Menina, Mulher & Mãe

Bitaites – aqui não, obrigado!

São incontáveis as ocasiões em que se dirigiram até mim com “dicas milagrosas” de como cuidar da minha filha. Sobretudo quando somos mães de recém-nascidos, partem do pressuposto que não pescamos nada do assunto, por isso precisamos mesmo de umas postas de pescada valentes.

“Ainda mama? Ah, mas em breve tem de pensar em parar, não vá ela ficar com o vício! Já não mama? Oh que pena, vai adoecer muito mais! Eu nos meus não segurava dessa maneira, faz-lhes mal! Coitadinho do bebé, está a chorar porque tem cólicas/sede/calor/frio/excesso de mimo! Não devia andar com ela ao colo, vai estragá-la, os meus andavam sempre no ovo! Não como bem a sopa? Tem de pôr mais sal e alho”.

Dei por mim a sentir uma vontade imensa de colar na testa a versão “maternidade” daqueles autocolantes que se põem no correio quando não queremos publicidade não endereçada. Seria algo do género da imagem abaixo, só para que não restassem dúvidas de que não pedi opiniões.

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A menos que a mãe esteja a fazer algo de muito grave ao bebé, estilo dar-lhe colo (ui, que grave!!!), ou nos peça directamente opinião, deixemos-la aprender por si. É este processo de descoberta, de tentativa-erro, que cria a forte ligação ao nosso bebé – vinculação – e nos ensina a ser mãe, a sentir o peso da palavra. Encher as mães de palpites é o mesmo que lhes dizer “tu não sabes, eu é que sei“, é fazê-las sentirem-se incapazes, é desvalorizar o seu papel, é desmotivá-las.

Sim, a experiência ensina-nos muita coisa, contudo o que descobrimos que resulta foi testado apenas nos nossos filhos ou em mais algumas crianças, não foi testado em todas as crianças do mundo! Já vi outros bebés reagiram muito bem a coisas que a minha filha detesta que eu lhe faça e vice-versa. Se me pedirem, posso partilhar experiências, ideias que tenho com base em textos que li, mas tal não significa que vá resultar com aquele bebé. Como em quase tudo na vida, aqui não existem verdades absolutas.

Nesta fase em que as hormonas já acalmaram, em que consigo fazer mais que uma refeição por dia e dormir mais de 2h seguidas, questiono-me sobre esta necessidade de opinar. No fundo, as pessoas estão a tentar desesperadamente conduzir o comportamento dos outros para aquilo que acham desejável. Acho, sinceramente, que isto diz muito sobre elas, que revela dificuldade em lidar com a diferença, pouca flexibilidade de pensamento, problemas em lidar com a frustração, e isto, guerreiras, é que é preocupante. Se vos ajudar, sorriam e pensem que estas pessoas é que precisam verdadeiramente de ajuda.

Como diria Fernando Pessoa se tivesse sido mãe: Bitaites sobre a minha filha? Guardo todos, um dia vou construir um castelo… E QUEIMÁ-LO!!!!

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Menina, Mulher & Mãe

A importância de escutares a menina (1ºM) que há em ti – parte I

A photo by Aaron Burden. unsplash.com/photos/rIYhzbhZmBk

Hoje escrevo-te não só como mãe, como também psicóloga, a minha formação.Este post será o primeiro de vários que pretendem oferecer ferramentas que promovam o teu desenvolvimento pessoal, o teu equilíbrio, para que te sintas livre para desempenhar o papel de mãe.

Ao longo da prática profissional tive contacto com várias mães, várias dificuldades; essa convivência aumentou com a entrada no mundo da parentalidade. Encontro muitas mães e dou-lhes o melhor que tenho – abertura para as escutar e aceitar o que estão a sentir. Um tema que emerge, sem que muitas vezes se apercebam, é o da própria infância. De forma muito camuflada, as preocupações que têm em relação aos seus filhotes, ao seu papel de mãe,  devem-se frequentemente à menina que ficou lá para trás e que agora ressurge, carregando uma trouxa cheia de memórias de eventos emocionalmente marcantes.Se pensarmos nisto, faz todo o sentido que assim seja – como posso criar/educar um novo ser sem recorrer àqueles que foram os meus modelos/experiências de educação? (quer seja para os seguir ou para servirem de referência daquilo que me quero afastar).

