Menina, Mulher & Mãe

As 10 síndromes que caracterizam a maioria das mães

As mães são a espécie mais fascinante e intrigante que irás conhecer. Na verdade, chegam a ser um bocado estranhas, é preciso tornares-te parte da “manada” para as compreenderes melhor (e mesmo assim, ui ui!). Existem 10 síndromes que quase todas têm e que justificam os seus comportamentos peculiares (talvez não existam, mas tenta acreditar que sim, torna-se mais fácil lidar com elas).

1 – Síndrome do Sono de Golfinho

Tal como os golfinhos, que por não poderem adormecer no meio do mar ao longo do dia vão desligando alternadamente cada hemisfério cerebral durante 17 segundos, as mães que se vêem impossibilitadas de dormir várias horas seguidas vão poupando recursos ao manter  um hemisfério cerebral activado de cada vez. Isto pode explicar o motivo de não saberem onde estão as coisas (“viste onde pousei o creme da cara do bebé?“), o facto de repetirem a mesma coisa dezenas de vezes (“já tinha dito isto?“), a emissão de grunhidos em vez de respostas (hummmm), e as respostas que não se lembram de ter dado (“eu tenho a certeza que nunca disse isso“). O cérebro não está a funcionar em pleno, apenas metade está activada de cada vez, por isso haja compreensão (ou então fiquem vocês acordados a cuidar do bebé e irão ver o golfinho virar sereia).

2 – Síndrome das Celebrações Bizarras

Opa, fez cocó até ao pescoço, fiquei mesmo feliz por o ver tão aliviado“, “Pus o soro e era ranho a sair por todo o lado, que bom!“. Estas e outras frases são ditas diariamente por mães , eu própria já fiz danças da vitória que envolviam a macarena e o moonwalk por motivos destes. Sejamos sinceras – para quem vê de fora estas comemorações são muito maradas.

3- Síndrome do “Nem Contigo Nem Sem Ti”

Ora queremos que os nossos filhos acordem pois estamos cheias de saudades, ora olhamos fixamente para o relógio enquanto torcemos para que seja hora da sesta; ora queremos que vão brincar sozinhos, ora nos vamos meter nas brincadeiras; ora queremos que comecem a ser mais autónomos, ora tentamos fazer com que voltem a precisar de nós; ora temos vontade de os atirar janela fora (salvo seja), ora choramos por termos pensado isso e nos agarramos a eles enquanto fazemos promessas de amor. A maternidade é assim, uma montanha russa em que vamos do ponto mais alto ao ponto mais baixo (e vice-versa) em segundos. Por vezes sentimos que não sabemos o que queremos, queremos tudo e ao mesmo tempo não queremos nada – deixem lá, é da síndrome!

4- Síndrome do “Over and Out”

A comunicação das mães nos parques é das coisas mais hilariantes que existem:

– Olá, tudo bem?

– Sim e com vocês? (entretanto já um dos bebés correu para a ponta oposta do parque)

(passado 5 minutos)

– Connosco também. Ontem vi uma reportagem muito gira era sobre…(lá o bebé a puxa para o baloiço)

(passados outros 5 minutos volta a conseguir aproximar-se da amiga)

– …era sobre a amamentação no primeiro ano de vida.

– Ah, não vi, deu em que canal? (já nem consegue ouvir a resposta, é puxada para ir atrás de uma bola)

Acreditam que conseguimos passar uma tarde nisto? É verdade, uma conversa que na esplanada de um café duraria menos de 10m, no parque rende 2 horas. Se têm dificuldade em arranjar assunto e manter uma conversa, arranjem uma criança e vão até ao parque mais próximo.

5- Síndrome do “Será que?”

