Parentalidade Positiva

As crianças não são feias, más, nem tão-pouco parvas

Esta é má e fria, não gosta de ninguém” – foi assim que uma mãe descreveu a filha a uma amiga que acabara de encontrar. A menina, com pouco mais de 1 ano, estava sentada no carrinho e ignorava a amiga da mãe, desejando apenas continuar a brincar com um coelho de peluche que trazia na mão. A amiga da mãe tentava desvalorizar, referindo que as crianças são assim, mas a mãe continuava: “esta miúda é parva, nunca cumprimenta ninguém! Olha, Joana (nome fictício), és feia, não gosto de ti!“. Confesso-vos que fiquei incomodada ao ponto de sair disparada da loja e as palavras me terem ecoado na cabeça durante a tarde toda.

Em primeiro lugar, ninguém é, as pessoas estão a ser! Existe uma grande diferença entre “é” e “está a ser” – o “é” envolve rigidez, passa a mensagem de que será sempre assim e por isso não há possibilidade de mudança, criando um rótulo definitivo de “és isto” (esta expressão promove a rigidez cognitiva em que as pessoas analisam as situações em termos de tudo-ou-nada, não existe meio-termo); o “está a ser” transmite a ideia de que o comportamento depende das circunstâncias e que por isso pode alterar-se – numa situação em determinado contexto és assim, noutra já poderás não ser – o que facilita a flexibilidade cognitiva (de pensamento), característica fundamental no bem-estar psicológico. Mais, o “é” cria uma determinada expectativa de comportamento tanto na criança como nos outros – a criança sabe que esperam que seja, por exemplo, agressiva e por isso tenderá a reproduzir esse género de comportamentos; os outros esperam ver agressividade na criança e por isso a sua atenção estará direccionada para isso (a chamada atenção selectiva em que o nosso cérebro, para poupar recursos, procura informação que se encaixe naquilo que procuramos, tal como quando entramos numa loja em busca de um vestido vermelho, se nos perguntarem se existiam muitos vestidos azuis não iremos conseguir responder, a nossa atenção foi canalizada apenas para a primeira cor).

Enquanto cuidadores existem comportamentos que consideramos mais e menos aceitáveis de acordo com as nossas crenças e aquilo que a sociedade defende. Reparem que comportamentos está a negrito pois é isso que está em causa, não a criança em si. Quando digo “já não gosto de ti” a uma criança que faz algo que considero menos adequado não estou a focar o seu comportamento, coloco-a integralmente em causa, o que abrange até as suas qualidades – parece-vos justo? E se os nossos companheiros dissessem que já não gostam de nós porque não lavámos a loiça do jantar? E se a nossa mãe deixasse de nos amar devido à discussão que tivemos a semana passada? Repito: o que está em causa é o comportamento e podemos expressar o nosso desagrado relativamente a isso – “a mãe não gosta que te ponhas em cima da cadeira” – não em relação à criança em si.

Existem palavras cuja única função é magoar, nada se constrói com base nelas. “Feia, má, parva, burra” são apenas alguns exemplos de palavras que destroem a auto-estima de qualquer um, sobretudo quando proferidas por pessoas significativas cuja opinião é relevante. Além disso, são altamente subjectivas, difíceis de decifrar, e por isso em nada promovem a aprendizagem – o que torna uma criança feia? que comportamentos levam a esse título? será que a mensagem que queremos transmitir é que tem de se tornar bonita? Sejamos objectivos no que queremos para que a criança se possa regular – “não quero que estejas em cima da cadeira pois podes magoar-te, fico preocupada contigo”. Depois disto é fundamental apresentar uma alternativa para onde a criança possa canalizar a sua energia – “vamos descer da cadeira, podemos ir brincar a saltar do chão para o tapete”.

Os elogios podem e devem ser aplicados sempre que se justifique. Noto que muitas vezes os pais passam grande parte do tempo a apontar os defeitos dos filhos em público, eu própria já me senti tentada a fazê-lo apenas por estar habituada a que seja esse o registo. Novamente, remetendo para nós próprios, gostaríamos que o nosso companheiro encontrasse um amigo na rua e começasse a apontar os nosso defeitos? Por que o fazemos com aqueles que mais amamos? Que estes momentos sirvam para desabafar, e aqui podem expressar-se algumas preocupações, mas sejam sobretudo um momento de reconhecimento público do valor que os nossos filhos têm, daquilo que mais gostamos neles; como referi, estamos a criar expectativas e isso irá moldar o comportamento da criança, além de promover o seu auto-conceito (como se caracteriza) e a sua auto-estima (como valoriza as suas características).

