Terças a Duas

Terças a Duas – Auto-estima após ser mãe

3m’s: Não sei o que hei-de vestir para a praia este ano. Não me sinto nada confiante com o meu corpo, não me apetece, de todo, andar a exibi-lo num biquíni.

Meia Lua – Mom. Life Lover (ML): Essa questão da auto-estima é muito pertinente para mim, no fundo tenho mix feelings. Quando estava grávida, foi a melhor fase para mim. Não só porque me sentia feliz por ser mamã mas porque me sentia mesmo bem em relação ao meu corpo. Nunca me tinha sentido tão bem até. Depois quando ele nasceu… nos primeiros momentos consegui perder todo o peso que tinha ganho na gravidez. Mas o difícil veio depois. Com um pós-parto complicado, a nível físico e emocional, fui-me muito abaixo e com isso as hormonas e o descontrole, veio o aumento de peso. Pensei sempre ser apenas uma fase e que iria passar, principalmente quando começasse a trabalhar. Mas a realidade não foi essa e acabou por se revelar até bem pior. Após 5 meses de ter dado à luz, o meu regresso ao trabalho foi atribulado. O meu dia-a-dia era super stressante e o meu descontrole emocional estava mais presente do que nunca. Não me conseguia olhar ao espelho, sentia-me mal comigo mesma. Em todos os sentidos. E os olhares, que nem precisavam de se transformar em comentários, diziam muito e pesavam muito no que eu me sentia.

3m’s: Sim, quando estava em casa com a Letícia também acabava por não fazer nenhuma refeição decente, comia pouco ao almoço porque tinha de estar com ela ao colo, entretanto ela ia dormir e aí eu aproveitava para ir arrumando as coisas, petiscava porcarias pelo meio, às vezes sentia-me tão exausta que pensava que depois de tanto esforço merecia aquele gelado ou aquelas gomas; nessa fase estava com algum peso a mais. Entretanto fui emagrecendo sem o querer, os comentários sobre o peso a mais que quase não existiram (pois não me queriam magoar) deram lugar a duros comentários sobre o facto de estar demasiado magra: “tens de engordar, estás escanzelada, não podes andar assim“.

ML – Eu também ouço comentários, mesmo que não sejam muitos ou às vezes não falem, sente-se; não que sejam maldosos, mas magoam. Sobretudo quando acabamos de ser mães, passados poucos meses, surgem comentários como: “agora tens que ir ao sítio”, “agora a ver se te cuidas”. Actualmente os que oiço mais é “estás em casa tens tempo para fazer exercício” e “só não emagreces porque não queres”.

3m’s: No meu caso mandam-me comer para engordar, logo eu que como bem. Sabes, quando és mãe e magra as pessoas pensam que és uma cabra sortuda e que por isso não te deixas afectar por nada. Nem só emagrecer é difícil, engordar também o pode ser, sobretudo quando dormes pouco e andas preocupada com vários problemas, o stress faz-te emagrecer. Além disso, não percebem que podes ser magra e ainda assim ter complexos, como no meu caso em que sinto constantemente estas banhas laterais, sou magra mas sinto-me disforme.

ML- Conheço bem essas banhas. Eu, por exemplo, como estou em casa acabo por me focar no Martim e esqueço-me de comer. Às vezes dou-lhe o almoço e acabo por não comer ou vou petiscando, depois pão aqui e acolá. Acabo por gerir o meu dia muito à volta das mesmas coisas, saídas com ele e tarefas; quando tenho um momento centro-me na minha escrita; às vezes o dia passa e nem dás conta. Estar em casa com eles não são férias.

3m’s: Quando estava em casa com a Letícia sentia que a pouca energia que me restava, quando restava (era raro), merecia ser despendida noutras coisas importantes e não a fazer exercício. A pressão que nos colocam em cima para perdermos peso faz com que seja mais complicado.

ML: Depois da primeira fase passar, quando vim para casa com o Martim, comecei finalmente a atravessar uma fase mais tranquila e isso fez com que perdesse alguns (poucos) quilos, mas que mais que isso, me aceitasse melhor a mim própria. Estava sozinha, com família longe, e por isso não ouvia comentários de ninguém. Não sentia stress nem as hormonas já estavam presentes. Mas não foi por isso que me passei a sentir 100% bem comigo mesma. O peso a mais (para mim), ainda cá está, assim como tantas outras coisas que queremos sempre mudar e ver diferente em nós. A minha auto-estima não é sempre a melhor. Continuo a sentir que quero estar melhor comigo mesma, mas de uma forma mais serena, sem pressas, sem pressões . Porque estar em casa com um filho, não são férias e o cansaço vem de onde não se percebe , porque ‘não se faz nada’.