Apesar do síndrome de golfinho, as mães dedicam tempo e recursos à procura de respostas para várias questões criadas por si: “Será que ele devia entrar mais cedo/tarde para a creche? Será que lhe estou a dar uma boa educação? Será que devia dar-lhe mais/menos colo? Será que devia praticar outro tipo de alimentação? Será que sou boa mãe?Será…será…será?“. Estas e outras questões assombram a maioria das mães, surgem repentinamente e entram na festa sem serem convidadas; algumas causam um sentimento enorme de angústia e frustração. Embora de início seja difícil lidar com tantas incertezas, com o tempo vamos conseguindo responder com convicção a cada uma destas perguntas.

6- Síndrome de Doraemon

Lembram-se do Doraemon? Aquele gato azul vindo do futuro que tinha uma bolsinha mágica de onde tirava todo o tipo de objectos e engenhocas para ajudar o seu amigo humano Nobita. Pois é, as mães também têm este poder. Faz o teste – experimenta pedir um objecto qualquer a uma mãe, como uma chave estrela ou um palito, vais ver que depois de ela revirar a bolsa do bebé irá encontrar o que acabaste de pedir. Pensando bem, começo a achar que estas bolsas devem ter um fundo falso.

7- Síndrome do Nervo Óptico Latejante

“Já não mama? Ai, eu tinha leite suficiente para alimentar 5 bebés”. “Ainda não fala? Os meus começaram a falar ainda eu estava no recobro”. “Faz birras? Eu sempre consegui educar os meus para que não me fizessem passar vergonhas”. Se repararem, enquanto as mães ouvem estas pérolas um dos olhos começa a ficar semicerrado e vai tremendo, enquanto aumenta e diminui de tamanho (não consigo escrever sobre isto sem que a síndrome dê um ar de sua graça). Esta síndrome é activada com questões descabidas, comentários inoportunos e comparações desnecessárias. Solução: não chatear as mães com conversas da treta.

8 – Síndrome do “Vou só comprar umas calças mas afinal volto com um saco de roupa de bebé”

Um título gigante mas que capta a essência da síndrome. Quantas de nós abrem o armário, reparam que precisam urgentemente de ir comprar umas calças, deslocam-se até ao centro comercial com esta missão e voltam cheias de sacos com roupa para o filhote e sem uma única peça para si, inclusive sem as tais calças que tanto precisavam? Tão típico que até dói!

9 – Síndrome de Culpa

Infelizmente, a maternidade e a culpa andam frequentemente de mãos dadas. Essa culpa resulta da própria apreciação das mães, mas também lhes é frequentemente apontada pela sociedade. A criança come pouco? A culpa é da mãe que não faz sopas saborosas. A criança atira-se para o chão no hipermercado? A culpa é da mãe que não a soube educar. A criança adoeceu? A culpa é da mãe que não a agasalha convenientemente.  Os nossos filhotes têm cérebro e, consequentemente, vontade própria, logo nem tudo depende de nós. Além disso, “a culpa” também é nossa cada vez que eles sorriem, que cantam alegremente, que brincam livres, que mostram que são felizes – esta sim é uma “culpa” que nos vai marcar eternamente.

10- Síndrome do Sorriso Babado

Experimentem olhar para uma foto do vosso bebé e tentem não sorrir. Impossível! O mesmo se passa quando os vemos dormir, quando nos olham nos olhos, quando passam aquelas mãos gulosas pelos nossos rostos ou até enquanto se espremem para fazer cocó. Ao falarmos deles, até das coisas que nos agradam menos, acabamos por ficar com os olhos brilhantes e lá vem o sorriso babado. Nós amamos tanto estes seres pequeninos que quase tudo o que fazem nos enche de felicidade, às vezes nem conseguimos explicar o motivo de tanta alegria. Sinceramente, nunca sorri (e ri) tanto como desde que sou mãe.

