Nutrição

Ainda sobre os açúcares

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Recentemente falámos aqui sobre a não necessidade de oferecer açúcar às crianças. Gostaria de voltar a pegar neste tema para falar das festas e bolos de aniversário. 
Quando fazemos anos, a maioria de nós gosta de fazer uma festa, juntar os amigos, cantar os parabéns, partir e comer o bolo. É um momento que se repete ao longo da vida e que gostamos de partilhar com as pessoas que mais gostamos. E, quando temos filhos, gostamos de fazer deste um dia especial, no qual o bolo é um dos momentos altos.
Com as preocupações relacionadas com a alimentação, pensamos muitas vezes em tentar fazer um bolo “mais saudável”, e procuramos muitas vezes soluções nos vários substitutos de açúcar disponíveis no mercado. Não me quero alongar em explicações demasiado técnicas sobre os diferentes substitutos existentes, apenas dizer que todos eles estão aprovados considerando uma dose máxima admissível diária, que é calculada por Kg de peso do indivíduo. Se para nós adultos esse valor pode ser relativamente elevado, para as crianças, especialmente as mais pequenas, a dose é baixa, podendo ser facilmente ultrapassada.
Quero deixar duas mensagens que têm que ver com uma maior consciencialização face aos nossos comportamentos e sobre o que os eventos significam para nós. A primeira é que uma festa é isso mesmo, uma festa. O momento e o dia em que há espaço para nos excedermos, comermos doces e assumir que nesse dia comemos açúcar (relembrar aqui que fazer uma sobremesa com adoçante costuma ter o efeito perverso de nos levar a comer maior quantidade porque achamos que não tendo açúcar, podemos comer maior quantidade, o que não é verdade, acabamos por comer muito mais calorias). É preferível comer açúcar e ter a consciência de que foi no dia da festa, e que o dia da festa é a excepção e não a regra.
A segunda mensagem, as crianças, em particular as mais pequenas, apreciam as pessoas, os mimos e as atenções, que se podem e devem traduzir em afectos, gestos, que não precisam de estar traduzidos em ofertas de alimentos desnecessários. O carinho, o afecto, o amor, não tem de ser representados pelo doce. O bolo pode e deve existir, mas seguramente no primeiro ano e talvez mesmo no segundo, se cortarmos o bolo e oferecermos pão ou fruta, o bebé não percebe. Quanto mais adiarmos a introdução do açúcar, melhor e maior a probabilidade de eles estranharem o sabor e não se habituarem de imediato.
Cláudia Viegas
Nutricionista e Docente na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril
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Menina, Mulher & Mãe

Parto – Vais estar no hospital mas lembra-te que não estás doente

Recentemente vi uma reportagem sobre violência obstétrica. Torci para que fossem casos pontuais. Vi outra e outra, algumas noutros países, e constatei que infelizmente é uma realidade que afecta mais mulheres do que possamos imaginar. Alguns dos episódios foram tão traumáticos que passados longos anos as mulheres ainda não conseguiram arrumar o assunto, afectando o seu dia-a-dia, sobretudo a intimidade sexual e a motivação para voltar a engravidar.

Fiquei com as palavras daquelas mulheres na cabeça. Alguns dos relatos eram arrepiantes – frases maldosas ditas pelos médicos/enfermeiros, fraca prestação de cuidados à mãe como punição por não ter tido um parto dito normal, partos vividos num ambiente cinzento e hostil. Ocorreu-me que um dos  maiores problemas reside no comportamento que estamos habituadas a ter no local em que ocorrem os partos- os hospitais. Enquanto seres programados para lerem as pistas do ambiente e ajustarem o seu comportamento de acordo com isso (por exemplo, se as luzes forem fracas costumamos falar mais baixo, se estivermos rodeados de cores fortes sentimos-nos mais agitados, etc.),  tendemos a guiar o nosso comportamento nesse sentido (se estou no hospital é porque estou doente e devo comportar-me como tal).

