Parentalidade Positiva

Sê aquilo que queres ver o teu filho ser

Sai da frente, oh camelo!”(insultar), “Estes velhos só sabem fazer filas“(ofender), “Não sabes fazer nada de jeito!”(menosprezar), “É-me indiferente se gostas de mim ou não!“(camuflar emoções), “Ah, não tenho paciência!“(intolerância). Estas e outras frases são ditas todos os dias, revelando, ainda que discretamente, a nossa visão sobre o mundo. Podemos tentar desculpar-nos, pensando que “na maior parte das vezes que digo coisas destas não estou com os meus filhos” ou que “a minha filha é pequena, ainda não percebe“. Contudo, há aqui um aspecto que importa relembrar – a minha filha pode não me ouvir a dizer determinada coisa, mas observa todos os meus comportamentos e tudo o que lhe transmito advém de crenças/valores que, ainda que os camufle, estão cá.

Actualmente vivemos numa sociedade muito mais sensível às necessidades das crianças, aos factores que as estimulam a crescer e desenvolverem-se como cidadãos felizes. Existem inúmeros grupos de pais que discutem estas temáticas e procuram soluções para os novos (alguns nem tanto) desafios da parentalidade. Ainda que estejamos preocupados em reduzir o consumo de doces na infância, em criar programas escolares mais apelativos, em incentivar o desenvolvimento pessoal a par do desenvolvimento intelectual, e em acabar com as questões de género (os meninos gostam de carros, as meninas de barbies), esquecemos-nos do essencial – muito do que os nossos filhos são depende daquilo que somos. De que adianta encher a minha filha de programas de desenvolvimento pessoal se cada vez que estou frustrada culpabilizo os outros, insulto e falo mal do mundo? De que vale incentivar programas que transmitem valores como a compaixão se quando passamos por alguém que precisa de ajuda eu finjo que não reparo ou me mostro indiferente? De que serve as escolas abordarem as questões do respeito pelas pessoas idosas se cada vez que as vejo começo a verbalizar uma série de preconceitos?. No fundo, como posso exigir determinado comportamento ou valor se eu não o pratico/sigo?

Estas e outras questões inquietam-me, fazem-me sentir que olhamos muito para fora, tentamos mudar e moldar as nossas crianças,responsabilizamos a sociedade pelos comportamentos que estas adoptam, ignorando que nós também temos de nos transformar, que a maior mudança tem de partir de dentro – de nós enquanto pessoas que agora são pais. Precisamos de ser sinceros!

Não sou, de todo, superior a isto. Diariamente dou por mim a dizer e a ter comportamentos que são o oposto daquilo que quero transmitir à minha filha.Anoto-os mentalmente, revejo-os e tento pensar em alternativas para adoptar numa situação semelhante (o trânsito é um óptimo campo de treino!). Assim que possível, experimento o novo comportamento, dou espaço para perceber como me senti a aplicá-lo e, se necessário, tento melhorá-lo. Ainda que a Leti seja bebé, a mudança de comportamento requer o seu tempo, por isso há que começar logo.

Ser mãe/pai é isto – sair da zona de conforto, ajudar um ser humano a construir-se enquanto me reconstruo, ter a responsabilidade de envolver todos no processo de aprendizagem, inclusive nós próprios, ter oportunidade de formar pessoas melhores (seja lá o que isso for) e, pelo meio, melhorarmos também, é puder ser a mudança que gostaríamos de ver nos outros. Os nossos filhos permitem-nos reaprender alguns valores básicos, voltar a apreciar pequenos detalhes que, com o tempo e a pressa, ficaram para trás. É através deste processo de (re)descoberta conjunta, desta coerência entre a pessoa que quero ver o meu filho ser no mundo e a pessoa que sou, que as crianças evoluem, criam e aplicam novos comportamentos que lhes fazem sentido – afinal, viram a pessoa que mais admiram no mundo a fazê-lo!

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Menina, Mulher & Mãe

As mães de estrelas também são mães!

Vou tocar num assunto delicado, eventualmente reavivar memórias dolorosas, mas o propósito é o melhor, guerreira – saberes que não estás só, que não precisas de sofrer em silêncio, que é uma experiência devastadora  vivida por imensas mulheres, que precisas de tempo e apoio para aprender a viver com esta memória (não a vais esquecer, vais aprender a lidar com ela). Sim, vamos falar de perda gestacional.

Ainda que tenha acompanhado de perto vários casos de perda gestacional, não vou dizer que sei como te sentes – cada luto é único. Tento imaginar a dor, a angústia, o sofrimento, mas certamente fica muito aquém daquilo que vives.