3m’s – Menina, Mulher e Mãe

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Nutrição

A introdução de alimentos nos bebés: parte I

Este último fim de semana fui almoçar em família, com os meus pais, as minhas irmãs e os nossos cinco filhos. O meu sobrinho mais velho, com 15 meses, estava com fome e a minha irmã sentou-o à mesa para comer. Fiquei surpresa quando, logo de seguida, a vejo tirar caixinhas de comida que tinha trazido de casa. A minha surpresa é maior porque falamos muitos sobre estas coisas, mas já diz o ditado “santos da casa não fazem milagres”…

Tenho de referir que o almoço para os adultos era arroz de legumes, frango assado caseiro e legumes salteados. Havia ainda broa, pão caseiro, salada, grão estufado com especiarias, queijinhos e azeitonas.

Os bebés a partir dos 12 meses já podem comer de tudo. Serão naturalmente excepções ao “tudo”, aqueles produtos a que chamo de lixo alimentar – sumos, batatas fritas de pacote e similares, bolos, gomas, folhados – cuja introdução na alimentação da criança deve ser atrasada tanto quando possível, especialmente tendo em consideração que não é o bebé que decide o que come, são os pais que determinam as escolhas daquilo que oferecem.

Olhando para a ementa disponível, consigo facilmente encontrar opções, como o arroz de legumes, o frango e os legumes, de entre as quais conseguiria fazer um prato para o meu sobrinho, mas a verdade é que muitos pais perpetuam a ideia de comida “especial” ou “específica”, normalmente passada, onde a variedade de ingredientes é diminuta.

A partir dos 12 meses, o bebé deve participar da alimentação da família, processo que se vai iniciando aos 6 (ou aos 4 para quem não faz aleitamento materno exclusivo), pois é assim que o bebé aprende comportamentos, padrões, hábitos e rotinas alimentares.

É ainda normal existir alguma preocupação por parte dos pais com o facto de os bebés ainda não terem dentes para mastigar, continuando por esse motivo a passar (muito bem passadinho) tudo aquilo que lhes dão. Os molares são dos últimos dentes a aparecer, se ficarmos à espera que surjam, não treinamos as crianças a mastigar de forma adequada. As gengivas permitem mastigar alimentos confeccionados, como legumes, arroz, massa, batata, peixe, carne e mesmo diversas frutas cruas, como manga, papaia, pêra, melão, pêssego, entre outras, para além da tradicional banana.

Existem diversos estudos que demonstram que quanto mais atrasamos a introdução de textura nos alimentos (que deve ocorrer por volta dos 7 meses), maior a dificuldade no desenvolvimento da competência respectiva e, naturalmente, a aceitabilidade por alimentos não passados.

Claro que, muitos destes receios, têm que ver com o medo de os bebés se engasgarem. Não triturar completamente os alimentos, não significa oferecer-lhes pedaços grandes. Os alimentos devem ser, inicialmente, apenas esmagados e posteriormente cortados em pedaços pequenos. É, certamente, fácil e seguro triturar tudo, mas, como pais e educadores, temos de nos libertar da ideia de que eles não são capazes, porque para ser capaz é preciso treinar, treinar muito e em conjunto, num trabalho de equipa entre nós e os nossos filhos. Somos nós que temos de lhes proporcionar as ferramentas adequadas, através da oferta de alimentos adequados, em porções e texturas adequadas, para que eles possam desenvolver as competências necessárias

Cláudia Viegas

Docente na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril

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Actividades em Família

Escapadelas em família com desconto? Yes we can!

Confesso que sou algo selectiva nos locais onde vou com a Letícia. O meu mantra é: se for para sair é para me divertir, se é para me chatear em casa prefiro ficar (não o digo desta forma ridícula, mas bem espremido é isto). Gosto de locais onde ela possa andar livremente, sem que lhe sejam exigidos comportamentos contranatura, como estar quieta e em silêncio. Além disso, ter tudo à mão é essencial para mim, incomoda-me andar às voltas para lhe ir lavar a chucha ou aquecer a sopa. Por  tudo isto que refiro, mais as questões de orçamento, nunca saímos de Lisboa. Recentemente o pai teve uns dias de férias que coincidiram com o Carnaval e o seu aniversário, e sabem que mais? Fartei-me de estar neste corre-corre! Numa madrugada decidi que não me iria deitar enquanto não encontrasse um local baby friendly para irmos passar uns dias.