Por último, as crianças (felizmente) não são mini-adultos! Não esperem que uma criança prefira estar a interagir com uma desconhecida (no caso da amiga da mãe) do que com um brinquedo, não esperem que as crianças expressem afecto por encomenda (podem pedir, eu peço sempre que ela cumprimente as pessoas, mas sei que é natural que tal não aconteça), não ambicionem uma criança robótica que faz tudo que desejamos (se o faz hoje também o fará no futuro e aí já não terá tanta piada). Percebam e respeitem a essência das vossas crianças, tal como elas aceitam diariamente a nossa.

3m’s – Menina, Mulher e Mãe

porco espinho

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Sem categoria

A minha filha bateu-me e eu não lhe bati de volta

Tudo começou quando lhe disse que teríamos de ir para casa (estávamos em casa da tia, um dos seus locais preferidos). Começou por fugir, dizer “não quéo”, até que se tentou esconder. Expliquei-lhe que estava na hora de ir buscar o papá ao trabalho, que amanhã voltaríamos a casa da tia para brincar, naturalmente nada a demovia.

No meio de várias lamentações e queixumes, peguei na minha filha ao colo e quando a aproximo de mim oiço um som algo forte e sinto a cara mais quentinha – sim, tinha acabado de levar um estalo de uma criança com 2 anos. Apesar de nunca lhe ter batido, o meu primeiro instinto pedia que lhe desse uma palmada na mão, nada de muito forte, apenas para que ela percebesse que aquele acto é inaceitável. Contudo, a minha formação rapidamente se sobrepôs ao instinto e colocou-me uma questão pertinente – vais bater-lhe para ensinar que não se bate?. Sei que algumas de vós dirão que é diferente, pois eu sou a mãe, logo posso bater. Novamente, respondo com uma questão – será mesmo essa a mensagem que queremos transmitir?.

Enquanto mãe tenho o dever de educar, aqui existe uma panóplia de alternativas, a maioria viáveis desde que usadas de forma ponderada, consciente e consistente, tendo sempre em conta as características daquela criança. Admito que a punição física é um meio rápido de obter resultados e, como todas as estratégias, pode ser utilizada, no entanto representa uma espécie de atalho educacional quando usada de forma precoce, isto é, produz resultados mais rápidos mas as importantes aprendizagens que seriam realizadas pelo caminho mais longo ficam perdidas, a criança deixa de reproduzir o comportamento apenas por medo, não por lhe dar um sentido. Em termos de manutenção da aprendizagem a longo prazo  – garantir que aquele comportamento não se repete – a punição é traiçoeira, podendo levar a que a criança sinta que quando não existe ninguém por perto para punir aquele comportamento pode ser aplicado (a motivação para não o fazer é externa); já uma criança que dá um sentido a determinado acto e o incorpora nos seus valores, acreditando verdadeiramente nas premissas que lhe estão subjacentes, tenderá a evitar o comportamento independentemente da presença dos outros (a motivação é interna).

As consequências que se seguem a um comportamento – conhecidas por contingências comportamentais – devem ser aplicadas utilizando uma hierarquia. No topo dessa hierarquia estão as contingências “positivas”, que envolvem o reforço positivo e negativo, como o elogio, o carinho, o libertar a criança de algo que considera desagradável. No fundo da hierarquia encontramos as contingências “negativas”, compostas pela punição, como gritar, bater,castigar ou retirar à criança algo que considera agradável. Este ponto, por si só, merece um artigo para que seja devidamente explicado (prometo escrever-vos sobre isto em breve), a ideia que importa reter de momento é a de que a hierarquia deve ser percorrida, sem pressas nem atalhos, esgotando-se todas as alternativas de cada patamar antes de descermos para o seguinte. Posto isto, aceito que dar uma palmada (entenda-se que não estou a falar em agressões pesadas) sem magoar verdadeiramente a criança poderá aplicar-se e não será por isso que daí surgirá um grave trauma; contudo, como referido, tal só deverá ser feito quando todo um rol de estratégias se revelaram ineficazes (não basta experimentar uma vez). Assim, acredito, e é isso que tenho feito, que podemos perfeitamente evitar recorrer à palmada.

Regressando ao nosso caso, modifiquei o meu tom de voz, sem gritar, para que ela percebesse que não aceito o comportamento de bater nos outros; disse-lhe que nos iríamos embora e que estava muito triste com ela. Durante a viagem de carro, em que normalmente vamos a cantar e na risota, expliquei-lhe que me tinha magoado na cara, que estava triste com esta atitude dela e que não se bate a ninguém, daí a a mamã também não lhe bater; acrescentei que podemos falar, dizer que não queremos ir embora, até chorar, mas bater não. Posso-vos dizer que durante o resto da viagem só o silêncio foi audível – ela foi a viagem toda com um ar abatido. Quando o pai entrou no carro ela disse de imediato: “bati na mamã!”; o pai, que vinha todo animado, não a ouviu entre os cumprimentos e abraços, pelo que ela repetiu: “bati na mamã!”. O pai conversou com ela e a certa altura ela pediu-me desculpa. Mais tarde no banho encenou espontaneamente a cena com recurso aos patinhos de borracha que também são mãe e filho – o patinho filho bateu na mãe, a mãe ficou com “dói-dói” e triste, o patinho filho também ficou triste e pediu desculpa.

