Pediatria

Sarampo – o que é, como se adquire e previne (por Sara Aguilar*)

Nas últimas semanas, têm vindo a confirmar-se cada vez mais casos de sarampo em Portugal, pelo que as dúvidas sobre esta doença – o que é, como se transmite e previne – têm surgido de forma generalizada. Vou tentar ajudar a responder a algumas das que têm surgido com mais frequência.

O que é o sarampo?

É uma doença causada por um vírus, que se manifesta através de febre alta, com duração de vários dias, difícil de ceder, acompanhada de prostração e de manchas avermelhadas na pele que se iniciam na cabeça e vão progredindo até aos membros, atingindo todo o corpo, incluindo palma das mãos e planta dos pés. Geralmente há também tosse, ranho, dores musculares, falta de apetite e conjuntivite.

Há uma inflamação do nariz, faringe e amígdalas que pode progredir para os pulmões e causar pneumonia. É uma doença com graves complicações  (mais frequentes abaixo dos 5 anos), nomeadamente Pneumonias, Encefalites, Otites, Croup  (dificuldade respiratória por inflamação/obstrução da laringe e traqueia) e a Panencefalite Esclerosante (que surge 7 a 10 anos após o Sarampo), levando à morte…

O período de contágio faz-se entre 4 dias antes da doença surgir e até 4 dias após surgirem as manchas.

O tratamento é sintomático (Ben-u-ron), soros de hidratação (muitas vezes na veia, pela recusa das crianças em beberem).

A DGS define como caso possível de sarampo: “Todo o doente que, independente da idade e da situação vacinal, apresentar febre e exantema maculopapular, acompanhados de um ou mais dos seguintes sinais e sintomas: tosse e/ou coriza e/ou conjuntivite.”

Como se adquire o sarampo?

A doença é transmitida de pessoa a pessoa, por meio de secreções respiratórias que são eliminadas pelo doente quando ele tosse, fala, respira ou espirra. É uma doença muito contagiosa e a transmissão pode ocorrer em locais públicos onde haja uma pessoa doente. A transmissão é ainda maior em ambientes fechados como escolas, creches ou salas de urgência de hospitais, pelo que se desaconselha as crianças e adultos não vacinados a frequentar locais fechados com muitas pessoas.

Como se previne o sarampo?

A prevenção é feita com a vacina contra o sarampo, a qual faz parte do Programa Nacional de Vacinação (gratuito, mas voluntário). A primeira dose é feita aos 12 meses, havendo um reforço posteriormente aos 5 anos de idade.

A vacina contra o sarampo é aplicada juntamente com a vacina contra a papeira e a rubéola (vacina chamada VASPR). Isto quer dizer que todas as crianças que têm as vacinas em dia estão protegidas contra o sarampo.

Se o seu filho tiver entre 6 e 12 meses, e contactar com algum caso suspeito de sarampo, tem indicação para fazer logo uma dose da vacina após o contacto e fará ainda depois a dose normal aos 12 meses. Isto porque a vacina é mais eficaz após os 12 meses, altura em que o sistema imunitário já consegue guardar memória de como actuar em caso de contacto com a doença no futuro.

A Direção Geral de Saúde, perante a recente epidemia de sarampo em Portugal, no passado dia 21/4/2017 emitiu uma nova directriz em que refere que a vacina pode ser efetuada a partir dos 6 meses, mediante prescrição médica e respetiva justificação. Neste último caso encontram-se os meninos com doenças crónicas de base, prematuros, imunodeprimidos ou sempre que o pediatra assistente o entenda. No entanto, sempre que a vacina é administrada antes dos 12 meses, será sempre necessário realizar a vacinação novamente aos 12 meses.

Para as crianças maiores de 6 anos e adolescentes até 18 anos que nunca fizeram a vacina anteriormente, é necessário fazer uma dose da vacina inicial, seguida de uma dose de reforço 2 meses depois. Já para os adultos entre os 18 e 47 anos que não foram vacinados anteriormente, recomenda-se a aplicação de apenas uma dose da vacina.

Se uma criança vacinada for exposta ao sarampo, poderá não ter qualquer sintoma, ou se tiver, será um quadro muito ligeiro. Crianças vacinadas que forem expostas ao sarampo e tenham ainda

Devo-me preocupar com o sarampo em Portugal?

Em Portugal, o Sarampo tinha já sido eliminado porque tínhamos um Plano Nacional de Vacinação com uma cobertura de 98%, havendo imunidade de grupo. Mas como para os vírus e doenças não há fronteiras, há sempre o risco de importação de casos de doença, quer casos isolados, quer em surtos/epidemia, mesmo em países onde a doença tinha sido eliminada, como era o nosso caso.

Após a reentrada do sarampo em circulação, as crianças não vacinadas são as que correm risco de desenvolver doença.

Em caso de exposição ao sarampo, está indicado ficar de quarentena em casa durante 21 dias.