O hospital é um local que frequentamos quando existe doença (nossa ou dos outros), onde costumamos adoptar um papel mais passivo, onde acatamos as recomendações do médico sem grandes questões, onde sentimos pouco controlo sobre o que acontece, quase como se o hospital fosse a casa dos médicos e nós as visitas. No parto este padrão tende a repetir-se. Damos entrada tal como quando estamos doentes, não há uma welcome drink (sem álcool, ´tá?), um sorriso especial da recepcionista, uma frase mais doce e de incentivo (parabéns está quase a ser mamã). Nada. O procedimento é o habitual. Colocam-nos a bata, ligam-nos ao CTG, tudo num registo muito médico. Para ajudar, a maioria de nós sente dores, percepciona uma falta de controlo sobre o corpo e sobre a situação (chegamos a pensar que não vamos sobreviver depois das contracções). Nesta fase, são mais os sinais de que não estamos bem do que os que nos relembram que somos mulheres saudáveis prontas para um parto. Se a equipa médica for autoritária e pouco empática, ignorando as nossas necessidades/opiniões, tendemos a sentir-nos obrigadas a comportar como doentes e a aceitar as opiniões dos “senhores doutores”.

Para ti, futura mamã, lembra-te que…

…estás no hospital mas não estás doente…

…estás de bata mas não estás doente…

…estás a soro mas não estás doente…

…estás a sentir dores mas não estás doente…

Tu estás óptima (sim, já estiveste melhor, mas estás bem)! O teu corpo sabe o que fazer, nele vivem milhões de anos de aprendizagens. Escuta-o e lembra-te que ninguém o conhece como tu. Tu estás ali, consciente, e fazes parte do momento. Na sala de partos só há um especialista sobre ti – tu! Tens direito a ser tratada com respeito e dignidade, a saber o que se passa,  o que estão a pensar fazer, a obter respostas, a participar activamente no processo de tomada de decisão, a sentir-te escutada.  Naturalmente, os médicos dominam a parte técnica, estudaram muito para isso, as suas competências e opiniões são vitais, mas as tuas também! Adopta uma postura assertiva (meio-termo entre passiva e agressiva), de alguém que quer cooperar com a equipa médica e que conhece os seus direitos, o que, como já referi, é mais fácil se tiveres presente que não estás doente.

Quando saíres do hospital, aquele corpo continuará a ser teu, continuarás a cuidar dele. As marcas físicas e psicológicas, positivas e/ou negativas, irão acompanhar-te, não ao médico, aos enfermeiros ou aos auxiliares. Procura contribuir para que as positivas superem largamente as negativas.

Para ti, que sofreste de violência obstétrica, sei que recordar é doloroso, que te queres afastar dessa situação e evitar conflitos, no entanto se os maus profissionais não forem referenciados outras mulheres vão sofrer nas suas mãos o que tu sofreste; eles continuarão a exercer livres de qualquer responsabilização, aplicando as mesmas palavras e técnicas. Faz algo por ti, por nós, e reclama! Reclama até te escutarem! Se te sentires sem forças, pede ajuda a alguém. Esta atitude é mais importante do que possas imaginar. Podes estar a poupar imensas mulheres de passaram pelo mesmo.

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Pediatria

As constipações virais: o que são, o que fazer e o que não fazer!

Esta altura do ano, para quem tem uma criança pequena, pode ser um terror. Isto porque, com a baixa temperatura e a humidade, o número de vírus circulantes é enorme!! As crianças saem de uma constipação (nasofaringite viral) e entram noutra, num ciclo interminável, que é agravado pelo convívio uns com os outros nas creches e berçários (os infetários!!). Há mais de 100 tipos de vírus que causam o nasofaringite viral, o que nos proporciona sempre novidades todos os anos.

Uma constipação costuma durar por volta de uma semana. Pode associar-se com nariz entupido, tosse, farfalheira,  lacrimejo, mal estar, falta de apetite e febre (temperatura> 38 ºC), variando a intensidade dos sintomas com os diferentes vírus. É muito importante lembrar que a febre não costuma durar mais do que 72 horas. Febre que dura mais do que 72 horas,  pode estar associada a uma complicação bacteriana, devendo a partir daí a criança ser observada por um médico .

