Mom next door

Mom next door – A Fábia e a exclusão do Bernardo

Antes de vos falar da Fábia e do Bernardo, permitam-me que, enquanto mulher formada em psicologia, aponte um aspecto muito importante sobre o autismo – ser autista não é ser tonto, nem parvinho! Estamos a falar de pessoas, ainda que com algum tipo de limitações (por vezes questiono-me se viver desligado da maldade alheia é uma limitação), que têm sentimentos e por isso têm de ser tratadas com respeito, tal como todas as outras (a sério, qual é a dificuldade?!).

A Fábia é mãe da Bianca, de 15 anos, e do Bernardo, um menino de 10 anos descrito como um sedutor, que adora dar miminhos, ir à praia e à piscina, e que no meio de tantas outros coisas que o caracterizam poder-se-ia referir que é autista. Desde cedo habituaram-se aos olhares indiscretos, de algum espanto, cada vez que o Bernardo efectua algum movimento estereotipado ou emite algum som típico. O que Fábia sempre se recusou a aceitar foi que o Bernardo crescesse a sentir-se diferente, por isso procurou por uma escola com ensino integrado.

Recentemente Fábia foi avisada de que iria decorrer a festa de finalista do Bernardo; a professora chegou a ligar-lhe para confirmar se iriam à festa. Por ser um acontecimento importante, esta mãe fez um esforço para poder acompanhar o filho – trocou de turno e alterou a rotina do Bernardo (àquela hora da noite já deveria estar a fazer a dormir).

Ao chegar à festa o Bernardo foi recebido pelos colegas de forma calorosa, como de costume (está bem integrado na turma e gosta dos colegas). Quando chegou a sua vez de actuar, toda a turma foi encaminhada para o palco, excepto o Bernardo; sim, foi o único que ficou de fora. Enquanto os colegas de turma dançavam, esta criança, fora do palco, acompanhava alegremente o ritmo da música com palmas.

Quando questionada sobre o motivo pelo qual o Bernardo ficou de fora, a professora alegou que este seria incapaz de realizar a coreografia. Esta mãe conhece o seu filho, as suas competências, a exigência que cuidar dele representa, e jamais esperaria uma performance semelhante à dos colegas, apenas desejava que o incluíssem, mesmo que isso implicasse que ambos subissem ao palco apenas para bater palmas. Fábia mostra-se também indignada pelo facto de se tratar de uma escola que dispõe de ensino integrado, o que suporia uma maior sensibilização por parte dos professores, da Direcção, dos funcionários, isto é, da comunidade escolar em geral, para este género de situações que mexem com vários direitos básicos, entre eles o direito ao respeito e à integração.

Posto isto, questiono-me sobre a função destas festas de final de ano – permitir que os alunos se unam na criação de um momento divertido para todos ou fazer sobressair os dotes artísticos de alguns? Esta necessidade de criar actuações ao nível dos melhores musicais do La Féria, envolvendo ensaios desgastantes, algum nervosismo nos alunos menos dados a estas lides, professores saturados, parece-me desadequada. Não é suposto ser um momento descontraído e de partilha? Penso que esta premissa tem de ser revista; talvez a criação de um simples convívio, com música e algumas actividades para pais e filhos fosse mais saudável.

Em relação à inclusão de todas as crianças, o que num convívio informal, como sugiro, aconteceria de forma mais natural, poderá sempre ocorrer desde que se queira; é aqui que aqueles esquemas giríssimos que mostram a ligação escola-família-comunidade que adoram afixar nos painéis de cortiça à entrada das secretarias poderiam ser colocados em prática, procurando junto dos alunos, incluindo o Bernardo, dos pais que conhecem tão bem a criança, formas de tornar a actuação exequível para todos. Até que ponto tal não viria a representar uma aprendizagem verdadeiramente importante para aquelas crianças? Na minha opinião, a capacidade de pensar no mundo enquanto local integrador, de entreajuda, ajustável a todos, com espaço para que cada um expresse as suas potencialidades (mesmo que limitadas), é uma competência fulcral, uma base impulsionadora, que se sobrepõe a muitas das aquisições escolares – como funções matemáticas e datas históricas – que passaram o ano a encerebrar.

Bernardo, ainda que fora do palco, brilhaste, meu querido! Graças ao vosso testemunho iremos sensibilizar as pessoas para que todos tenham oportunidade de “estar no palco”.

fabia e bernardo

 

 

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