Não vou tapar o sol com a peneira, entretanto ela já voltou a tentar bater-nos (com apenas 2 anos esta é a forma mais natural de expressar frustração). Como vos disse, este caminho será mais longo, implica que ela se consciencialize do efeito que o comportamento dela tem nos outros. A par disso é necessário promover o auto-controlo, o que fazemos com brincadeiras que envolvem andar rápido, andar devagar, falar alto, falar baixo, pequenas actividades que lhe vão mostrando que pode assumir o controlo das suas acções (ainda é cedo para que haja controlo, trata-se sobretudo de uma sensibilização).

Não digo que jamais darei uma palmada, como referi poderei lá chegar, por enquanto vou percorrendo o topo da hierarquia e para apenas 2 aninhos acho que está a correr bem.

beicinho

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Menina, Mulher & Mãe

Os ídolos de uma mãe

Desculpem Homem-aranha, Mulher-maravilha, Super-homem, Xena e afins. Ao longo dos tempos o vosso brilho foi desvanecendo e ergueram-se novos/novas heróis/heroínas, estes/estas sim capazes de proezas sobre-humanas que nos roubam o fôlego. O mais incrível é que estas criaturas admiráveis vivem entre nós, não dispõem de poderes sobrenaturais, apenas lutam diariamente pela sua felicidade. Deixem-me que vos fale de alguns deles.

Mães/Pais que valem por dois

Quando me cruzo com estes progenitores sinto uma vontade enorme de lhes fazer uma vénia, abraçá-los e, enquanto os agarro pelos ombros, perguntar-lhes “como é que consegues?”; a sério, parece impossível! Estive em casa com a minha filha durante 15 meses, mas à noite tinha a ajuda do papá que entretanto chegava. Carregar sozinha o peso de todas as responsabilidades inerentes a ter uma criança – preparar refeições, dar banho, dar colo, brincar, decidir qual a postura que devo adoptar perante determinada situação – sem qualquer apoio, não parece exequível. Além disso, não há com quem dividir o cansaço, quem fique com as crianças quando estou com uma dor de cabeça terrível e preciso de me deitar durante 2 minutos. Tenho tanta admiração pela vossa resiliência e aposto que os vossos filhotes, ainda que até determinada idade não o consigam expressar claramente, também terão.

Pais com filhos em fases delicadas

Nos dois anos de vida da minha filha passámos apenas uma noite no hospital e foi terrível. Desde a ver chorar em pânico enquanto lhe faziam análises e exames algo dolorosos, sem que esta percebesse o motivo dos pais permitirem que lhe causassem aquele sofrimento, passando pela dificuldade em mantê-la fechada no cubículo do Serviço de Observação, até ao medo de não saber o que vinha a seguir. No nosso caso (felizmente) não passou de uma noite, contudo há quem viva assim meses/anos.

Sem qualquer aviso, estas crianças e os seus pais vivem uma fase dura, muitos sem qualquer apoio. Ficam privados de trabalhar para prestar os melhores cuidados aos seus filhos, o tempo para cuidar de si e responder às suas necessidades torna-se limitado, os planos que tinham vão-se esbatendo, a vida dá uma volta brutal. Muitos deles nunca se imaginaram nesta posição, não têm contactos de pessoas “importantes” nem grandes recursos, usam a sua força interior para ir superando cada obstáculo que surge. Sim, muitos deles conseguem dar um significado a esta experiência e viver de forma relativamente tranquila, o que me leva a sorrir quando conheço as suas histórias e, mais uma vez, sentir uma grande vontade de os abraçar enquanto lhes sussurro ao ouvido: “como vos admiro!“.

Sinceramente, sinto que estas famílias são a tradução real de como o amor por um filho move montanhas e nos torna capazes de enfrentar os maiores monstros com uma espada de papel.

Pais que se vêem obrigados a separar dos filhos

Antes de ir para Angola comecei a seguir o blogue de uma senhora que vivia lá há 2 anos. Recordo-me perfeitamente do dia em que publicou uma foto sua no avião com o desenho da sua filha no colo, claramente esborratado com algumas lágrimas, e em que escrevia algo como: “Custa sempre, por vezes até parece custar mais. Até daqui a 6 meses, meu amor!”. Na altura estava longe de me tornar mãe mas fiquei com o coração despedaçado ao imaginar como se sentiria aquela mulher.