Mas, afinal, o que se deve fazer nestas situações?

Se a criança está bem disposta, sem sinais de dificuldade a respirar, a comer bem, a febre é espaçada e cede bem aos antipiréticos (paracetamol/ibuprofeno), nem pensar em ir logo a correr para a urgência!

O que há a fazer:

  • Colocar muito, muito soro nasal, várias vezes por dia, em esguicho (mínimo uma unidose) em cada narina. Quem preferir pode aplicar também água do mar;
  • Controlar a febre com paracetamol (max. 6/6h), ibuprofeno (max. 8/8h se >5 meses), sempre em doses ajustadas ao peso (ver bula), podendo usar os 2 alternadamente se houver necessidade;
  • Dar refeições simples e fraccionadas (menos quantidade, mais vezes por dia), sem insistir, privilegiando os líquidos (não se preocupar muito com a falta de apetite, que é recuperado em dobro quando passar a constipação);
  • Cabeceira elevada a dormir, para respirarem melhor;
  • Vigiar sinais de falta de ar: respiração acelerada, pieira, respiração com esforço a fazer covinhas no pescoço ou a barriga aquando da respiração (tiragem);
  • Se febre com duração superior a 72horas, que não está a espaçar, criança muito prostrada que não come nada, suspeita de otite ou se sinais de falta de ar, ir à urgência ou consultar o médico.

O que não fazer:

  • Ir a correr à urgência no primeiro pico de febre, ou se tosse sem mais nenhum dos sinais que preocupam (falta de ar, recusa em comer, vómitos sempre que tosse);
  • Aerossóis com soro fisiológico – o mais eficaz é mesmo o soro em esguicho no nariz, que ajuda a que a criança engula as ranhocas que estavam acumuladas no nariz e na garganta e que estavam a causar a tosse. O aerossol só vai aumentar o líquido dessas secreções, pode encher os pequenos bronquíolos dos bebés de líquido, aumentando a dificuldade respiratória;
  • Expectorantes e antitússicos  (vulgo xaropes) – não dar! Aumentam as secreções e fazem com que a criança ainda se atrapalhe mais. Os antitússicos param a tosse, que é uma defesa do pulmão. Se a criança não tossir, a expectoração desce para o pulmão, causando pneumonia, o que é bem pior;
  • Nem pensar em colocar produtos mentolados (como Vick) nas crianças, porque além de estar estudado que não têm qualquer benefício, podem causar reacções alérgicas e ser muito irritativos para as vias respiratórias, aumentando a tosse e a expectoração.
  • Embora o mel possa ter um efeito hidratante da garganta, não está provada qualquer eficácia dos xaropes de cenoura, mel ou limão na melhoria da tosse. Estes remédios não têm efeitos colaterais, mas porque possuem uma quantidade exagerada de açúcar ou mel, podem vir a ter consequências para a saúde a médio/longo prazo (obesidade, cáries, …), se forem dados com frequência. Nunca dar a crianças com menos de 12/24 meses, em que o açúcar e mel são totalmente desaconselhados.

Geralmente, as viroses respiratórias evoluem bem e, numa semana, a criança estará melhor. Além de uma boa alimentação e uma boa hidratação, é preciso paciência, algumas noites sem dormir e muita dedicação, mas há um consolo: com o tempo, a criança cresce e a frequência das viroses respiratórias diminui.

Sara Aguilar

Pediatra

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Parentalidade Positiva

Porque é que o meu filho não me obedece? parte 1

Se por acaso tem em casa uma criança “pequena” que tenta fazer as coisas sozinha e refila quando a procura ajudar, que por vezes chora quando lhe diz não e que põe em causa as suas decisões, está de parabéns, tem uma criança saudável!Naturalmente, estes comportamentos não são adaptativos (saudáveis) durante toda a vida, mas nos primeiros anos de vida fazem parte do adequado desenvolvimento da criança. Não se trata de desobediência (não consigo gostar desta palavra), mas sim de desenvolver autonomia.

