Pediatria

Sarampo – o que é, como se adquire e previne (por Sara Aguilar*)

Nas últimas semanas, têm vindo a confirmar-se cada vez mais casos de sarampo em Portugal, pelo que as dúvidas sobre esta doença – o que é, como se transmite e previne – têm surgido de forma generalizada. Vou tentar ajudar a responder a algumas das que têm surgido com mais frequência.

O que é o sarampo?

É uma doença causada por um vírus, que se manifesta através de febre alta, com duração de vários dias, difícil de ceder, acompanhada de prostração e de manchas avermelhadas na pele que se iniciam na cabeça e vão progredindo até aos membros, atingindo todo o corpo, incluindo palma das mãos e planta dos pés. Geralmente há também tosse, ranho, dores musculares, falta de apetite e conjuntivite.

Há uma inflamação do nariz, faringe e amígdalas que pode progredir para os pulmões e causar pneumonia. É uma doença com graves complicações  (mais frequentes abaixo dos 5 anos), nomeadamente Pneumonias, Encefalites, Otites, Croup  (dificuldade respiratória por inflamação/obstrução da laringe e traqueia) e a Panencefalite Esclerosante (que surge 7 a 10 anos após o Sarampo), levando à morte…

O período de contágio faz-se entre 4 dias antes da doença surgir e até 4 dias após surgirem as manchas.

O tratamento é sintomático (Ben-u-ron), soros de hidratação (muitas vezes na veia, pela recusa das crianças em beberem).

A DGS define como caso possível de sarampo: “Todo o doente que, independente da idade e da situação vacinal, apresentar febre e exantema maculopapular, acompanhados de um ou mais dos seguintes sinais e sintomas: tosse e/ou coriza e/ou conjuntivite.”

Como se adquire o sarampo?

A doença é transmitida de pessoa a pessoa, por meio de secreções respiratórias que são eliminadas pelo doente quando ele tosse, fala, respira ou espirra. É uma doença muito contagiosa e a transmissão pode ocorrer em locais públicos onde haja uma pessoa doente. A transmissão é ainda maior em ambientes fechados como escolas, creches ou salas de urgência de hospitais, pelo que se desaconselha as crianças e adultos não vacinados a frequentar locais fechados com muitas pessoas.

Como se previne o sarampo?

A prevenção é feita com a vacina contra o sarampo, a qual faz parte do Programa Nacional de Vacinação (gratuito, mas voluntário). A primeira dose é feita aos 12 meses, havendo um reforço posteriormente aos 5 anos de idade.

A vacina contra o sarampo é aplicada juntamente com a vacina contra a papeira e a rubéola (vacina chamada VASPR). Isto quer dizer que todas as crianças que têm as vacinas em dia estão protegidas contra o sarampo.

Se o seu filho tiver entre 6 e 12 meses, e contactar com algum caso suspeito de sarampo, tem indicação para fazer logo uma dose da vacina após o contacto e fará ainda depois a dose normal aos 12 meses. Isto porque a vacina é mais eficaz após os 12 meses, altura em que o sistema imunitário já consegue guardar memória de como actuar em caso de contacto com a doença no futuro.

A Direção Geral de Saúde, perante a recente epidemia de sarampo em Portugal, no passado dia 21/4/2017 emitiu uma nova directriz em que refere que a vacina pode ser efetuada a partir dos 6 meses, mediante prescrição médica e respetiva justificação. Neste último caso encontram-se os meninos com doenças crónicas de base, prematuros, imunodeprimidos ou sempre que o pediatra assistente o entenda. No entanto, sempre que a vacina é administrada antes dos 12 meses, será sempre necessário realizar a vacinação novamente aos 12 meses.

Para as crianças maiores de 6 anos e adolescentes até 18 anos que nunca fizeram a vacina anteriormente, é necessário fazer uma dose da vacina inicial, seguida de uma dose de reforço 2 meses depois. Já para os adultos entre os 18 e 47 anos que não foram vacinados anteriormente, recomenda-se a aplicação de apenas uma dose da vacina.

Se uma criança vacinada for exposta ao sarampo, poderá não ter qualquer sintoma, ou se tiver, será um quadro muito ligeiro. Crianças vacinadas que forem expostas ao sarampo e tenham ainda

Devo-me preocupar com o sarampo em Portugal?