Independentemente das questões que se possam levantar ligadas ao que pesa para quem toma a decisão de, contra a sua vontade, deixar os filhos (para conseguir trabalho noutro país, para cumprir o dever militar, etc.), a verdade é que se trata certamente de um acto envolto em sofrimento.

Pais que estão longe de tudo e todos

Conheço várias famílias nesta situação e já por várias vezes partilhámos lágrimas. Viver longe de tudo e todos é duro! Os pais sentem falta do apoio da família, daquele ente querido que nos bate à porta com uma sopinha e se oferece  para cuidar do bebé enquanto vamos tomar banho ou simplesmente nos manda sentar no sofá.

O suporte social é essencial na transição para a parentalidade, sentir que existe alguém por perto que se mostra disponível para prestar apoio a vários níveis e com quem podemos contar caso precisemos (aquela velha segurança de sentirmos que existe um plano B).

No caso destes pais, por vezes não há a avó por perto para cuidar da neta enquanto os pais vão jantar fora, não há hipótese de o tio João ir levar a sobrinha à natação quando os pais saem mais tarde do trabalho, existem aniversários e outros dias importantes que são meramente partilhados com recurso ao Skype.

Ser pai/mãe é uma tarefa árdua, no caso destes pais é um acto heróico.

Pais cujos pais não estão presentes

Não consigo imaginar como teriam sido os primeiros dias após o nascimento da minha filha se não tivesse tido o apoio da minha mãe. Ter ao nosso lado alguém com experiência, que nos conheço bem e serve de modelo torna o processo mais leve.

Esta aventura pelo mundo da maternidade permitiu-me conhecer várias mulheres que não têm a sua mãe por perto (quase todas por falecimento); percebi que este aspecto afecta bastante a maioria das recém-mamãs, como se a questão “o que farias nesta situação?”, a constatação “precisava tanto de ti agora” e a incerteza de “estarás orgulhosa de mim?” pairassem no ar frequentemente. Além disso, não ter por perto aquela que habitualmente é a figura de maior confiança para cuidar do bebé na ausência (temporária) dos pais causa, por vezes, um sentimento de algum abandono.

Ainda que as nossas relações com as progenitoras – e aqui falo por mim – possam ser agridoces, a sua presença pode ser vital. Conseguir enfrentar a maternidade, sobretudo no início, sem este colo é extraordinário.

Pais de gémeos

Este é um clássico! Depois de termos filhos torna-se inevitável cruzarmos-nos com pais de gémeos sem nos imaginarmos no seu papel; o sentimento mais comum é uma vontade enorme de fugir! Sim, a felicidade é a dobrar, mas os choros, o peso do ovo onde os carregamos e as despesas também.

Pais de gémeos, vocês são qualquer coisa!

Pais com filhos que são estrelas

Já vos falei da forma como vejo as mães cujos filhos se tornam estrelas no céu – As mães de estrelas também são mães!. Admiro imenso estas mães, estes casais, estas famílias, que enfrentam aquela que, para mim, deverá ser uma das experiências mais dolorosas que alguém pode enfrentar ao longo a vida.

Conseguir dar sentido a este acontecimento, lidar com tudo o que lhe é inerente, voltar a sorrir para a vida, são actos de grande coragem e que me fazem acreditar que nestas pessoas vivem poderes sobrenaturais.

 

Na verdade, admiro todos os pais/mães que diariamente dão o seu melhor; no seu mundo, dentro da sua escala, enfrentam obstáculos e superam-nos movidos pelo amor que têm pelos filhos. Existirá acto mais heróico do que amar incondicionalmente alguém sem esperar nada em troca?

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Guerreiras com 3M's grandes

Guerreiras com 3M’s grandes – a história da Mafalda, do André, do Duarte e do Miguel

Como sabem, esta rubrica dá a conhecer casos de crianças (e pais) que se encontram numa fase de vida mais delicada e que por isso merecem o nosso apoio. Habitualmente as histórias são partilhadas por mães, contudo por trás de uma grande mulher também há um grande homem, e desta vez foi o pai – Miguel – a abrir o seu coração (e que coração!).

Para Miguel e Mafalda (esposa) constituir família era fundamental, um dos seus grandes objectivos de vida. O nascimento do primeiro filho – Duarte  (agora com 3 anos) –  deu-lhes a certeza de que queriam ser uma família de 4, pelo que um ano depois decidiram aumentar a família.