A resposta à questão que se coloca no título, aquela que nos surge na cabeça cheia de luzinhas brilhantes cada vez que os nossos filhotes se comportam de forma diferente daquela que desejaríamos,  vive na própria pergunta. Baralhadas? Nada melhor do que um exercício prático para esclarecer.


Imaginem-se a entrar numa pequena sala com uma caixa na mão. Nessa sala existem uma cadeira, uma estante e uma secretária. O vosso objectivo é simples – fazer a entrega da caixa. Ao entrarem na sala tentam pousar a caixa na secretária e ao longe alguém vos diz “aí nem pensar!”. De seguida, procuram encaixá-la na estante e a mesma pessoa nega-vos essa hipótese. Procuram colocá-la na cadeira, depois no chão e ainda entregá-la ao outro interveniente,  a resposta que ouvem é sempre a mesma: “não pode ser!” .
O que sentem neste momento? Zanga e frustração foram as respostas das mães
com quem fiz este exercício (podem parecer-vos exageradas, mas estando realmente em pé com a caixa na mão às voltas pela sala, sem alternativas, é mais frustrante).
Provavelmente, se isto efectivamente acontecesse, iriam perguntar ao outro interveniente, o chato irritante que só sabe dizer “não, não e não”, onde é que queria a caixa – “se não pode ser em nenhum dos sítios que propus, diga-me onde é que quer que ponha a caixa!”.
Antes de lerem o resto do texto, pensem bem no que é que vos está a irritar nesta situação, que aspecto  podia ser alterado para que a vossa vida fosse facilitada.

… vá pensem, não vale espreitar a resposta sem terem uma alternativa (ui que pareço a Teresa Guilherme a dar pistas)…


Se responderam que o que faltava era atirar com a caixa à cabeça do outro interveniente, estiveram perto… perto de se inscreverem num grupo terapêutico de auto-controlo. Como disse desde o início, a resposta está à vista – o problema reside no uso da palavra “não” sem ser seguida de uma alternativa clara sobre onde afinal deveriam colocar a caixa.

A dada altura já todas fomos  o tal chato irritante – “João, sai daí”; “Maria, não te quero a mexer nisso”; “Matilde, assim não”; “Martim, não faças isso” (reparem no meu cuidado a usar os nomes mais “in” de 2016). Todas estas frases nos saem da boca sem que tenhamos de pensar muito, quase que fluem. Contudo, são pouco claras, não oferecem sugestões de como e para onde a criança deve redireccionar o comportamento. Tal como nós na situação da caixa, as crianças ficam sem saber o que podem fazer (dica: vão tentando treinar comunicar pela positiva, ao invés de pela negativa).

Vamos pegar numa  situação real que acontece com frequência cá em casa. A Leti adora os armários, mexer no que está lá dentro, bater com as portas, idealmente partir alguma coisa no processo. Sei que podia passar o dia a dizer “aí não, sai daí, vais-te magoar“, o que ela traduziria como bla bla bla whiskas saquetas. Ao invés, ponho-me ao nível dela, invento uma actividade que chame à atenção e mostro-lhe como é divertida (aqui há que convencê-los de que é mesmo gira, vale tudo, desde fazer caras de quem fez uma plástica que correu menos bem, até soltar ginchinhos de entusiasmo). Por vezes a primeira alternativa de actividade não é bem aceite – não desanimem, experimentem outra e outra, as que forem necessárias, até encontrarem algo que resulte. Poderá ser útil criar uma actividade que produza um efeito semelhante à original; no caso da Leti, como o que lhe apetecia era bater com as portas do armário e ver os produtos a desabar (não é o barulho que me incomoda, é a forte probabilidade de se magoar), coloquei as almofadas em frente ao sofá, por trás escondi alguns bonecos e mostrei-lhe como atirar com as almofadas e fazer os bonecos cair (adorou!).