Sabes, antes de engravidar, e talvez partilhes da mesma opinião, achava que a perda gestacional raramente acontecia e que para ocorrer era preciso muito, como por exemplo a mãe sofrer um acidente grave durante a gravidez, existirem factores de risco – doença materna, consumos de drogas ou álcool, idade materna muito avançada – ou complicações genéticas. As “gravidezes” que me rodeavam  corriam aparentemente bem. Após entrar no mundo da maternidade descobri que era mesmo isso – aparentemente!

Em várias conversas enquanto esperava por consultas, em workshops de temas ligados ao pré-parto ou em grupos de mães na internet, estas, timidamente, acabavam por confidenciar: “sabe, esta não é a minha primeira gravidez, na verdade é a terceira, perdi os outros dois bebés“. Gradualmente fui percebendo que é uma realidade comum, sobretudo na primeira gravidez.

Alguns irão perguntar: “Se é assim tão comum por que é não conheço ninguém que passou por isso?”. Na verdade conheces, apenas não sabes. Por ser um acontecimento tão doloroso e que é tratado como invulgar, as pessoas fecham-se, sofrem sozinhas. Cria-se então um círculo vicioso: não se fala no assunto, o que cria a ideia de que não acontece a ninguém, se não acontece a ninguém os pais que passam por esta experiência vão permanecer isolados e guardar este acontecimento para si; e assim sucessivamente. Vivemos, deste modo, desintegrados, cada um sofrendo para seu lado, quando muitas vezes a fonte da dor é a mesma.

Com isto não quero dizer que tenhas de falar do  processo de luto, cada um gere as emoções de acordo com o que acredita ser melhor para si. No fundo, guerreira, só quero deixar a mensagem de que não te aconteceu só a ti, não és diferente, és apenas humana e, como tal, vives as injustiças deste mundo.

Uma das maiores injustiças de que és alvo é tratarem-te como não sendo mãe. Deste ao  bebé  todo o amor e carinho que tinhas, ligaste-te a ele, choraste por ele, por isso, tu és mãe! Podes  não poder tocar-lhe fisicamente, abraçá-lo, cheirá-lo, embalá-lo, mas quantas vezes o fizeste/fazes em pensamento? Sim, tu és mãe! Podes não o ver crescer, mas quantas vezes imaginaste como ele estaria hoje, do que gostaria, o que fariam em conjunto? Sim, tu és mãe! Tu és mãe de uma estrela.

Ainda que pareçam palavras vazias, gostava de te abraçar e dizer que:

Vais conseguir reaprender a viver.Vais integrar esta experiência na tua existência, com todo o sofrimento (sim,será muito) que esse processo possa causar.

Dá-te tempo e aceita as tuas emoções. Tudo na vida tem um propósito, essa tristeza que sentes, ainda que perturbadora, é saudável. É o teu corpo a pedir para abrandares, para pensares no que aconteceu, para arranjares mecanismos para lidar com este acontecimento.

Partilha com alguém que te entenda. As pessoas, ainda que com a melhor das intenções, nestas alturas tendem a dizer coisas que por vezes em nada ajudam (“pelo menos aconteceu antes de nascer, em breve já vais poder fazer outro”), por isso apoia-te apenas nos mais sensatos. Diz-lhes do que precisas – queres que te oiçam? queres que te abracem? queres ficar em silêncio? – quanto mais específica fores mais facilmente irão corresponder às tuas expectativas.

Esta perda não pode ser substituída. Não existe nada que te vá fazer sentir instantaneamente melhor. Ainda que venhas a ter outros filhos, cada um terá o seu lugar.

O pai também está a sofrer. A gestação ocorre no corpo da mãe e no coração do pai; ambos sentem o vazio, precisam de apoio e compreensão.

És muito amada. Infelizmente o teu bebé não teve tempo para o dizer, mas acredita que amou cada segundo que viveu contigo!

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Menina, Mulher & Mãe

“Deixa estar, eu faço!”

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Cada vez que revejo os momentos em que disse esta frase apetece-me ter uma máquina do tempo, entrar em cena e tapar-me a boca antes de sair tal asneira. Sim, esta foi a maior asneira que fiz!Por isso, quero falar-vos neste assunto, sobretudo para aquelas guerreiras que ainda vão a tempo de não fazer (dizer) o mesmo.

Quando tivemos alta e viemos para casa a minha missão era exclusivamente responder às necessidades daquele ser maravilhoso, de modo a que a sua entrada nesta mundo fosse o mais suave possível. Queria evitar todo e qualquer sofrimento que a transição do mundo uterino para o mundo extra-uterino pudesse causar. Até aqui tudo bem, o problema foi ter acreditado que só eu conseguia cumprir essa missão (shame on me!).