A segunda gravidez de Mafalda, de acordo com o marido, “correu bem, sem nenhum percalço maior“. O parto correu seguiu o mesmo registo – “na verdade até foi melhor do que o do mano mais velho“, afirma Miguel. O André nasceu saudável, no entanto, na primeira semana de vida foi internado devido a uma reacção na pele, um problema com que já veio do hospital. Foi sujeito a múltiplos exames/análises, sem que nenhum revelasse o motivo daquela que foi apontada como uma possível infecção.

Em termos cognitivos (intelectuais) o André sempre foi um bebé perspicaz, curioso pelo mundo que o rodeia, a nível motor a mãe sentia que lhe faltava “alguma força nas pernas“, chegou a partilhar esta preocupação diversas vezes, contudo o facto de o André aos 8 meses se sentar e fazer tudo de forma dita “normal” parecia indicar que essa preocupação não teria fundamento. Foi numa ida às urgências devido a uma bronquiolite que as médicas concordaram com a preocupação dos pais e os aconselharam a marcar uma consulta de desenvolvimento; por coincidência, na mesma altura o colégio informou os pais que notavam no André uma fraca evolução a nível motor.

Os pais não tardaram em marcar a consulta de desenvolvimento (recorreram ao privado, no público teriam de esperar 4 meses, o que na vida de um bebé é imenso tempo). A médica que os atendeu revelou de imediato existirem alguns indicadores preocupantes e por isso pediu análises ao sangue. Foi no dia 18 de Abril de 2017 que estes pais sentiram “o projecto de família desmoronar-se“, quando se confirmou o diagnóstico de Atrofia Muscular Espinhal, uma doença degenerativa genética caracterizada pelo comprometimento do desenvolvimento muscular, o que além de afectar a marcha pode prejudicar a deglutição, a sucção e o sistema respiratório, tornando estas crianças mais susceptíveis a infecções respiratórias e à acumulação de secreções.

Demorámos uma semana a aceitar a doença do nosso filho“, confessa Miguel ao recordar-se do dia em que receberam o diagnóstico. Na altura os pais anteciparam os inúmeros problemas que o filho enfrentaria, puseram em causa a possibilidade de o filho vir a ter qualidade de vida – “pensamos que é algo que só acontece aos outros, mas não, estava a acontecer-nos a nós e seria algo para a vida“. Graças aos apoio das pessoas mais próximas, sobretudo do colégio do André, sentiram que ganharam forças para procurar soluções e desde então vivem um dia de cada vez.

Estes pais arregaçaram mangas e exploraram todas as alternativas possíveis, decidiram que iriam onde fosse necessário. Descobriram que nos Estados Unidos da América existe um tratamento para esta doença, e mais recentemente (há cerca de uma semana) que este tratamento foi aprovado na Europa. Apesar das boas notícias, o processo de negociação do preço do medicamento poderá tornar a disponibilização do tratamento mais morosa. Neste momento não se sabe qual o valor que será cobrado pelo tratamento – receiam que venha a ser pago tal como acontece nos EUA –  nem quanto tempo durará; a única coisa que sabem é que, segundo os testes, os resultados têm sido muito positivos.

Actualmente o André tem 13 meses, cognitivamente é um bebé bastante desenvolvido – o pai afirma que há uma compensação em relação à parte motora – que adora as brincadeiras típicas da idade. Em termos motores apresenta tónus muscular no tronco, algum nos braços (não os consegue levantar acima da cabeça) e muito pouco nas pernas. Para corrigir a postura e manter os progressos – evitar a atrofia dos músculos e que se criem escleroses  – o André faz fisioterapia (estão à espera de vaga no público). Além disso,  faz natação para possibilitar a liberdade de movimentos e cinesioterapia para combater a propensão a doenças respiratórias. A maioria destas terapias ocorrem no serviço privado, o que se traduziu num aumento drástico das despesas desta família. Além das despesas actuais existem as possíveis despesas com o tratamento do André assim que ficar disponível, bem como os diversos equipamentos que terão de ir adquirindo ao longo do tempo, mediante as fases de desenvolvimento do filho.

Tenho a certeza que se estão a perguntar “como é que podemos ajudar”? É simples!

1- Transferência bancária 

NIB – 0007 0000 00360200674 23 (André Miguel Figueiredo Antunes)

SWIFT/BIC – BESCPTPL

2 – Recolha de tampinhas de plástico/caricas

Podem entregar as vossas tampinhas de plástico e/ou caricas nos diversos pontos de recolha. Deixo-vos a lista:

  • Loja Ferragens do Combro (Lisboa);
  • Colégio dos Pequenos Marqueses (Oeiras);
  • Mercearia do Prato (Arruda dos Vinhos);
  • Colégio da Bafureira (Cascais);
  • Centro de Fisioterapia Claris (Sintra);
  • Turminha dos Pimpolhos (Loures);
  • Atelier Atitudo – Artes Marciais (Porto);

3 – Página do Facebook

Outro tipo de ajuda importante é a divulgação desta história e dos vários eventos de angariação de fundos (aqui podem participar) através do facebook. Além disso, podem encher esta família de comentários de força e carinho, sabe sempre bem.

https://www.facebook.com/aprocuradonossomilagre/

Conto com vocês para ajudar esta família amorosa. Hoje são eles, amanhã somos nós!