Durante a pesquisa apareceram diversos sítios que afirmavam ser ideais para famílias mas que na realidade me pareciam demasiado formais, mentalmente quase conseguia ouvir a música clássica a tocar de fundo e uma voz nasalada a dizer: “Bernardo, esse garfo é de sobremesa, o menino tem de usar aquele para a refeição”. Depois de algumas voltas apareceu-me um potencial candidato – espaços verdes, quartos funcionais, pequeno-almoço incluído, pagamento no local (não uso cartão de crédito), excelentes comentários dos visitantes; estava decidido, tinha de ligar para lá. Na manhã seguinte telefonei e esclareci todas as dúvidas com o Filipe, o proprietário. Fiquei imediatamente rendida à simpatia e paciência com que este respondia às minhas perguntas de mãe, além disso confirmei que tinham alguns recursos que fariam toda a diferença, entre eles: uma cozinha a que os hóspedes podem aceder a qualquer hora (assim podia aquecer o leite da Leti sem ter de me chatear e poderíamos fazer refeições menos dispendiosas, como no dia em que comprámos churrasco); mini-bar (usei para guardar o leite, os iogurtes e a sopa que levei para a diva); espaço verde com escorregas para os pequenotes; pequeno-almoço com opções saudáveis; proximidade do campo e da praia (o que poderia pedir mais?), ficar a apenas 35/40 minutos de Lisboa (as portagens foram super acessíveis, perto de 2 euros ). Tendo em conta estas condições, o facto de a nossa estadia coincidir com dias festivos e a proximidade que estaríamos do local da festa – o Vila Louro fica na Silveira e nós íamos para o Carnaval de Torres Vedras – o preço pareceu-me justo.

Estava toda entusiasmada com a nossa primeira saída em família. Pensei para mim que seria giro não contar nada ao Mauro, apenas avisá-lo que dia 27 iríamos sair de manhã e voltar no dia 1. Nessa noite jantámos em casa da minha mãe, durante o jantar o homem lembra-se de dizer: “era giro irmos passar o Carnaval a Torres Vedras, não era?”. Pensei logo que ele tinha cuscado a minha pesquisa. Mais tarde fiz-lhe um grande interrogatório, daqueles em que os sentamos numa cadeira e lhes apontamos uma luz forte à cara, mas afinal foi apenas uma coincidência daquelas – quando jura pela nossa filha é porque “o papo é sério”.

Guerreiras, posso-vos dizer que foi uma excelente decisão. O Vila Louro – https://www.facebook.com/vilalouro.al/?fref=ts – é um local excepcional que junta alguma classe e requinte a um ambiente descontraído, muito tranquilo, onde apenas se ouvem os passarinhos pela manhã (de janela fechada não se ouve nada, não se preocupem). Nós ficámos no quarto que a foto mostra; acreditam que o Filipe teve o cuidado de colocar um berço super fofinho aos pés da cama e até uma toalha de banho própria para bebés? O nosso colchão era excepcional mas o da Leti devia ter algo mágico, a princesa queria estar sempre lá, além de ter dormido a noite toda sem fazer os seus habituais rituais do tapa/destapada, gemer para refilar das meias ou simplesmente chamar-me meia sonolenta. Existe ainda o miminho de deixarem saquetas de chá, canecas e um jarro eléctrico no quarto – para as mamãs que dão LA, não precisam de sair do quarto para preparar o leite.

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leti berço

Pela manhã, lá ia o pai à cozinha aquecer o leite sem qualquer problema (deixo-vos fotos da noite em que jantámos “em casa” para que vejam a cozinha).