Talvez por logo desde o início ficarmos sozinhas com o bebé ao nosso cuidado exclusivo (na maioria dos casos os pais não podem permanecer na maternidade durante a noite), talvez por termos desde sempre a responsabilidade extra de amamentar e passarmos mais tempo com o bebé para esse efeito, talvez devido ao conhecido instinto maternal, talvez pela delicadeza associada ao sexo feminino, há que admitir que, na generalidade dos casos, as mães prestam cuidados ao bebé de forma aparentemente mais natural – rapidamente sabemos do que gosta, como devemos fazer para evitar que isto ou aquilo aconteça, realizamos as tarefas mais  velozmente – do que acontece com o pai (reforço a ideia que estou de que estou a falar da maioria dos casos). Muitas de nós, e aqui ponho o braço no ar, acabam por querer as coisas feitas de forma rápida e eficaz, evitando que o bebé se aborreça, e como o conseguimos? Fácil, fazemos nós! O pai vai mudar a fralda que ainda não se ajusta bem ao corpo do recém-nascido que, para piorar a situação, tem um cordão pendurado exactamente na zona onde a fralda assentaria, o pai tenta dobrar a fralda e não consegue à primeira, o bebé começa a chorar por estar parcialmente nu há algum tempo, lá entra a mãe em cena: “eu faço!”. O bebé está a tomar banho, o pai, sem querer, deixa que uma gota de água do banho caia no rosto do pequenote, lá vem a mãe de novo: “eu faço!”. O pai põe o bebé a arrotar e este bolsa, aparece a mesma do costume já com o “eu faço” na boca.

De repente o dia passa e dissemos mais vezes “eu faço” do que respirámos. Chegamos ao final do dia exaustas, muito mais do que seria suposto, com a sensação de que mudámos a fralda 54 vezes, a roupa outras 25, e que embalámos o bebé durante o dia todo.

O pai vai absorvendo estes sinais que damos de que é menos capaz , de que não tem tanto jeito, de que nós somos as principais cuidadoras e ele só deve dar um apoio, de que o bebé se entende melhor com a mãe, por vezes até mesmo que gosta mais dela. Assim, de forma silenciosa e despercebida, cria-se a lógica de que “se for fácil e rápido, é para ser feito pelo pai, se for mais exigente e demorado, há que chamar a mãe”. Esta maldita lógica vai acompanhar-nos durante muito tempo e dificilmente se irá alterar, por isso há que contrariar esta tendência logo desde início.

Deixo-vos, por isso, algumas ideias para reflectirem:

  • O nosso jeito nato para cuidar dos filhotes só se concretiza porque praticamos as mesmas tarefas várias vezes (certamente recordam-se que o primeiro banho não correu tão bem como os que dão agora), o mesmo se aplica ao pai – se não lhe dermos oportunidade  para praticar as suas competências  e melhorar o aparente “menor jeito para a coisa” este nunca irá aprender. O pai, tal como nós, tem de experimentar, fazer menos bem, aprender, repetir, até ganhar confiança e habilidade.
  • O tempo que eventualmente tenhamos de passar a “supervisionar”o pai ou a dar dicas de como o bebé prefere que as coisas sejam feitas deve ser visto como um investimento. Hoje podemos perder mais tempo do que se fossemos nós a prestar aquele cuidado, contudo amanhã quando o pai for dar banho ao bebé e nós podermos ir fazer outra coisa vamos olhar para trás e perceber que valeu bem a pena.
  • Por muito que sintamos que a fralda não ficou tão bem posta, que o banho não foi tão bom, que aquela posição não é a melhor para arrotar, precisamos de dar espaço ao pai, também para que ele aprenda por si. Estar sempre a supervisionar e a aconselhar contribui igualmente para a ideia de que são menos capazes e de que não confiamos nos seus cuidados, daí terem a pessoa super capaz a guiá-los. Deixemos que pai e bebé também tenham o seu tempo de adaptação mútua, sem a nossa interferência.
  • Um pai confiante e capaz é um pai mais feliz, uma mãe que tem tantas responsabilidades como o pai é uma mãe mais livre para também investir em si  como mulher e por isso mais feliz, um bebé que é cuidado por ambos os pais – e quando são mais pequenos é durante estes momentos que se criam laços – vai ser um bebé que se sente mais amado e por isso mais feliz.

Deixemos os pais serem pais!

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Menina, Mulher & Mãe

Aprendemos a ser pais, desaprendemos de ser casal

Este é um assunto que afecta imensos casais, que é fortemente abordado na literatura, contudo na realidade parece não afectar ninguém, pelo menos até se tornar público que a Maria e o João se separaram.

A diminuição da felicidade que a relação conjugal nos traz, habitualmente tratada por satisfação conjugal, continua a ser um tema tabu que funciona como uma pescadinha de rabo na boca – ao não ser falado faz com que as pessoas sintam que não é suposto falar sobre isto, logo ninguém toca no assunto.