Agora vou precisar que confies em mim, que dês muito de ti, ainda que não me conheças. Algumas coisas que te irei pedir  podem ao início parecer estranhas ou ridículas, é natural que não te sintas logo confortável a fazê-las, mas prometo-te que se experimentares com empenho vais notar os resultados. Não há nada que eu sugira sem que antes o tenha praticado, podes confiar!

Vou-te pedir que pares uns instantes e te concentres (podes ler isto agora e aplicar noutro altura, quando estiveres mais disponível). Gostava que revisses os melhores momentos da tua infância, como naqueles vídeos que fazem um apanhado; que recordes aquelas alturas em que foste muito feliz (aprecia cada detalhe). Podes fazê-lo durante o tempo que achares necessário.

Agora gostava que pensasses num momento (ou mais) que te marcou pela negativa. O que sentiste? Quem estava lá? Quem gostavas que estivesse estado? O que poderia ter sido feito de maneira diferente? Mais uma vez, não tenhas pressa. Quando terminares, gostava que tentasses  compreender de que modo as emoções que surgiram ainda hoje aparecem nalgumas situações, provavelmente sobre outras formas como pensamentos e/ou comportamentos que tens em relação ao teu filhote e a ti enquanto mãe.

Se conseguires fazer a ponte entre o que vivenciaste na infância e a forma como actualmente respondes aos acontecimentos, vais perceber que essa menina ainda vive em ti e que alimenta não só os teus pontos fortes, como também os teus receios, as tuas inseguranças enquanto mãe. Ao estares ciente da sua presença e influência, ao escutá-la, ao dedicares-te a perceber o que ela necessita de ver resolvido,  compreenderás e aceitarás melhor o que sentes, libertando-te para a vida de mãe.

Nota: Se tiveres alguma dificuldade/questão, podes sempre contactar-me por mensagem privada, estou aqui!

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Se o fim do mundo se der, as mães sobrevivem

Os restantes, por favor, não fiquem tristes! As mães como seres protectores e altruístas que são também assegurariam a vossa sobrevivência. No entanto, há que admitir: as competências que ganhamos com a maternidade tornam-nos num misto de Macgyver com Maria Leal (calma, não quero ofender, peguem só na parte do “não ter noção das nossas limitações”).

Imaginando que o Apocalipse envolveria tsunamis e afins, o primeiro desafio seria abandonar a casa para procurar um abrigo mais elevado. Em poucos minutos, malas teriam de ser feitas, seleccionando pragmaticamente o que seria indispensável. Quem é que é super pro nisto? As mães, pois claro! Num ápice revemos uma lista mental que chega a incluir opções para todos os cenários (e se bolsar? aí mudava a camisa, por isso levo mais estas calças que combinam com o casaco suplente. E se estiver lá aquela pessoa chata que só quer dar-lhe beijinhos? Levo o termómetro, digo que tem andado com febre e venho-me embora). Não queiram entrar na mente de uma mãe, seria traumático!

Rapidamente chegaria o momento de “voar” até aos hipermercados para arrecadar bens essenciais. Para muitos,  ter de escolher sem tempo para pensar, percorrendo os corredores numa azafama, seria aterrador. Bem, para muitas de nós seria apenas mais um dia. Enquanto escolhemos os artigos, os bebés tentam escolher outros, pedem, saturam-se; temos de ter concentração suficiente para, em simultâneo, pedir 1kg de carne picada e cantar o Panda Style, isto quando não se lembram de fazer cocó a meio do processo, entre outros acontecimentos sobrenaturais. Ir ao hipermercado tornou-se uma tarefa algo exigente, que combina aptidões ao nível do arremesso (aqui vai disto para dentro do carro) com rezas para que eles não vejam nada que dê imensa vontade de mexer.