Em Portugal, o Sarampo tinha já sido eliminado porque tínhamos um Plano Nacional de Vacinação com uma cobertura de 98%, havendo imunidade de grupo. Mas como para os vírus e doenças não há fronteiras, há sempre o risco de importação de casos de doença, quer casos isolados, quer em surtos/epidemia, mesmo em países onde a doença tinha sido eliminada, como era o nosso caso.

Após a reentrada do sarampo em circulação, as crianças não vacinadas são as que correm risco de desenvolver doença.

Em caso de exposição ao sarampo, está indicado ficar de quarentena em casa durante 21 dias.

Com todas estas evidências do retorno do sarampo no Mundo e em Portugal, precisamos de nos preocupar com o sarampo e a melhor forma de controlar a disseminação é prevenir a doença. Se o seu filho tiver com as doses atrasadas, fale com o seu pediatra ou vá a um centro de saúde para colocar as doses imediatamente em dia.

Afinal, o melhor tratamento é a prevenção!

*Sara Aguilar – Pediatra

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Convulsões Febris – O que são? O que fazer? E o que não fazer?

Convulsões febris são convulsões que ocorrem em crianças saudáveis (>6m-6 anos), no início de uma doença infecciosa, aquando de uma subida muito rápida da temperatura corporal (febre).

Apesar de serem benignas, as convulsões febris são daquelas coisas que assustam muito os pais, não só pelo inesperado da situação, como pelo medo de poder anunciar alguma doença neurológica grave. O mais importante a fazer, caso ocorram no vosso filho, é tentar manter a calma, e lembrarem-se destas dicas, pois os cuidados iniciais terão de ser realizados por quem estiver naquele momento com a criança!

É uma experiência muito angustiante e assustadora ver uma criança a ter uma convulsão febril. Para quem está a assistir parece sempre que a convulsão está a demorar uma eternidade a passar (mesmo que a duração até seja muito curta).

As convulsões febris não são tão perigosas quanto parecem e, na grande maioria das vezes, não indicam a existência de uma doença grave na sua origem. Mesmo assim, quando uma criança apresenta uma convulsão febril pela primeira vez, é importante que seja avaliada e observada na urgência Hospitalar.

As convulsões febris são relativamente frequentes, ocorrendo aproximadamente em 4% das crianças com idades entre os 6 meses e os 5 anos, podendo manifestar-se até aproximadamente os seis anos, em ambos os sexos.

Nem todas as crianças com febre alta vão ter uma convulsão febril. Um dos principais factores de risco é um dos pais/tios ou outros familiares próximos terem tido convulsões febris na infância, porque existe uma susceptibilidade genética, ou seja, há um gene familiar que faz com que o cérebro fique mais sensível ao aumento rápido da temperatura, e consequentemente entre em convulsão quando isso acontece.

A maioria das convulsões febris ocorre nas primeiras 24 horas de doença. É muito frequente não haver nenhum sinal/pista de doença prévio que nos alerte, e geralmente a convulsão febril surge no primeiro pico febril daquele episódio de doença, sendo imprevisível.

A observação médica da criança, muitas vezes associada a exames de sangue e urina, podem indicar a causa mais provável da febre. Na grande maioria dos casos, as doenças virais banais, típicas da infância, são a causa principal. Algumas vezes, doenças bacterianas como otites ou amigdalites também podem estar por detrás da febre. A meningite, que é uma causa rara, deve ser sempre excluída (pela observação médica, e se necessário, exames de sangue).

O electroencefalograma (EEG) não é necessário para o diagnóstico das convulsões febris, e não prevê a recorrência de convulsões, motivo pelo qual o seu uso não está recomendado. A TAC crânio encefálica também não é necessária.

Como são as convulsões febris?