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O pequeno-almoço acontecia numa sala de vidro, podíamos ver tudo o que nos rodeava enquanto lentamente saboreávamos  os excelentes ovos mexidos com bacon que o Filipe preparava. Existia sempre fruta fresca, vários tipos de sementes, leite, café, sumo de laranja, iogurte grego, pão, croissants, pastéis de nata, e muito mais (podem ver nas fotos).

Depois do pequeno-almoço era hora de ir explorar o local. Como se vê nas fotos, a Letícia ficou encantada com os escorregas e com o telescópio (para ela era um microfone). Adorou correr livremente, tocar nas árvores e chamar as flores (“flô, anda, flô“). A cereja no topo do bolo foi o lago com peixes e sapos. Ela adora sapos – talvez devido à música “eu vi um sapo” – e, por causa do Nemo, anda doida pelos peixes. Acho que por ela as férias teriam sido passadas em torno do lago.

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Como ficámos apenas dois dias, e um deles foi dedicado ao Carnaval, não chegámos a ir à praia. Contudo, o Mauro diz que conseguia ouvir as ondas (estávamos mesmo pertinho da praia de Santa Cruz).

No regresso aproveitámos para passar pela Tapada Nacional de Mafra (http://tapadademafra.pt/pt/). Fizemos a visita de carro eléctrico pela Tapada – a visita dura 1h e tem o custo de 12 euros por adulto, as crianças pagam mas não sei a partir de que idade. Posso dizer-vos que tivemos imensa sorte, vimos vários animais, alguns até se aproximavam do carro. A Letícia passou a visita a gritar “uau“, “anda cá” e “fixe“; já os pais aproveitaram o ar puro e a beleza daquele sítio em que o verde não tem fim.  Caso queiram visitar, a guia recomendou o mês de Maio como a altura em que a vegetação está mais bonita e em que as crias de diversas espécies já circulam pelo parque.

Confesso que ao rever as fotos fiquei com imensa vontade de voltar. Apesar de terem sido poucos dias, acho que tiveram um grande impacto em nós. Como contei num post da página – https://www.facebook.com/3msmeninamulhermae/ – na segunda noite a Letícia deitou-se  e pediu para nos aproximarmos, depois enrolou os braços em nós e deu-nos imensos beijinhos; dei por mim a pensar que ela parecia estar a agradecer-nos e não é que quase em simultâneo ela nos diz “obigado?! (coincidência ou não, derreti-me!).

Por vezes a correria e toxicidade da cidade não nos deixam ver o essencial, andamos stressados e ignoramos as coisas belas que nos rodeiam. Nestas mini-férias pudemos abrandar, descontrair e respirar (até disto acabamos por nos esquecer).

Como quero muito que vivam esta experiência, tenho boas notícias: DESCONTOS!!! Sim, o Vila Louro criou um código promocional especial  para as minhas seguidoras “mai” lindas (3ms_vilalouro), de maneira que já têm uma óptima desculpa para fazerem uma escapadela em família. Atenção – para usufruírem do código promocional (10% de desconto) deverão efectuar a marcação directamente com o Vila Louro por e-mail ou por contacto telefónico.

Aproveitem esta oportunidade e vão ser felizes, vocês merecem!

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Guerreiras com 3M's grandes

Guerreiras com 3M’s grandes – a história da Sandra, da Francisca, do Guilherme e do Rafael

Nunca esta rubrica teve um título tão grande. Costumamos falar de verdadeiras guerreiras que lutam pelos seus filhos, habitualmente um com necessidades especiais; desta vez são 3. Sim, a Sandra é mãe de trigémeos – dois “verdadeiros”, o Guilherme e o Rafael, e um “falso”, a Francisca.

Como qualquer gravidez de trigémeos, esta foi uma gravidez de risco. O parto ocorreu às 32 semanas de gestação, os bebés foram imediatamente encaminhados para os cuidados intensivos e aí permaneceram devido a problemas respiratórios.

