome de morte súbita), por exemplo.

Existem vários tipos de deformidades cranianas, sendo a mais comum a plagiocefalia que significa cabeça oblíqua – “plagio” = obliquo e “cefalia” = cabeça.

cabeças

Através da análise cuidada da história pré, peri e pós-natal, e do exame físico do bebé pode fazer-se o diagnóstico desta disfunção sem qualquer necessidade de exames radiológicos de imagem.

Se observamos o crânio de topo, em caso de plagiocefalia, este tem o formato de um paralelograma com um achatamento oblíquo, a orelha do mesmo lado é mais anterior e a testa e o malar parecem mais proeminentes. O bebé também pode parecer ter menos cabelo na zona achatada.

Contudo isto não é um problema puramente estético. Todas estas assimetrias e consequentes restrições de mobilidade dos ossos podem condicionar o correcto funcionamento de nervos, artérias e veias provocando, por exemplo, refluxo, náuseas, problemas oculares e auditivos, escoliose, problemas na alimentação e na fonação, falta de concentração, entre outros.

E o melhor tratamento? É mesmo a prevenção!

cama.png

  • Quando estiver a dormir de barriga para cima, alternar as posições da cabeça
  • Se o bebé estiver desperto e sob vigilância, optar por coloca-lo de barriga para baixo (tummy time)
  • Evitar manter o bebé por longos períodos de tempo nas cadeiras de transporte ou espreguiçadeiras
  • Alternar o braço que usa para amamentar o bebé e a posição que o segura no colo
  • Em caso de torcicolo, ensinar os pais estratégias e exercícios para mobilizar o pescoço
  • Utilizar almofada certificada para prevenção de deformidades cranianas (p.e. mimos ®)

ALMOFADA

  • Ser avaliado por um Osteopata experiente nos primeiros dias de vida, porque quanto mais tempo passa mais sessões serão necessárias para obter os resultados pretendidos.

 

A osteopatia craniana utiliza técnicas manuais suaves e indolores que vão promover a mobilidade dos ossos do crânio para que o seu crescimento seja harmonioso e corrigindo assim qualquer assimetria.

Um estudo experimental controlado aleatorizado de Nuñez Prado em 2007 com 45 bebés mostrou que o grupo intervencionado com osteopatia teve melhor evolução (94.4%) que o grupo controlo (sem tratamento).

Assim, com as novas normativas sobre a síndrome de morte súbita e muitos outros factores, podemos afirmar que as deformidades cranianas são um problema cada vez mais comum, contudo não devem ser encaradas como algo normal! Existem várias estratégias que pode e deve adoptar e o seu Osteopata pode ajudá-lo a avaliar e tratar o seu bebé!

Dra Inês Alves – Osteopata

Standard
Menina, Mulher & Mãe

Podias ser tão mais bonita

Nos seus curtos 3 anos a Leti já ouviu esta frase algumas vezes – não foram muitas, mas foram mais do que as que eu gostaria.

Tanto eu como a minha irmã crescemos cercadas pela ideia de que éramos mais bonitas do que a média por termos olhos claros e cabelo loiro. Felizmente, a vida encarregou-se de nos ensinar que a beleza vai muito para além disso. Contudo, quando estou com a Leti noto que essa ideia continua a persistir.

Cada um terá o seu gosto, nada contra; aceito que exista uma maioria que acha que olhos claros são mais bonitos do que olhos escuros. O que me incomoda é que a beleza dos outros seja definida pelos meus parâmetros (altamente subjectivos) e que eu lhes coloque essa espécie de rótulo.

Há dias no hipermercado a Leti segurava um saco de cenouras na fila para a caixa. Uma senhora passou por nós e em tom de brincadeira disse que não tinha comido muitas cenouras quando era pequenina e que por isso tinha os olhos feios. Entrando olhou para mim e afirmou: “ah os olhos da mãe é que são lindos, os teus e os meus são feios. Que pena não teres os olhos iguais aos da mãe”. Embora a Leti seja pequenina tem uma capacidade de compreensão enorme e ficou de imediato triste. Eu abracei-a e disse-lhe que adorava ter os olhos dela pois a mãe quando lhe bate o sol na cara fica toda aflita e ela não; acrescentei que ela é linda assim e que não a imaginava de outra forma.

Custa-me aceitar esta falta de sensibilidade e a necessidade de criarmos inseguranças uns nos outros, ignorando que o que para mim pesa (cor dos olhos) não corresponde a uma verdade absoluta. Mais, existem comentários que se não trazem nada ao outro que promova o seu bem-estar e/ou evolução poderá viver perfeitamente na minha cabeça, não há necessidade de o verbalizar.

Espero conseguir criar uma criança capaz de perceber o que importa dizer e cuja beleza que vê no outro passe por mais do que o seu tom de pele, cor de cabelo ou dos olhos.

ser bonita

Standard