A criança que tem uma convulsão febril, geralmente apresenta os seguintes sinais:

– Febre, com temperatura acima de 38ºC;

– Perda de consciência/não responde à estimulação;

– Bate os braços e pernas em movimentos rápidos e repetitivos, com um ou com os dois lados do corpo;

– Revira os olhos/ olhos fixos e imóveis;

– Tem a respiração dificultada/ pode ter lábios arroxeados;

– Pode urinar, salivar ou morder a língua durante a convulsão e pode ficar muito sonolenta quando esta termina;

– A convulsão febril pode durar de alguns segundos até 10 minutos. As convulsões febris que duram mais de 15 minutos e ocorrem mais de uma vez em 24 horas, são consideradas graves, e nesses casos geralmente implicam internamento durante algumas horas para vigilância.

Quais são as complicações/consequências de uma convulsão febril?

A principal complicação de uma convulsão febril é esta poder ocorrer novamente. Cerca de um terço das crianças que apresentam uma primeira convulsão febril terão novas convulsões em outros episódios de febre (é imprevisível quando vai acontecer novamente).

É muito importante saber que:

– As convulsões febris não causam qualquer lesão ao cérebro da criança, nem afectarão as suas competências e aptidões futuras;

– Não são indicadoras do desenvolvimento de epilepsia. Se uma criança que teve convulsão febril vier a desenvolver epilepsia, não será por causa da convulsão febril;

– As convulsões febris são transitórias, ou seja, passam com a idade.

O que fazer durante uma convulsão febril?

– Tentar manter a calma: apesar de ser desagradável e assustadora, a convulsão geralmente não representa risco para a criança, que recuperará dela espontaneamente;

– Colocar a criança deitada, numa superfície plana, espaçosa, em que não haja risco de queda;

– Remover qualquer objecto de perto que a possa magoar;

– Retirar roupas para ajudar a arrefecer a criança;

– Se a criança vomita ou se apresenta grande salivação na boca, deve-se colocar a criança de lado para evitar que se engasgue;

– Tentar contar o tempo de duração da convulsão;

– Medir a temperatura, e se >38ºC colocar de imediato um paracetamol/ibuprofeno em supositório (dose adequada ao peso da criança), e colocar compressas ou toalhas húmidas na cara e no corpo para ajudar a refrescar;

– Após a convulsão a criança pode ficar sonolenta e desejar dormir, o que é normal, por isso deixe que ela durma depois da convulsão;

– Se for um primeiro episódio deverá ser sempre observada na urgência hospitalar;

– Se não for a primeira convulsão, os pais já devem ter em casa clisteres de Diazepam (StezolidR), um medicamento que se utiliza para parar a convulsão. A administração é rectal e a dose depende do peso da criança:

Peso inferior a 5Kg: 2,5 mg    Peso entre 5 a 10Kg: 5 mg     Peso superior a 20Kg: 10 mg

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Geralmente, os médicos não utilizam medicamentos anticonvulsivantes para convulsões febris, porque estes medicamentos costumam ter efeitos secundários, como provocar sono. Só está indicado fazer medicação se a convulsão for prolongada, com duração superior a 5 minutos.

O que não fazer durante uma convulsão febril?

– Não se deve procurar imobilizar a criança, impedindo seus movimentos, nem colocá-la no colo ou sacudi-la, porque isso pode causar-lhe falta de ar;

– Não introduzir nada na boca da criança, mesmo que pareça que a língua a está a obstruir. Nunca colocar os seus dedos na boca da criança porque ela pode feri-los, involuntariamente. Nunca se devem colocar outros objectos porque ela se pode engasgar ou ferir nas gengivas e consequentemente sangrar da boca e agravar o quadro;

– Não dar nada para comer ou beber, nem dar qualquer medicamento pela boca até que a criança esteja bem acordada, porque ela pode engasgar-se!

Como prevenir uma futura convulsão febril?

A melhor maneira de prevenir a convulsão febril é evitar que a criança tenha febre. Como isso é impossível, deve-se estar atento a sinais de doença, e se temperatura >38ºC em crianças com história anterior de convulsões febris, dar logo um paracetamol/ibuprofeno para  tentar baixar  de imediato a temperatura, embora nem sempre isso seja uma garantia de que a convulsão não acontecerá na mesma.

Sara Aguilar – Pediatra

Nota: Para quem não chegou a ler, falei da nossa experiência aqui –  O pior momento da minha vida

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As constipações virais: o que são, o que fazer e o que não fazer!