3m’s: Eu gostava que as pessoas compreendessem que eu tenho um espelho em casa, eu percebo como é que o meu corpo está, eu vejo-o todos os dias, e nu, de vários ângulos! Se eu perguntar o que acham da minha barriga, agradeço que respondam, caso contrário não preciso de comentários nenhuns. Alegrem o meu dia dizendo que estou com os olhos bonitos, a pele macia, qualquer coisa, mais facilmente conseguirei pegar nisso e transformar em motivação para melhorar a outros níveis. Mais, reconheçam que o facto de não cuidar tanto de mim se deve ao facto de estar a cuidar atentamente de alguém.

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Terças a Duas

Terças a Duas – Vacinação

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A partir de hoje, quando assim se justificar, a Mafalda da Meia Lua – Mom Life Lover e a Tânia da 3m´s irão juntar-se à terça-feira para tomar um chá e conversar sobre temas da actualidade que se inserem no mundo da parentalidade.

Aqui fica a nossa primeira converseta na rubrica “Terças a Duas” 😉

Devido ao surto de sarampo e às constantes notícias dos últimos dias, o tema “vacinação” saltou para a arena da opinião pública e tem gerado polémica. Por um lado, existe quem acredite que a vacinação deveria ser obrigatória uma vez que afecta a saúde pública; por outro lado, há quem defenda que as vacinas comprometem o sistema imunitário das crianças e contêm substâncias perigosas.

3m’s: Tens visto as notícias sobre o sarampo? Estou tão preocupada com isto. Sabes, acho que o que me preocupa verdadeiramente nem é a situação do sarampo em si mas sim as vozes que entretanto se levantaram contra a vacinação. Pensei que nos dias de hoje quase ninguém achava a não-vacinação razoável, contudo nestes últimos dias os relatos de pais que não vacinam os filhos são mais do que muitos.

Meia Lua – Mom Life Lover (ML): Acredito, Tânia. Tenho sentido o mesmo ao me deparar com as notícias e mesmo na rua, nestes dias nos afazeres que tenho tido, ouvir pessoas de várias faixas etárias a referir isso. Que a vacina é que provoca o aumento das doenças, que as vacinas não passam de um acordo com o Estado e com as empresas farmacêuticas para ganharem dinheiro com este “negócio”. E eu fico assustada… a pensar em “negócio”? Como a saúde pode ser um negócio? Estamos a falar de um plano nacional de vacinação. Falamos das nossas crianças! O que achas disto?

3m’s: Gosto de falar apoiada em factos e acho que a este nível as evidências são claras – desde que as crianças começaram a ser vacinadas que determinadas doenças quase foram erradicadas. Acham mesmo que foi coincidência?! Ontem li a entrevista do pediatra Mário Cordeiro e concordei com todas as suas palavras: “”Dizer mal das vacinas é um luxo de um país que já não tem, como há bem pouco tempo tinha, casos diários de meningite ou mortes por sarampo, como [aconteceu] em 1994. A memória é demasiado curta e a arrogância demasiado grande“. Acho que quando as coisas deixam de ser um problema a humanidade, por se esquecer de como era difícil lidar com elas, começa a criar “teorias da conspiração” e tem necessidade de escavar e trazer os problemas ao de cima. Um dos argumentos que tenho lido contra a vacinação é o de que algumas crianças fazem fortes reacções às vacinas e ficam com outras doenças, o que pensas disto?

ML: Exactamente! Eu também li a mesma entrevista e até me deu arrepios na espinha de tanto concordar com o que ele diz: “Não há liberdade individual que possa justificar a ausência de vacinação das crianças”. Poderemos mesmo falar em liberdade de escolha num tema que não vai afectar só a mim e ao meu filho mas sim a todos? Até onde vai essa liberdade sem implicar ou prejudicar o outro? E até onde poderá ir sem ser devidamente punida? Todos temos crenças e ideais, mas até que ponto as mesmas se podem sobrepor a factos que incorrem em problemas de saúde graves nos nossos filhos? Se podemos decidir sobre o que os nossos filhos podem ou não podem ou devem comer, que tipo de roupa vestir, que escola frequentar, se achamos que decidimos de que forma os queremos educar, que caminho seguir, não devemos querer, primeiro e acima de tudo, que sejam sempre saudáveis, fortes e que estejam protegidos? Estamos fartas de saber que não os conseguimos proteger de tudo e todos nesta vida. Para grande infelicidade nossa que sentimos um aperto no peito e um coração minguado quando há algo em que não podemos fazer absolutamente nada para reverter uma situação menos boa. Temos que nos sentir preparadas, informadas e conscientes da verdade que nos rodeia. Se formos pesquisar, os números de morte infantil associados à não-vacinação são assustadores! Quereremos mesmo isso? O pretexto do “todos tinham” poderá ser válido para não vacinar? Todos tinham e muitos morriam… para quê arriscar?