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Nutrição

As leguminosas (por Cláudia Viegas*)

As leguminosas são um conjunto de alimentos muito interessantes e ricos do ponto de vista nutricional, cujo consumo tem diminuído. Em 2016, a FAO, declarou o ano internacional das leguminosas, como forma de chamar a atenção para este grupo de alimentos, pela sua riqueza, variedade e importância na biodiversidade e sustentabilidade.

Quando falamos em leguminosas referimos-nos às ervilhas, grão, feijão, lentilhas, entre outras. As leguminosas são ricas em hidratos de carbono complexos, de baixo índice glicémico que, em conjunto com o facto de serem ricas em fibra, contribui para o aumento da saciedade. Contêm também uma quantidade relevante de proteína (que também tem influência na saciedade), ao qual acresce o facto de serem pobres em gordura. Por este motivo são alimentos que contribuem para o controlo de peso, sendo importantes para o controlo da glicémia, em particular para os diabéticos. Do ponto de vista dos micronutrientes são ainda ricas em vitaminas do complexo B, ferro, ácido fólico e cálcio.

Gastronomicamente são muito versáteis podendo ser usadas em sopas, estufados, diversos tipos de chili, patês, entre outras preparações culinárias, existindo uma grande variedade por onde escolher, com diversas cores e sabores.

Na alimentação infantil as leguminosas podem ser introduzidas a partir dos 8 meses, após a introdução dos primeiros legumes e cereais. Inicialmente grosseiramente esmagadas, de forma a habituarmos as crianças às texturas, e gradualmente mais inteiras, as leguminosas são fantásticas porque podem ser comidas como se fossem “pipocas”. Por vezes existe o receio da sua introdução por causa dos “gases”. Se comermos leguminosas muito pontualmente, é normal que sintamos a reação por parte do intestino, mas se elas fizerem regularmente parte da nossa alimentação essa sensação desaparece, contribuindo para o normal funcionamento do intestino, pelas razões atrás referidas.

Hoje em dia muitas pessoas adquirem-nas já cozidas, mas o ritual de confeção das leguminosas é simples, basta colocá-las em água à noite (sexta-feira, por exemplo) e cozê-las no sábado de manhã enquanto se toma o pequeno almoço… Depois de arrefecerem, a meio da manhã, temos o hábito de estar todos a depenicar numa tacinha de grão. Podemos depois usá-las para fazer o almoço, desde a sopa a qualquer outro prato, ou podemos guardá-las em caixinhas e congelá-las para utilizar noutro dia.

São óptimas para refeições de emergência, quando chegamos tarde e sem nada pensado, porque se as tirarmos do congelador, deitando água quente ficam logo prontas e é só juntar um ovo e legumes cozidos, azeite, alho e vinagre ou outros temperos a gosto que temos uma refeição saudável e equilibrada.

Aqui fica uma link com várias sugestões de Hummus, um patê muito saboroso e saudável, ideal para comer com palitos de cenoura ou aipo, para entrada, festas, picnics ou viagens – /http://www.jamieoliver.com/news-and-features/features/best-basic-houmous-recipe/

* Cláudia Viegas – Nutricionista e Docente na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril

leguminosas

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Mom next door

Mom next door – A Fábia e a exclusão do Bernardo

Antes de vos falar da Fábia e do Bernardo, permitam-me que, enquanto mulher formada em psicologia, aponte um aspecto muito importante sobre o autismo – ser autista não é ser tonto, nem parvinho! Estamos a falar de pessoas, ainda que com algum tipo de limitações (por vezes questiono-me se viver desligado da maldade alheia é uma limitação), que têm sentimentos e por isso têm de ser tratadas com respeito, tal como todas as outras (a sério, qual é a dificuldade?!).

A Fábia é mãe da Bianca, de 15 anos, e do Bernardo, um menino de 10 anos descrito como um sedutor, que adora dar miminhos, ir à praia e à piscina, e que no meio de tantas outros coisas que o caracterizam poder-se-ia referir que é autista. Desde cedo habituaram-se aos olhares indiscretos, de algum espanto, cada vez que o Bernardo efectua algum movimento estereotipado ou emite algum som típico. O que Fábia sempre se recusou a aceitar foi que o Bernardo crescesse a sentir-se diferente, por isso procurou por uma escola com ensino integrado.