Já temos abrigo, comida, agora resta-nos descansar. Mas como poderíamos descansar quando o perigo é iminente? Muitos acabariam por cair no sono e ficariam vulneráveis – afinal todos precisamos de dormir umas horas seguidas. Eu disse todos? Queria dizer quase todos! Existe uma espécie, de seu nome latino mater, que consegue ficar acordada longas horas, madrugada dentro, fazendo períodos de sono que podem chegar a apenas 1 ou 2 horas, interrompendo e retomando por iguais períodos, durante meses. Identificaram-se com esta espécie, guerreiras? Pois, “é nóis!”.

A escassez de alimentos que se faria sentir com o tempo também seria bem recebida pelas mães. Muitas são as vezes em que passamos o dia a tratar disto e do outro quando de repente nos apercebemos que já são 20h e que só comemos aquele resto de fruta que o nosso amor carinhosamente deixou esborrachada na cadeira da papa, para que não tivéssemos o trabalho de mastigar. Mais um problema resolvido!

Por último, há quem diga que o Apocalipse se traduziria na proliferação de zombies. Há dias em que pareço saída da tumba, com uma cara que não desejo a ninguém, em que me arrasto pelos cantos, mal compreendo o que me dizem e, quando exigem uma resposta, saem-me sons muito parecidos aos que estes amigos vocalizam nos filmes. Acho que daria para nos infiltrarmos!

Obviamente, a maternidade está cheia de coisas boas que irei abordar muitas vezes; evidenciei as menos agradáveis para que lidemos com elas como fiz neste post – com humor!

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O nascimento de uma Mãe também precisa de ser assistido

O bebé nasce, tão frágil mas tão forte, com muito para aprender, disposto a aceitar os novos (grandes) desafios. O mundo recebe-o de braços abertos – pais, família, amigos, obstetras, pediatras, enfermeiros, auxiliares – todos rodeiam esta pequena criatura, disponíveis para a levar em mãos, protegida.

Na marquesa fica uma mulher, estafada, algo desgrenhada (sim, nem todas nos vamos logo maquilhar e pôr o nosso melhor vestido para postar uma foto no facebook). Esta mulher também acabou de (re)nascer – agora é mãe! Contudo, não tem tempo para pensar e interiorizar esse nascimento, o seu bebé precisa tanto dela. E ela dá, sem hesitar.

Durante semanas o mundo continua interessado no recém-nascido: “como está o bebé? está a crescer bem? não faças assim, não é o melhor para ele !”. Quanto à mãe, anda por ali, a tentar lidar com o seu novo corpo, com  a privação do sono, com as novas melhores amigas – hormonas –  mas acima de tudo com esta nova realidade – ter de cuidar, amar, proteger e educar, sem guião nem formação prévia (mais tarde percebemos que não é bem assim, mas isto fica para segundas núpcias). Surgem tantas dúvidas, tantas incertezas, tantas lutas internas sobre as escolhas que quero fazer para o meu pequeno tesouro: “vou dar sempre colo ou sou contra isso? vai dormir connosco ou no berço?quero amamentar até quando?”. No meio deste processo, quem assiste esta mãe? quem a ampara e lhe diz que vai dar tudo certo? quem se interessa em perguntar pelo que ela está a sentir e aceita genuinamente a resposta?. Algumas de nós têm a sorte de ter uma rede de apoio fantástica, com sensibilidade suficiente para perceber que a mãe também está frágil, que precisa de tempo, mimo e muito apoio para se adaptar ao mundo que, apesar de ser o mesmo, agora está diferente; no entanto, muitas outras não vivem esta experiência.