3m’s: É isso que sinto, tal e qual. Acredito que existem casos em que a vacinação criou reacções alérgicas e daí surgiram outros problemas, no entanto acho que a probabilidade disso acontecer será sempre inferior à probabilidade das crianças morrerem com estas doenças. Para mim isto é o mesmo que me dizerem que alguém tinha um tumor maligno e morreu na operação em que esse tumor seria retirado; será isso argumento para deixarem de fazer essas operações?!

ML: Ninguém nega que poderá acontecer ou que já tenha acontecido. Mas se pesarmos na balança, o peso da doença do não-vacinado e as suas graves consequências são deveras alarmantes! Nós – mãe, pai, cuidadores – devemos observar caso a caso! Sabemos que os nossos filhos estão facilmente expostos a tantos microorganismos. Vamos com eles a parques, centros, escolas. Eles não têm poder de escolha, somos nós que decidimos por eles. Estaremos a ser justos ao não os proteger com o que pode e está ao nosso alcance? Eu escolho estar informada mas também deverei escolher agir de acordo com o que é – de bom senso – o mais correto. Falamos de vacinas que estão no plano nacional de vacinação. Gratuitas. Com resultados comprovados eficazes. Com a prevenção praticamente 100% garantida. Prefiro correr um risco de doença e até de morte? Será isso ser consciente? Se sabemos que os nossos filhos podem ficar protegidos de uma doença que pode ser efectivamente perigosa, porquê arriscar? Em prol de quê e de quem? E se deixarmos de uma vez por todas de parar de olhar para o nosso próprio umbigo e as nossas próprias ideias e conceitos de fábulas? O que está à nossa frente são factos. Demasiado reais. Demasiado assustadores. Até onde a minha liberdade de escolha vai impedir a do próximo? Vamos pensar mais no outro. Nas crianças.

3m’s: Sinceramente, se existisse uma comunidade à parte, em que as crianças não-vacinadas convivessem só entre si, sem contacto com os restantes, aceitaria esta decisão dos pais, ainda que se coloque em causa a escolha da criança que ainda não tem voto na matéria, pois apenas mexeria com as suas escolhas. A partir do momento em que taxa de vacinação tem de ser superior a 95% para que o grupo não seja afectado pelo sarampo estamos a falar de escolhas individuais, sim, mas que afectam fortemente a saúde colectiva. Talvez o problema seja esse que levantas – as vacinas serem gratuitas. Sempre ouvi dizer que o que é gratuito é desvalorizado. O acesso à vacinação tornou-se tão fácil ao ponto de as pessoas a colocarem na prateleira dos assuntos “não tão importantes”. Se cada vacina custasse 3000 euros e só fosse administrada na China, como seria um item “valioso” provavelmente seria encarada de outra forma. Gostava que as pessoas não se apoiassem no “diz que disse” e no “caso do amigo da namorada do meu primo” para tomarem decisões tão importantes. Casos atípicos irão sempre existir, mas não deverão ser esses a guiar a nossa opinião, sobretudo quando as nossas escolhas individuais afectam o grupo.

ML: Acredito seriamente que sim. Quando algo nos é dado sem imposição, temos tendência a duvidar da sua veracidade. Mas quando se trata da saúde nos nossos filhos deveremos estar devidamente informadas e conscientes antes de fazermos uma escolha.

3m’s: Ontem estava a ler a lista de documentos que pedem para fazer a reinscrição na creche da Leti e entre eles vinha a cópia do boletim de vacinas. Nestes últimos dias percebi que, contrariamente ao que pensava, os pais não podem ser forçados a entregar este documento uma vez que a vacinação não é obrigatória. Nesta sequência, nenhuma escola pode impedir a inscrição de uma criança não-vacinada. Até que ponto isto é justo? As pessoas têm direito de não querer vacinar os filhos e eu não tenho direito a querer que a minha filha não conviva com crianças não-vacinadas? E os bebés do berçário que vão estar com estas crianças não-vacinadas e ainda não têm as vacinas? Já pensaste nisto?

ML: A sério? Nem fazia ideia de tal! Como o meu filho não está numa creche, essa informação para mim é-me totalmente desconhecida! Como pode não ser obrigatório? Falamos de questões de saúde importantíssimas. Eu tenho o dever de informar e o direito de estar informada! Serei com certeza a mãe que questionará este tema na altura em que ele ingressar numa creche. Serei com certeza a mãe que fará valer a palavra da razão. Que mais importa que o IRS e quanto nos avaliam de mensalidade, se a questão da saúde e bem-estar da criança não está a ser posta em primeiro lugar? Não sou apologista da exclusão, muito pelo contrário. Mas façamos aquilo que gostaríamos que fizessem connosco. Eu jamais colocaria a saúde de outras crianças em risco em prol de uma decisão MINHA.

 

Quem segue as nossas páginas sabe que adoptamos uma postura flexível em relação à maioria dos temas e acreditamos nas escolhas individuais. Não obstante, quando essas escolhas afectam os outros sentimos que devem ser devidamente ponderadas. Como sempre ouvimos dizer: “com a saúde não se brinca”.

 

 

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