Com todas estas evidências do retorno do sarampo no Mundo e em Portugal, precisamos de nos preocupar com o sarampo e a melhor forma de controlar a disseminação é prevenir a doença. Se o seu filho tiver com as doses atrasadas, fale com o seu pediatra ou vá a um centro de saúde para colocar as doses imediatamente em dia.

Afinal, o melhor tratamento é a prevenção!

*Sara Aguilar – Pediatra

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Nutrição

A introdução de alimentos nos bebés: parte II (por Cláudia Viegas*)

A diversificação alimentar consiste na introdução de novos alimentos no regime alimentar do bebé. Até aos 6 meses de idade os bebés devem ser alimentados exclusivamente por leite materno. A partir desta idade, o leite deixa de ser suficiente para suprir todas as necessidades nutricionais do bebé (como ferro e vitamina C), sendo necessário introduzir outros alimentos.

Não existe uma fórmula única para este processo, sendo o mais vulgar começar pela introdução de sopas ou papas. Iniciar pela papa tem a vantagem de esta ser mais parecida com o leite em termos de sabor e por esse motivo poder ser mais fácil a adaptação. Por outro lado, as papas representam um aporte energético muito superior, fazendo aos seis meses o aumento que deve ser feito, gradualmente, até ao primeiro ano de vida. Iniciar pela sopa, faz este aumento de forma mais faseada, com a vantagem de garantir uma maior diversidade em micronutrientes, incluindo ferro e vitamina C, cuja absorção é mais eficiente quando ingeridos em conjunto.

Aspectos importantes a ter em conta:

  • Não termos receio de colocar azeite na sopa – a gordura, de boa qualidade, é muito importante par o desenvolvimento do sistema nervoso do bebé;
  • Não adicionar sal ou açúcar nas sopas ou papas;
  • Depois das primeiras sopas, mais passadas, iniciar rapidamente a introdução de texturas, deixando de passar tanto, esmagando as frutas e legumes e deixando alguns pedaços (ex: carne ou peixe desfiados, arroz, massinha letrinhas ou pevide inteiros);
  • Não ter receito de introduzir um leque variado de legumes (apenas a beterraba, o nabo, o tomate e o espinafre devem ser deixados para o fim);
  • A partir dos 9 meses introduzir as leguminosas (sem medos)
  • Entre os 9 e os 12 meses iniciar o treino da autonomia do bebé – comer com a colher, beber pelo copo. Haverá certamente muita comida espalhada por todo o lado, mas só treinando se aprende a dominar a técnica
  • Fazer da refeição um momento de família, evitando a televisão, tablets e outras distracções.

Para os pais que por algum motivo não puderam amamentar, a diversificação alimentar deve iniciar-se pelos 4 meses de vida.

Entre os 4 e os 6 meses, os bebés ainda têm presente o reflexo de extrusão, ou seja, tendem a cuspir o que se lhes coloca na boca. Por isso não desistam ou pensem imediatamente que ele não gosta daquilo que acabaram de oferecer (é apenas reflexo). É preciso paciência e persistência.

Deixo-vos um documento onde podem encontrar toda esta informação esquematizada, com algumas dicas e sugestões.

Diversificação Alimentar- Cláudia Viegas

* Cláudia Viegas – Nutricionista e Docente na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril

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Menina, Mulher & Mãe

Mãe, aquela que…

Mãe, aquela que tem sempre a memória do telemóvel cheia e que ainda assim quer tirar mais 2433 fotos e gravar 1556 vídeos por dia. Desde fotos tremidas a vídeos de 10 minutos em que o filhote faz absolutamente nada, vale tudo! Diariamente estes seres lidam com difíceis desafios – “será que devia apagar estas fotos/estes vídeos antigos para capturar este novo momento tão giro?”. Querem torturar uma mãe? Formatem-lhe o telemóvel!

Mãe, aquela que dança como se estivesse a ser picada por vespas asiáticas quando encontra um quiosque em que o novo livro do Panda não está esgotado, que mesmo quando está sozinha não consegue olhar para um cão sem mentalmente fazer “ão ão”, que passa o dia a imaginar como o seu filhote reagiria se estivesse com ela naquele momento.

Mãe, aquela que chora ao ver o patinho atravessar a estrada, quer seja atropelado, quer chegue até à progenitora que se encontra do outro lado. Simplesmente comove-se e chega às lágrimas por tudo e por nada.

Mãe, aquela que leva mais longe a frase “faço isso com um braço às costas”; sim, embora não o tenha “às costas”, consegue fazer tudo só com um – cozinha, estende a roupa, aspira, faz a cama, vai ao wc. Habitualmente acaba por ficar com um braço – aquele que carrega a criança – mais tonificado do que o outro.

Mãe, aquela que começa a cantar “já passou, já passou, este é mesmo o meu lugar…” até se aperceber que está sozinha (ups!). Isto acontece várias vezes ao dia, sempre da mesma forma, apenas mudam as músicas.