A Francisca, aos 2 meses, foi a primeira a dar sinais de algumas dificuldades a nível motor. Na altura diagnosticaram-lhe Leucomalácia Periventricular, uma forma de lesão cerebral, que foi desvalorizada por apenas ser possível avaliar a sua gravidade ao longo do desenvolvimento.

O Guilherme e o Rafael não apresentavam problemas mais sérios.A  Sandra notava que eram bebés mais “moles” (hipotónicos) e partilhava esta preocupação com os médicos, estes justificavam a hipotonia com o facto de os bebés terem nascido prematuros e afirmavam que provavelmente não existiria nenhuma causa mais séria. Por terem bronquiolites com frequência, os meninos começaram a fazer cinesioterapia. Numa das sessões, aos 8 meses, o Rafael teve uma paragem respiratória – foi reanimado e ficou internado nos cuidados intensivos em estado crítico. Após várias análises e exames perceberam que existiam indicadores de um problema metabólico, confirmou-se o diagnóstico de Síndrome de Leigh – basicamente, devido a uma alteração de cromossoma a enzima responsável por transformar os hidratos de carbono e o açúcar em energia não funciona. Por serem gémeos verdadeiros, fizeram as mesmas análises ao Guilherme e o resultado foi igualmente positivo.

Nesta fase, com 3 bebés de apenas 8 meses, os pais viram-se confrontados com uma dura realidade – a Síndrome de Leigh não tem tratamento, podendo-se actuar apenas ao nível das problemáticas inerentes como a epilepsia e os problemas respiratórios, e implica uma esperança média de vida muito baixa. Além disso, foi-lhes dito que nenhum dos gémeos viria a andar. Foram feitos baptizados à pressa, passaram por muitas idas às urgências e internamentos durante os dois primeiros anos.

Hoje os trigémeos têm 5 anos. A Francisca tem paralisia cerebral, contudo o seu funcionamento cognitivo é muito satisfatório. Graças às várias terapias que faz conseguiu ganhar alguma força nas pernas. O Rafael consegue dizer algumas palavras, tem uma certa força no tronco e controlo cefálico; o Guilherme mostra-se mais afectado pela doença.

Para dar apoio aos filhos, a Sandra, como a maioria das prestadoras de cuidados, teve de abandonar a actividade profissional. Nenhum dos filhotes consegue comer, vestir-se ou tomar banho de forma autónoma, além de que os rapazes necessitam de fazer uma dieta especial que lhes é oferecida através de uma espécie de sonda. No fundo, esta mãe vive em torno dos filhos, sem nenhuma lei que a proteja (assim como a outros pais nesta situação), sem apoio domiciliário (por exemplo, quando precisam de apoio de enfermagem têm de pagar), sem um local que receba os filhos durante umas horas para que os pais possam recuperar energias (o único local que presta este serviço a crianças com menos de 12 anos fica no Norte do país).

Não são só as condicionantes referidas que afectam esta família. Sair de casa com 3 crianças em cadeira de rodas é igualmente desafiante; em termos de logística são necessários 2 carros. Depois de se superar esta primeira barreira, surge a segunda: para onde ir? A Sandra desabafa que a maioria dos locais não têm equipamentos adaptados a estas crianças, não têm acesso para cadeira de rodas, têm elevadores demasiado estreitos, casas de banho que se dizem adaptadas mas cujo design foi testado por alguém sem nenhum tipo de dificuldade; as próprias actividades disponíveis não procuram incluir crianças com necessidades especiais. Esta mulher-mãe lamenta igualmente a falta de empatia e sensibilidade por parte de alguns técnicos (“nem toda a gente deveria trabalhar nesta área“), nota que por vezes os seus filhotes são vistos como “casos perdidos” e por isso há algum desinvestimento. A busca de informação e de tratamentos alternativos por parte dos pais também é por vezes mal recebida pelos técnicos, sendo que as escolhas dos primeiros são postas em causa.