Se leram outros posts meus, penso que já perceberam que não acredito em soluções milagrosas, nem em “one size fits all” (um tamanho serve a todos). Acredito, sim, que cada criança tem necessidades e motivações muito próprias, o que se traduz em estratégias diferentes para cada uma, estratégias essas que precisam de ser reajustadas regularmente (o que hoje resulta lindamente, amanhã já não resulta tão bem). Recordem-se que as crianças estão em constante desenvolvimento e que existem outras variáveis que podem explicar as fases em que ficam mais agitadas – sono, fome, dentes a nascer, calor, saltos de desenvolvimento, entre outros.

Nem sempre seremos bem-sucedidas, contudo garanto-vos que apresentar alternativas/sugestões de comportamentos é “meio caminho andado” para que a criança redireccione a sua atenção e se foque noutras actividades. Além disso, estamos a dar  sinais claros sobre o que esperamos dela – dizer que quero que se porte bem é do mais vago que existe, explicar que prefiro que monte uma torre de cubos do que se meta em cima da cadeira é mais esclarecedor. Importa referir que as expectativas sobre o comportamento dos nossos filhos, isto é, dizer-lhes abertamente o que espero deles, têm um papel fundamental.

O que aqui vos apresento são apenas alguns dos muitos factores facilitadores do ajustamento comportamental. No próximo post iremos mais a fundo, falando dos estádios de desenvolvimento psicossocial. Fiquem por aí!

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Menina, Mulher & Mãe

Sexualidade depois do nascimento do bebé – muitos 8 e poucos 80

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Lá vem ela pegar em temas tabu, falar daquilo que não é suposto falar, expor o lado menos cor-de-rosa da maternidade (guilty as charged!). O que a maternidade tem de belo sobrepõe-se em grande escala aos aspectos menos bons, contudo estes últimos existem e por vezes tomam dimensões Herculianas – quando deveriam ser do tamanho de ervilhas baby – por não serem abordados com naturalidade. Deste modo, instaura-se a crença de que “se tenho um assunto que me preocupa mas ninguém fala nele é porque deve ser mesmo grave, raro, motivo de vergonha e/ou culpa, por isso vou continuar a ruminar (pensar nele repetidamente) e a sentir-me “menos normal”.

Por isso, como diz a canção: Let’s talk about sex, baby / Let’s talk about you and me / Let’s talk about all the good things / And the bad things that may be…

Se vos perguntassem pelo nível de satisfação com a vida sexual depois do nascimento do bebé e pudessem responder com sinceridade, o que diriam? Ainda não leio pensamentos, mas posso-vos dizer que as respostas iriam variar mediante diversos aspectos. Mais, a literatura sobre o tema defende que a resposta que dão hoje poderá ser consideravelmente diferente da que darão daqui a 6 meses.

Vamos, então, explorar os factores que condicionam a sexualidade nesta fase.

Satisfação Conjugal

A transição para a parentalidade é apontada como uma altura em que se verifica o aparecimento ou agravamento de dificuldades sexuais. São vários os estudos que demonstram que a satisfação conjugal diminui bastante durante a gravidez e o nascimento do primeiro filho (escrevi sobre isso neste post Aprendemos a ser pais, desaprendemos de ser casal). Em ambas as fases, sabe-se que as mulheres mais satisfeitas com a relação conjugal tendem a sentir maior satisfação sexual (meus senhores, as coisas estão ligadas, invistam em deixar as vossas senhoras felizes). Também é do conhecimento público que os casais com níveis mais elevados de satisfação conjugal antes da gravidez, ainda que sofram a diminuição dessa satisfação durante o processo de gestação e pós-parto, continuam a sentir-se mais satisfeitos do que os casais que apresentam desde o início relacionamentos mais conturbados.

O desinvestimento na relação conjugal para investir na relação de vinculação com o bebé – o que se traduz numa menor atenção ao cônjuge –  as tarefas ligadas à parentalidade, a readaptação da rotina, também podem explicar a menor satisfação conjugal. Naturalmente, nem todos os casais enfrentarão os mesmos obstáculos – o temperamento do bebé, as suas necessidades e inseguranças são distintos (há bebés mais exigentes do que outros).