Recentemente Fábia foi avisada de que iria decorrer a festa de finalista do Bernardo; a professora chegou a ligar-lhe para confirmar se iriam à festa. Por ser um acontecimento importante, esta mãe fez um esforço para poder acompanhar o filho – trocou de turno e alterou a rotina do Bernardo (àquela hora da noite já deveria estar a fazer a dormir).

Ao chegar à festa o Bernardo foi recebido pelos colegas de forma calorosa, como de costume (está bem integrado na turma e gosta dos colegas). Quando chegou a sua vez de actuar, toda a turma foi encaminhada para o palco, excepto o Bernardo; sim, foi o único que ficou de fora. Enquanto os colegas de turma dançavam, esta criança, fora do palco, acompanhava alegremente o ritmo da música com palmas.

Quando questionada sobre o motivo pelo qual o Bernardo ficou de fora, a professora alegou que este seria incapaz de realizar a coreografia. Esta mãe conhece o seu filho, as suas competências, a exigência que cuidar dele representa, e jamais esperaria uma performance semelhante à dos colegas, apenas desejava que o incluíssem, mesmo que isso implicasse que ambos subissem ao palco apenas para bater palmas. Fábia mostra-se também indignada pelo facto de se tratar de uma escola que dispõe de ensino integrado, o que suporia uma maior sensibilização por parte dos professores, da Direcção, dos funcionários, isto é, da comunidade escolar em geral, para este género de situações que mexem com vários direitos básicos, entre eles o direito ao respeito e à integração.

Posto isto, questiono-me sobre a função destas festas de final de ano – permitir que os alunos se unam na criação de um momento divertido para todos ou fazer sobressair os dotes artísticos de alguns? Esta necessidade de criar actuações ao nível dos melhores musicais do La Féria, envolvendo ensaios desgastantes, algum nervosismo nos alunos menos dados a estas lides, professores saturados, parece-me desadequada. Não é suposto ser um momento descontraído e de partilha? Penso que esta premissa tem de ser revista; talvez a criação de um simples convívio, com música e algumas actividades para pais e filhos fosse mais saudável.

Em relação à inclusão de todas as crianças, o que num convívio informal, como sugiro, aconteceria de forma mais natural, poderá sempre ocorrer desde que se queira; é aqui que aqueles esquemas giríssimos que mostram a ligação escola-família-comunidade que adoram afixar nos painéis de cortiça à entrada das secretarias poderiam ser colocados em prática, procurando junto dos alunos, incluindo o Bernardo, dos pais que conhecem tão bem a criança, formas de tornar a actuação exequível para todos. Até que ponto tal não viria a representar uma aprendizagem verdadeiramente importante para aquelas crianças? Na minha opinião, a capacidade de pensar no mundo enquanto local integrador, de entreajuda, ajustável a todos, com espaço para que cada um expresse as suas potencialidades (mesmo que limitadas), é uma competência fulcral, uma base impulsionadora, que se sobrepõe a muitas das aquisições escolares – como funções matemáticas e datas históricas – que passaram o ano a encerebrar.

Bernardo, ainda que fora do palco, brilhaste, meu querido! Graças ao vosso testemunho iremos sensibilizar as pessoas para que todos tenham oportunidade de “estar no palco”.

fabia e bernardo

 

 

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Menina, Mulher & Mãe

As maternidades não são salas de convívio

Apesar de ser mãe de primeira viagem, o que se traduz numa aprendizagem por tentativa-erro (ui, e que erros!), há uma escolha de que me orgulho – ter pedido aos meus familiares (não a todos) e amigos que não me visitassem enquanto estava na maternidade. Provavelmente algumas de vocês terminaram de ler a frase com o sobrolho franzido, enquanto se questionam porque raios não quis uma sala cheia de pessoas que me adoram e que ficariam super felizes por conhecer o meu novo amor (não me interpretem mal, sou bastante sociável),  na verdade a resposta é simples – precisava de tempo e de espaço para conhecer a minha filha e a mim enquanto mãe (ambas éramos recém-nascidas).