Apesar dos vários obstáculos que enfrentam, estes pais recusam-se a baixar os braços. Procuram todo o género de terapias, geralmente pagas pelos próprios, a fim de garantir que os filhotes têm oportunidade de desenvolver ao máximo as suas capacidades. Investem também em recursos e materiais que facilitem a vida quotidiana dos trigémeos, alguns dos quais não comparticipados.

Como podemos ajudar?

Para fazer face aos custos das terapias particulares os pais recolhem tampas de plástico e levam-nas até uma entidade que, mediante a quantidade de tampas apresentada, lhes atribui um plafond. Posteriormente, utilizam o plafond disponível para abater os valores despendidos nas terapias.

Onde posso entregar as tampas de plástico?

  • CEPSI de Oeiras;
  • Intermarché de Palmela;
  • Igreja da Ramada;
  • Cartório da Ramada;
  • Junta de Freguesia de Odivelas.

Cá por casa já ajudamos há algum tempo, não custa nada. Aproveitei uma embalagem de amaciador para ir colocando as tampinhas usadas, quando enche é sinal de que está na hora de as ir entregar. Para quem não costuma frequentar as zonas indicadas, talvez também possa juntar várias tampas e um dia fazer um passeio que implique passar por um destes pontos; é por uma boa causa. Para nós são apenas tampas que iriam para o lixo, para esta família será mais uma despesa que é abatida.

Gostava de terminar com palavras de admiração e apoio a estes pais. Ninguém imagina o que é viver assim, o esforço que esta família faz para garantir que apesar de todas as dificuldades estas 3 crianças amorosas conseguem ser felizes, o altruísmo subjacente. Da mesma forma que ninguém imagina o que é lidar diariamente com incertezas, com informações dolorosas sobre a esperança média de vida de quem tem esta doença, não saber o que aí virá. Como a Sandra disse várias vezes durante a conversa: “só valorizamos a saúde quando não a temos” (esta frase tem-me acompanhado ultimamente).

Conto com vocês, e com as vossas tampinhas!

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Menina, Mulher & Mãe

O puto selvagem do parque

A semana passada senti imensa vontade de bater numa criança. Eu, Tânia, que nunca bati em criança nenhuma, apesar de ter lidado de perto com 3 primos nas suas várias etapas de desenvolvimento – algumas super irritantes – e com uma filha de 20 meses que (felizmente) não diz que sim a tudo. Quem me conhece sabe que gosto de compreender os comportamentos, perceber o que está a contribuir para a sua manutenção, procurar explicações alternativas e respostas flexíveis. Desta vez nada disso aconteceu. Fui dos 0 aos 100 mais rápido do que um Ferrari. O que mudou? A situação envolveu a Letícia e pela primeira vez senti que ela estava a ser atacada, que tinha de a proteger de alguém.

Dentro da creche existe um parque pequenino mas muito apreciado pela criançada. Este parque tem 2 escorregas – um mais pequeno do que o outro – e uma ponte de madeira a uni-los. A Letícia adora o escorrega pequenino, provavelmente por ser fechado e mais baixo ela sente-se confiante para se aventurar. O nosso esquema é sempre o mesmo – eu ajudo-a a subir as escadas, sento-a no escorrega e depois desço as escadas e chamo-a na parte inferior; ela sabe que só pode descer quando a mamã diz “força, filha, já podes“. Apesar do escorrega ser baixinho a Letícia consegue ganhar velocidade e se eu não a agarrar cá em baixo ela sai disparada.