Por que é que são poucos os casais que assumem que o nascimento do bebé os afastou? Penso que existem vários motivos – entre sentirem que estão a culpar o bebé, algo tão positivo nas suas vidas, por um acontecimento negativo; passando pelo sentimento de vergonha em admiti-lo (se ninguém fala no assunto é porque somos o único casal a passar por isto); até à crença que desenvolvemos de que as famílias têm de ser felizes quando nasce um bebé, tal como a Disney nos ensinou nas suas histórias.

São vários os estudos que confirmam que nos primeiros anos de vida o bem-estar do casal é inferior comparativamente a casais da mesma idade que não têm filhos. Não se preocupem, existem boas notícias: à medida que as crianças crescem o nosso bem-estar torna-se superior ao desses casais sem filhos (Toma! Vai buscar!). Resumindo, com o tempo vamos sentir-nos melhor, só precisamos disso mesmo – de tempo!

Focando os nossos 3m’s – menina, mulher e mãe – torna-se claro que nos primeiros tempos de vida do bebé nos dedicamos quase em exclusivo ao nosso último M. Aprendemos a ser mães, a fazer actividades de mães, a conciliar as novas tarefas com outras (domésticas) que já desempenhávamos, a centrar o nosso tempo e recursos no bebé. Naturalmente, investimos tanto neste papel que deixamos de ter vontade, paciência e/ou energia para cuidar igualmente dos outros papéis que protagonizamos. Geralmente, o nosso segundo M (mulher) fica esquecido e com ele leva as memórias dos motivos pelos quais o nosso companheiro já nos fez tão felizes. Quanto mais permitimos que esse afastamento aconteça, mais sentimos que perdemos pontos em comum e passamos a vê-lo como o bebé o vê – apenas como pai.

Enquanto alguém que passou por tudo isto na “pele”, gostava de vos deixar algumas palavras de ânimo e dicas que talvez possam ajudar:

1- Vocês não estão sozinhos! Acreditem que mais perto do que imaginam existe um casal a passar pelo mesmo, a sentir essa tristeza por já não sentir uma ligação tão forte entre si. Aceitem esses sentimentos, tentem perceber porque surgem, será mesmo que a pessoa mudou ou o meu estado de sonolência/cansaço/irritação é que não me permite vê-la da mesma maneira?

2- Conversem, conversem e conversem! Claro que para as mulheres isto é mais fácil (um dia venho contar-vos porquê), mas existem timings em que falar se torna mais fácil, tentem encontrá-los e, sem apontar dedos e culpar ninguém, procurem dizer apenas o que sentem.

3- Partilhem, se possível, com alguém que vos aceite. Por vezes, quando não exprimimos o que sentimos, nem partilhamos a nossa visão sobre as situações, tudo parece mais negro. Damos por nós a achar que não existem alternativas para o comportamento daquela pessoa (fez isto com aquela intenção, sem dúvida); este tipo de pensamento, conhecido por pensamento preto ou branco, leva-nos a ver as coisas de forma absoluta, quando por vezes existem outras justificações bastante razoáveis. Além disso, falarmos com outras pessoas ajuda-nos a perceber que como nós – numa fase menos boa – existem muitos.

4- Invistam em vocês como casal. Confesso-vos que dei este passo com muitas reticências, só de me imaginar a ir jantar enquanto a minha filha, embora aos cuidados da excelente avó que tem, ficava a chorar, sem saber da mãe, partia-me o coração e trazia grandes sentimentos de culpa (que tipo de mãe és tu que faz isto à filha?). Na verdade, ela não só não chorou, como eu me diverti imenso. Durante o jantar quase que senti que estava a  conhecer o meu companheiro pela primeira vez; no meio de tudo esqueci-me de tantas características positivas que ele tem (se não há partilha de novos momentos, que por sua vez criam novas memórias, como podemos continuar a conhecer-nos?). Posto isto, apostem nestes momentos, mesmo que não tenham a minha sorte e o bebé chore durante 1 hora, acreditem que quando voltarem para junto dele se vão sentir pais mais felizes, revigorados e, por conseguinte, mais disponíveis para abraçar os desafios da parentalidade – vejam isto como um investimento.

5- Procurem ajuda profissional. Se sentem que já tentaram de tudo e que a relação tende a piorar, procurem um psicólogo que faça terapia conjugal. Acreditem, imensas pessoas recorrem a este tipo de terapia, não tenham complexos. O que existe de errado em fazer de tudo para ficarmos com a pessoa que amamos?!

Espero que consigam continuar a aprender a ser pais, mas que possam, em simultâneo, reaprender a ser um casal, agora com mais papéis e desafios.

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