As respostas de apoio a mães ainda são escassas. Lembro-me de sofrer horrores com os baby blues (a meu ver dever-se-iam chamar baby darks, isto já estando a ser um doce) e de não encontrar nenhuma resposta que me ajudasse. A pediatra, que se apercebeu da situação, aconselhou-me a falar com a obstetra para tomar medicação – será necessário começar por aqui? A resposta é um redondo não! No fundo, só precisava de ser ouvir que as dores vão passar, que a amamentação se vai tornar mais agradável, que estava a fazer um excelente trabalho, só ainda não o sabia.

Após 9 meses a acolher uma série de mudanças, a mãe vem ao mundo; precisa de ser limpa de expectativas irrealistas, embrulhada em mimos, protegida de pressões descabidas, escutada nos sinais que emite sobre o que sente, embalada com palavras doces e de incentivo. Afinal, esta mãe acabou de nascer e o mundo é igualmente novo e assustador para ela.

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3 M´s – tão importantes e tão esquecidos

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Não, esta página não é escrita pelas 3 Marias. Também não somos uma família de 3 em que pais e filhote têm todos o nome começado por M. Na verdade, deste lado está apenas uma Tânia, mãe de uma Letícia de 15 meses,  que sente necessidade de se ligar a outras mães, procurando auxiliá-las, tal como faz consigo, a percepcionarem-se nas 3 dimensões que as compõem – 3M´s.

No princípio das nossas vidas, enquanto seres do sexo feminino, alcançamos o nosso primeiro “M” – o de Menina – que se vai encher de experiências, crenças e atitudes que nos vão acompanhar pela vida fora. Sim, muito do que aprendi enquanto menina, sobretudo enquanto filha, vou usar no desempenho do meu papel de mãe. Algumas de nós modelam as mães que tiveram, outras fazem um esforço tremendo para não seguir esse modelo. Independentemente da proximidade que buscamos das representações dos nossos progenitores, elas vão estar sempre lá e quanto mais atenção lhes prestarmos melhor iremos compreender muitos dos nossos comportamentos actuais.

Com o passar do tempo, a menina de outrora dá lugar (repartido) a uma Mulher (segundo “M”). Novos sonhos, novos projectos, novas responsabilidades. Forma-se uma identidade mais coesa, com um pé assente nas vivências passadas e de braço estendido para o que aí está para vir. Estabelecem-se novas relações e reestruturam-se outras, é uma fase em que começamos a sentir que temos um papel activo sobre o que nos rodeia.

Ser Mãe leva-nos à conquista do terceiro “M”que, embora abranja as experiências dos outros dois, obriga à aquisição de uma série de competências a um ritmo alucinante, daí a conhecida frase “quando nasce um bebé, nasce uma mãe”.

Acredito que uma das nossas maiores dificuldades é encontrar o equilíbrio entre os 3M´s – este é o propósito desta página! Investimos tanto na dádiva que são os nosso filhos, tornando-se, com toda a legitimidade, a nossa prioridade, ao ponto de ser difícil parar, respirar e perguntar: Além de mãe, quem és tu agora? Agora vocês perguntam: Será assim tão importante fazer este exercício? Tenho tempo quando ele/ela for maior! Claro que iremos ter tempo para nós mais tarde, o tempo que dedicamos à parentalidade não será para sempre o mesmo; penso, contudo, que para uma mãe ser feliz precisa de ser uma mulher igualmente feliz, que satisfaz as suas várias necessidades, só assim se sentirá livre para viver esta experiência  sem a habitual frustração associada.

Depois do terceiro M a vida muda muito, o que nos leva a mudar também. Se dedicarmos algum tempo a reflectir sobre essa mudança, percebemos o impacto que tem em nós enquanto mulheres e como é tão necessário abraçar e cuidar do velho segundo M – Eu, enquanto Mulher, preciso de continuar a existir. Os nossos M’s são parceiros, podem e devem coexistir em harmonia, sem que se anulem. Como? Tenho algumas ideias mas continuo a descobrir muitas outras; em conjunto certamente descobriremos muitas mais.

Let´s go, girls!

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