Há uma semana estávamos a brincar no escorrega, como fazemos sempre que o estado do tempo o permite, quando apareceram várias crianças da sala dos mais crescidos (4/5 anos). Habitualmente estas crianças são flexíveis, têm um certo cuidado para não magoar os mais pequenos pois, embora os achem umas melgas, vêem-nos como “colegas”. Ao sentar a Leti no escorrega reparo que um dos miúdos faz um sinal ao amigo cuja tradução clara seria “vamos empurrá-la“; abordei-os e expliquei-lhes que ela era muito pequenina, que não podia descer sozinha pois não conseguia travar na descida, que se magoaria caso a empurrassem pois eu não estaria lá em baixo para a agarrar e que contava com eles para a ajudarem a ficar sentada enquanto eu descia as escadas. Desço as escadas a correr e quando acabo de contornar o escorrega vejo a minha filha sentada do chão; agarro-a imediatamente e massajo-lhe as costas e o rabinho, enquanto tentava perceber se lhe doía alguma coisa. Olho pelo tubo do escorrega e vejo na parte de cima os 2 miúdos a rirem-se à gargalhada, a olharem para mim e a guincharem de tão deliciados que estavam por terem empurrado a Letícia. Senti-me uma panela de pressão – na cabeça tinha o apito a rodar freneticamente e a deitar fumo, como se fosse rebentar. Expliquei-lhes que ela se tinha magoado, que estava desiludida com eles pois já havia explicado que ela não podia descer assim.

Volto a subir as escadas e os mesmos 2 miúdos aproximam-se com risinhos. Bem, nesta fase a panela estoirou, como disse antes, senti que estavam a fazer mal à minha filha e que era necessário protegê-la. Fiz uma voz mais grossa e disse-lhes que não admitia que nenhum deles a empurrasse, repeti os argumentos mas eles continuavam a insinuar que o iriam fazer. Fartei-me! Olhei-os nos olhos e disse claramente que se alguém lhe tocasse iria lidar com sérias consequências; o que era mais desafiantes ficou meio espantado mas ainda disse em tom de gozo: “não tens coragem“. Ui, mentalmente dei-lhe um palmadão valente! Desci as escadas e a Leti estava lá em cima, toda contente, com os miúdos bastante longe dela.

No meio de toda esta situação eu tentava perceber quem eram os pais daquele miúdo, perguntei-lhe várias vezes alto e a bom som, ele respondia que não me iria contar enquanto se ria. Embora não tenham voltado a empurrar a minha filha, cada vez que ela ia descer o miúdo gritava: “Lá vem aquele miúda estúpida com aquela mulher estúpida!“; ele disse isto algumas 6 vezes mesmo ao lado daquela a quem vim descobrir ser a mãe.

Obviamente observei as interacções entre o miúdo e a mãe e o comportamento dele era facilmente explicado – a mãe ralhava, era bruta, o miúdo ignorava e a mãe entrava em desespero, virava costas, reclamava, ignorava. Enfim, rapidamente íamos do eixo excessivamente autoritário ao eixo permissivo. Esta labilidade (mudança brusca) de estilos parentais, sem consistência, sem estrutura, sem guião (a criança não sabia com o que contar), contribuía claramente para o comportamento extremamente desregulado que a criança apresentava. Reparem que estou apenas a analisar, não a criticar, não faço ideia do que estará subjacente ao comportamento desta mãe – como foi a sua infância, que dificuldades enfrenta, como se sente, não sei nada sobre ela!

Depois de me acalmar (estava furiosa com aquela mãe) e de desbloquear a parte racional que havia sido completamente abafada pela parte emocional, caí em mim – aquela criança deve ser tão infeliz! Pela experiência que tive no contexto da prática clínica, sei bem que qualquer criança que apresente comportamentos deste género está em sofrimento. Já imaginaram como será o mundo interno de uma criança que percepciona os adultos como “estúpidos”, que já não os admira, que não os vê como fonte de apoio e de segurança? No fundo, é uma criança sem referências, sem porto seguro, que deixou de ver o colorido do mundo que a rodeia – é uma criança que não está a ser criança! Tendemos a olhar para estes miúdos como mal-criados e irritantes, o que não deixam de ser, no entanto, estas manifestações de comportamento extremas na maioria dos casos não são prazerosas para eles, são apenas formas de exteriorizar a confusão interna em que vivem.

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