Em tom de nota, é interessante saber que depois do parto o que motiva a maioria das mulheres para o acto coital é a percepção de obrigação marital ou da necessidade de satisfação do outro, isto é, a maioria das mulheres não o fazem porque sentem vontade ou é importante para si, mas sim por ser parte das suas obrigações enquanto companheira ou por saberem que é importante para o cônjuge.

Factores fisiológicos (as nossas “amigas” hormonas)

Sobretudo nas mulheres que amamentam, os elevados níveis de prolactina suprimem a produção de estrogénios, o que leva ao decréscimo da lubrificação e ao estreitamento vaginal. Tal torna a penetração mais dolorosa e desconfortável, sendo que em média 40% das mulheres sente dor na primeira relação sexual após o parto. Além disso, sabe-se que a prolactina reduz o desejo sexual.

Importa também referir que as hormonas influenciam o humor da mulher, podendo deixá-la mais deprimida e menos interessada pelo acto sexual.

Ainda dentro deste tópico, existem teorias que defendem que a mulher ao amamentar vê preenchidas as suas necessidades de toque/contacto, o que torna a intimidade com o parceiro menos indispensável.Outras apontam o desgaste provocado pela amamentação como condicionante da disponibilidade física e psicológica da mulher para procurar intimidade (atenção, com isto não pretendo levantar obstáculos ou apontar desvantagens à amamentação, apenas quero que possuam informação sobre o que pode estar a acontecer).

Proximidade temporal do parto

Sabe-se que o relacionamento sexual da generalidade dos casais nas primeiras semanas de pós-parto, por ser medicamente desaconselhado, é quase inexistente. Gradualmente, este contacto vai aumentando – estima-se que entre o 2º e o 3º mês depois do parto a grande maioria dos casais retomem a actividade sexual. Contudo, durante algum tempo, para uns durará meses, para outros serão anos, o interesse, a frequência e satisfação sexual poderão ser inferiores ao que eram antes da gravidez – estes são os tais “8” de  quem falo no título e que representam a maioria dos casais. Contudo, existem os “80”, em minoria, que relatam maior satisfação sexual após o parto.

Para alguns casais o contacto sexual mantém-se quase inexistente nos primeiros anos de vida do bebé. Sabe-se que cerca de 33% desenvolvem problemas psicossexuais depois do nascimento do primeiro filho.

O clímax na primeira relação coital depois do nascimento do bebé é atingido por apenas 20% das mulheres; entre o 3º e o 6º mês esse valor passa a ser de 75%.

Sono, cansaço, fadiga, Zzzzz…

Acho que aqui bastava o título, todos sabemos do que estou a falar. Aquele cansaço extremo que se instala e te diz: “aproveita para dormir porque daqui a 1h a tua filha vai voltar a acordar“. É como se mentalmente fizéssemos uma lista de prioridades em que a necessidade de descanso passa bem lá para cima e a necessidade sexual vai descendo.

Saúde Física

Obviamente, mulheres cujos partos foram mais exigentes, que implicaram grandes intervenções e cuja recuperação é mais demorada, irão ter maior dificuldade, e provavelmente menor motivação, para retomar a actividade sexual. Além disso, outros problemas que possam surgir no pós-parto (sangramentos, dores, desconfortos) funcionam como obstáculos.

Imagem corporal e auto-estima

As alterações que ocorrem durante a gravidez e que se arrastam pelo período pós-parto condicionam a  percepção de controlo sobre o corpo. Em poucos meses podemos mudar muito, ganhar ou perder muito peso, deixar de reconhecer aquele corpo que sempre nos pertenceu. Tal pode levar-nos a sentir pouco confortáveis com o nosso corpo na altura de intimidade, a que o toque seja sentido como desagradável (mentalmente só pensamos “bolas, ele está a sentir aquela maldita banha”.

Aqui os companheiros têm um papel fundamental. Sim, temos de nos sentir bem independentemente dos outros, “mimimi”, mas a verdade é que os elogios são fulcrais, sobretudo daqueles que nos são significativos. Não digo para as pessoas mentirem, mas certamente estas mulheres continuam a ter pontos fortes que podem ser valorizados.