Esta altura do ano, para quem tem uma criança pequena, pode ser um terror. Isto porque, com a baixa temperatura e a humidade, o número de vírus circulantes é enorme!! As crianças saem de uma constipação (nasofaringite viral) e entram noutra, num ciclo interminável, que é agravado pelo convívio uns com os outros nas creches e berçários (os infetários!!). Há mais de 100 tipos de vírus que causam o nasofaringite viral, o que nos proporciona sempre novidades todos os anos.

Uma constipação costuma durar por volta de uma semana. Pode associar-se com nariz entupido, tosse, farfalheira,  lacrimejo, mal estar, falta de apetite e febre (temperatura> 38 ºC), variando a intensidade dos sintomas com os diferentes vírus. É muito importante lembrar que a febre não costuma durar mais do que 72 horas. Febre que dura mais do que 72 horas,  pode estar associada a uma complicação bacteriana, devendo a partir daí a criança ser observada por um médico .

Mas, afinal, o que se deve fazer nestas situações?

Se a criança está bem disposta, sem sinais de dificuldade a respirar, a comer bem, a febre é espaçada e cede bem aos antipiréticos (paracetamol/ibuprofeno), nem pensar em ir logo a correr para a urgência!

O que há a fazer:

  • Colocar muito, muito soro nasal, várias vezes por dia, em esguicho (mínimo uma unidose) em cada narina. Quem preferir pode aplicar também água do mar;
  • Controlar a febre com paracetamol (max. 6/6h), ibuprofeno (max. 8/8h se >5 meses), sempre em doses ajustadas ao peso (ver bula), podendo usar os 2 alternadamente se houver necessidade;
  • Dar refeições simples e fraccionadas (menos quantidade, mais vezes por dia), sem insistir, privilegiando os líquidos (não se preocupar muito com a falta de apetite, que é recuperado em dobro quando passar a constipação);
  • Cabeceira elevada a dormir, para respirarem melhor;
  • Vigiar sinais de falta de ar: respiração acelerada, pieira, respiração com esforço a fazer covinhas no pescoço ou a barriga aquando da respiração (tiragem);
  • Se febre com duração superior a 72horas, que não está a espaçar, criança muito prostrada que não come nada, suspeita de otite ou se sinais de falta de ar, ir à urgência ou consultar o médico.

O que não fazer:

  • Ir a correr à urgência no primeiro pico de febre, ou se tosse sem mais nenhum dos sinais que preocupam (falta de ar, recusa em comer, vómitos sempre que tosse);
  • Aerossóis com soro fisiológico – o mais eficaz é mesmo o soro em esguicho no nariz, que ajuda a que a criança engula as ranhocas que estavam acumuladas no nariz e na garganta e que estavam a causar a tosse. O aerossol só vai aumentar o líquido dessas secreções, pode encher os pequenos bronquíolos dos bebés de líquido, aumentando a dificuldade respiratória;
  • Expectorantes e antitússicos  (vulgo xaropes) – não dar! Aumentam as secreções e fazem com que a criança ainda se atrapalhe mais. Os antitússicos param a tosse, que é uma defesa do pulmão. Se a criança não tossir, a expectoração desce para o pulmão, causando pneumonia, o que é bem pior;
  • Nem pensar em colocar produtos mentolados (como Vick) nas crianças, porque além de estar estudado que não têm qualquer benefício, podem causar reacções alérgicas e ser muito irritativos para as vias respiratórias, aumentando a tosse e a expectoração.
  • Embora o mel possa ter um efeito hidratante da garganta, não está provada qualquer eficácia dos xaropes de cenoura, mel ou limão na melhoria da tosse. Estes remédios não têm efeitos colaterais, mas porque possuem uma quantidade exagerada de açúcar ou mel, podem vir a ter consequências para a saúde a médio/longo prazo (obesidade, cáries, …), se forem dados com frequência. Nunca dar a crianças com menos de 12/24 meses, em que o açúcar e mel são totalmente desaconselhados.

Geralmente, as viroses respiratórias evoluem bem e, numa semana, a criança estará melhor. Além de uma boa alimentação e uma boa hidratação, é preciso paciência, algumas noites sem dormir e muita dedicação, mas há um consolo: com o tempo, a criança cresce e a frequência das viroses respiratórias diminui.

Sara Aguilar

Pediatra

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