Quando o bebé e a mãe nascem o seu mundo enche-se de amor, mas também de desafios – amamentar alguém, sentir o seu toque, decorar cada pedacinho do seu rosto, lidar com o turbilhão de pensamentos que nos invadem, suportar a dor física, o cansaço que se instala – para tudo isto é preciso tempo, privacidade, disponibilidade física e emocional, que só se alcança num ambiente tranquilo que acompanha o nosso ritmo, seja ele qual for. Ter inúmeras pessoas à nossa volta que, ainda com boa vontade, querem segurar o bebé, interagir com ele, ajudar-nos com os seus conselhos que “resultaram com todas as crianças da família”, acaba por ser um massacre para ambos. O ruído, a agitação, o bebé saltar de colo em colo, o excesso de novos cheiros (cada pessoa seu perfume), a impossibilidade de dormir quando o bebé adormece por termos de “fazer sala”, a obrigação de ter de manter um ar simpático quando só nos apetece fugir das obrigações sociais, as conversas que se tornam paralelas devido ao cansaço não nos permitir acompanhá-las, as hormonas desreguladas que fazem com que pequenas coisas nos enervem – nada disto promove o nosso bem-estar.

No meu caso, tive alguma dificuldade em amamentar, a minha filha adormecia, não tinha facilidade em fazer a pega, eu sentia algum desconforto físico, quando ela queria comer eu precisava de privacidade, de espaço para descobrir a melhor forma de amamentar; quando ela adormecia eu precisava de dormir, sem horários, era quando dava. Consegui esse tempo e espaço graças à minha mãe, a pessoa que me acompanhou durante todo o processo e que fez questão de me deixar nascer enquanto mãe, ajudando no que eu pedia, dando carinho e apoio, mais nada.

Recordo de as enfermeiras me elogiarem por ter decidido não receber muitas visitas, na altura elas referiam que mesmo estando a dormir o bebé “absorvia” toda aquela agitação e de noite tinha necessidade de a libertar – como estavam certas. Num dos dias, durante a tarde, apareceram algumas pessoas que, na melhor das intenções, ignoraram o meu pedido e vieram visitar-nos. Confesso-vos que essa tarde foi dura – sentia imenso sono mas não podia dormir, o barulho incomodava-me e a certa altura cheguei a sentir dor de cabeça, precisei de dar de mamar e as pessoas mantiveram-se na sala. Confesso-vos também que a visita se tornou um momento de convívio apenas entre as pessoas que nos vieram ver, eu estava cansada, com dores, queria dormir, pelo que me limitei a escutar as suas conversas, quase como se fosse convidada na minha própria festa. Por dentro só torcia para que se fossem embora, aparentemente a minha filha também pois, como as enfermeiras haviam previsto, essa noite foi terrível para ela (estava tão agitada).

Algumas pessoas não compreendem verdadeiramente o significado da transição para a parentalidade, a mudança brutal que é de um momento para o outro teres ao teu lado um ser que depende completamente de ti, das tuas decisões, para sempre (é assim que o sentimos na altura). Sei de alguns casos em que só faltou levarem um grelhador e umas cervejolas para aquele grande convívio na maternidade, aproveitaram para pôr a conversa em dia com pessoas que não viam há algum tempo enquanto a recém-mamã assistia, saíram dos transportes públicos e com aquelas mãos imundas entraram no quarto e sem pedir arrancaram do colo da mãe o bebé que praticamente ainda tinha vestígios da placenta na cabeça.

Para as guerreiras que adorariam gerir o processo mas sabem que estão rodeadas por pessoas incapazes de respeitar as decisões dos outros, deixo-vos esta dica – avisem as enfermeiras que vão receber visitas e peçam-lhes que a dada altura convidem as pessoas a sair; acreditem que a maioria, por saber o quão desgastaste pode ser receber visitas, aceitam este papel sem hesitar.

Quando regressei a casa tive imenso tempo para receber visitas, para lhes apresentar o melhor presente que a vida me deu, tranquilamente, em horários que entretanto se foram estabelecendo. Eu e a minha filha já nos conhecíamos um pouco melhor, o que me dava outra segurança para gerir as coisas; além disso era capaz de colocar determinados limites, como exigir que não a beijassem ou que lavassem as mãos antes de lhe tocar (todo um rol de dramas que me livrei de lidar na maternidade).

Se hoje a experiência se repetisse digo-vos que faria tudo igual – escolheria para me acompanhar ao longo do processo uma pessoa com quem tenho imenso à vontade, duas ou três pessoas que me conhecem suficientemente para me visitar. O ambiente tranquilo em que vivi os primeiros dias (o pai chegou de Angola no terceiro dia), com o apoio da minha mãe, foi benéfico para mim e para a minha filha, não o trocaria por nada.

Naturalmente, para algumas pessoas e suas crias toda aquela agitação poderá ser vivida de forma mais positiva, felizmente não somos todos iguais; não obstante, acredito que se trata de uma minoria. Estamos a falar de um momento único, diferente de qualquer outra experiência que já viveram, em que menos acaba por ser mais, e em que descobrir o vosso ritmo e conhecer o outro, sem pressões nem conversas paralelas, são prioritários.

3m’s – Menina, Mulher & Mãe

salas de convívio

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