Teorias da Taniscas (a parte em que invento umas ideias para parecer bem)

Em conversas que tenho tido com várias mães, percebi que nalguns casos, sobretudo quando os bebés são mais pequeninos, sentem dificuldade  em continuar a percepcionar o corpo como lugar de estimulação sexual e prazer, passando a vê-lo como fonte de protecção para o bebé, de calor, de alimento – neste ponto tenho vários relatos de mães cuja estimulação dos seios as faz contorcer-se de tão desconfortáveis que se sentem; ainda ontem uma mãe me dizia: “eu não quero que ele me toque nos seios, estes são os pratos do meu filho”.

Acredito também que existem bebés que não querem para já ter maninhos e que como modo de prevenção instalaram um detector na cama dos pais que os alerta para acordarem e desatarem aos berros cada vez que os pais tentam ter relações sexuais (tenho a certeza que terei imenso apoio nesta teoria!).

Para escrever este texto baseei-me em vários artigos. Destaco este – http://repositorium.sdum.uminho.pt/bitstream/1822/4720/1/SEXUALIDADE%20NA%20GRAVIDEZ.pdf –  como o mais acessível e completo. Se quiserem mais informação, aproveitem para espreitar.

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Menina, Mulher & Mãe

A casa pode esperar, a minha filha não!

Antes de passar ao conteúdo do post, preciso de partilhar uma coisa super gira que aconteceu. Ainda estou aqui meio tolinha, “ele” há com cada coincidência… Nos últimos 5 dias a Leti esteve em casa para aproveitar umas mini-férias do pai. Tê-la em casa resultou num caos doméstico maior do que o habitual. Tal fez-me recordar do tempo em que vivia a sentir-me culpada por não cuidar da casa para dar atenção à Leti, em que me sentia pressionada a ser a melhor mãe, companheira e dona de casa do mundo. Depois de andar a maturar no assunto, decidi que tinha de escrever sobre isto!

Estava a terminar de escrever o post quando o meu querido computador bloqueou e tive de o reiniciar (um dia afogo-o, mas não lhe contem!). Ao abrir a página abriu-se também o FB e eis que me aparece um artigo de “A mãe é que sabe”, partilhado num grupo que sigo. Percebi pelo título que o tema era o mesmo do post que estava a escrever, como gosto pouco de “macaquinhos de imitação” decidir ler para ver se o meu seria mais do mesmo. Além disso, o título correspondia a uma frase que digo imenso, logo tinha mesmo de ver do que se tratava. A magia acontece aqui – ao começar a ler o texto (http://amaeequesabeblog.blogspot.pt/2016/03/o-que-fiquei-de-te-dizer.html) apercebo-me que a mãe sobre a qual a Joana Gama escreveu em Março do ano passado sou eu! (ui que sou tão famosa e alvo de obras literárias!). Enquanto lia o texto da Joana revivi aquele dia em que por mero acaso as nossas filhas engraçaram uma com a outra e trocámos algumas palavras; nesse dia estava particularmente cansada, desamparada, estava no parque mas tinha na cabeça um turbilhão de questões sobre se estaria a fazer bem o meu papel de mãe, se dar tanta atenção à Leti ao invés de cuidar da casa seria o melhor – hoje sei que foi e sempre o será!

Fiquei emocionada ao ler o texto, confesso que me senti orgulhosa por ter resistido a todas as pressões – dos outros e minhas –  e ter vivido a maternidade como acredito que deve ser vivida – como já dizia na altura, e a Joana citou, “não consigo arrumar a cozinha e deixar a miúda a chorar na sala“. Nunca o fiz, nem me imagino a fazê-lo. Os motivos? Esses partilho-os agora (em baixo), no tal post que estava a acabar de escrever.

(o tal post)

Como se não fosse suficientemente exigente ser boa mãe, companheira, irmã, filha, amiga, entre outros, ainda esperam que sejamos excelentes donas de casa (às vezes não são os outros, somos mesmo nós). No meio das horas a dar de mamar ou a preparar refeições com o equilíbrio perfeito de nutrientes e sabor, a mudar fraldas, a dar banho, a lutar para pôr o soro, a inventar brincadeiras super giras em que fazemos vozes e caras que até aí desconhecíamos ser capazes de fazer, a pensar nas melhores maneiras de estimular o seu desenvolvimento cognitivo e motor, a dar miminhos, a embalá-los, a embalá-los e a embalá-los (para captar o número de horas que passamos nisto acho que tinha de escrever esta palavra pelo menos mais 52 vezes), ainda pensamos (ou nos fazem pensar) que temos de ter a casa impecável, como se ao final do dia fosse aparecer aquele senhor do anúncio que passa uma luva branca no móvel para verificar se existem resíduos de pó.

Talvez algumas pessoas entrem em nossa casa e pensem  que “esta gaja teve o dia todo em casa e não fez quase nada“, que “a maternidade a deixou desleixada“, que “a Dona Maria da Luz tinha 5 filhos, vivia sem água potável e mesmo assim tinha  a casa sempre a brilhar“. Na verdade, pouco importa. Lá em casa a felicidade mede-se pelo brilho dos olhos da minha filha, não pelo brilho do chão. Essa é a prioridade, a nossa missão!

Se isto não chega, vamos a factos! Já alguma vez pensaram na duração do ciclo de vida de um filho? Imaginem um gráfico em que o número de horas de convívio começa bem lá em cima, mas depois disso vai descendo gradualmente até chegar à adolescência, altura em que desce a pique por, naturalmente, os pares (amigos, colegas, namoricos) passarem a ser prioridade. Ainda que actualmente os jovens adultos vivam mais tempo com os pais, acabam por passar pouco tempo em casa. Bem espremido, isto talvez nos dê um total de 25 a 30 anos de convívio diário, sendo que apenas  12 ou 14 desses anos – na melhor das hipóteses – são de grande contacto; depois disso claro que continua a existir proximidade, mas não nos mesmos moldes. Nessa altura, sabem quem é que estará à vossa espera? As tarefas de casa! Essas vão conviver connosco até ao final dos nossos dias, teremos montes e montes de tempo para elas, até demasiado, e contrariamente ao que acontece com os nossos filhos, estas não ficarão sentidas por terem esperado, não se sentirão pouca amadas.

Ainda que por vezes possa custar olhar para a roupa por passar, para a loiça do almoço por lavar, para aquele cotão no cantinho da porta que está sempre a aparecer e ao ver-te passar vai cantarolando “não me apanhas, não me apanhas“, lembra-te que é uma fase. Acho que a maternidade exige que se faça esta aprendizagem de  viver feliz no meio do caos. Mais para a frente terás milhões de horas para investir em ti enquanto dona de casa, para andar a esfregar os cantos da banheira com uma escova de dentes. A casa não sente a tua falta, não chora por ti, não vai mais tarde dizer que lhe proporcionaste uma excelente infância, não vai cuidar de ti quando um dia precisares.

Estás a investir em ti enquanto mãe, no teu bebé que precisa tanto de ti para se sentir amado.Estás a construir uma relação sólida (vinculação) que determinará o futuro do teu filho de uma maneira que talvez nem antecipes (os estudos mostram que a vinculação dos pais com a criança condiciona a relação que este em adulto vai estabelecer com os outros, como encara as adversidades, as expectativas que tem sobre o mundo, isto é, se é um lugar que nos acolhe, cheio de potencialidades, ou um lugar assustador, recheado de obstáculos). No fundo, diariamente ajudas alguém a construir-se, a descobrir-se e a descobrir o mundo, vives com o futuro nas mãos. Em relação ao resto das tarefas, amanhã também é dia! (e depois de amanhã também).

P.s: Joana, obrigada pelas palavras naquele dia, chegaram no momento certo, abriram-me caminho para viver a maternidade como acho que deve ser vivida. Espero com este texto conseguir fazer o mesmo por outras mulheres-mães.

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