Mãe, aquela que consegue tomar banho em 20 segundos, vestir-se em 10, pentear-se em 5, mas depois demora 1 hora e meia a decidir que roupa vestir à cria e quais os sapatos que combinam melhor.

Mãe, aquela que cria uma conversa só para poder dizer que tem filhos e mostrar umas fotos fofinhas. É mais ou menos assim:

– Bom dia,pode dizer-me as horas, por favor?

– São agora 15h:35m.

– Está quase na hora de a minha filha lanchar. A minha pequenota tem 22 meses, agora só quer lanchar papa (e pumba, a partir daqui o céu é o limite).

Curiosamente, muitas destas mães antes criticavam “aquelas gajas que só sabem falar dos filhos”, agora fazem parte do grupo.

Mãe, aquela que se torna imune a tudo o que de menos agradável vive no seu bebé. Ela limpa cocó, vómito, entre outras coisas “nhecs”, sem pestanejar. Contudo, se for de outro bebé, o cheiro já parece gravíssimo e o aspecto de “chamar  o Gregório”.

Mãe, aquela que abdica da sua mala pessoal e passa a usar uma mala com o desenho do Nemo ou da Minnie partilhada com um ser pequenito que açambarca 80% do espaço. Para encontrar a carteira a mãe enfrenta um experiência do género dos jogos sem fronteiras – contorna as fraldas, salta o pacote de bolachas, empurra a caixa de guardar a chucha e finalmente agarra a carteira (ufa, que canseira!).

Mãe, aquela que não combina nada sem antes fazer os cálculos da hora da refeição e da sesta do bebé (se ele almoçar às 12h, faz a sesta às 13h, acorda por volta das 15h, dou-lhe o lanche e mudo a fralda, devo conseguir estar aí às 16h:30m!).

Mãe, aquela que apesar de todas as dificuldades, incertezas e queixas, não trocava esta experiência por nada. No fundo, sabe que tem o melhor do mundo – ama e é amada!

 

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Terças a Duas

Terças a Duas – Vacinação

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A partir de hoje, quando assim se justificar, a Mafalda da Meia Lua – Mom Life Lover e a Tânia da 3m´s irão juntar-se à terça-feira para tomar um chá e conversar sobre temas da actualidade que se inserem no mundo da parentalidade.

Aqui fica a nossa primeira converseta na rubrica “Terças a Duas” 😉

Devido ao surto de sarampo e às constantes notícias dos últimos dias, o tema “vacinação” saltou para a arena da opinião pública e tem gerado polémica. Por um lado, existe quem acredite que a vacinação deveria ser obrigatória uma vez que afecta a saúde pública; por outro lado, há quem defenda que as vacinas comprometem o sistema imunitário das crianças e contêm substâncias perigosas.

3m’s: Tens visto as notícias sobre o sarampo? Estou tão preocupada com isto. Sabes, acho que o que me preocupa verdadeiramente nem é a situação do sarampo em si mas sim as vozes que entretanto se levantaram contra a vacinação. Pensei que nos dias de hoje quase ninguém achava a não-vacinação razoável, contudo nestes últimos dias os relatos de pais que não vacinam os filhos são mais do que muitos.

Meia Lua – Mom Life Lover (ML): Acredito, Tânia. Tenho sentido o mesmo ao me deparar com as notícias e mesmo na rua, nestes dias nos afazeres que tenho tido, ouvir pessoas de várias faixas etárias a referir isso. Que a vacina é que provoca o aumento das doenças, que as vacinas não passam de um acordo com o Estado e com as empresas farmacêuticas para ganharem dinheiro com este “negócio”. E eu fico assustada… a pensar em “negócio”? Como a saúde pode ser um negócio? Estamos a falar de um plano nacional de vacinação. Falamos das nossas crianças! O que achas disto?

3m’s: Gosto de falar apoiada em factos e acho que a este nível as evidências são claras – desde que as crianças começaram a ser vacinadas que determinadas doenças quase foram erradicadas. Acham mesmo que foi coincidência?! Ontem li a entrevista do pediatra Mário Cordeiro e concordei com todas as suas palavras: “”Dizer mal das vacinas é um luxo de um país que já não tem, como há bem pouco tempo tinha, casos diários de meningite ou mortes por sarampo, como [aconteceu] em 1994. A memória é demasiado curta e a arrogância demasiado grande“. Acho que quando as coisas deixam de ser um problema a humanidade, por se esquecer de como era difícil lidar com elas, começa a criar “teorias da conspiração” e tem necessidade de escavar e trazer os problemas ao de cima. Um dos argumentos que tenho lido contra a vacinação é o de que algumas crianças fazem fortes reacções às vacinas e ficam com outras doenças, o que pensas disto?

ML: Exactamente! Eu também li a mesma entrevista e até me deu arrepios na espinha de tanto concordar com o que ele diz: “Não há liberdade individual que possa justificar a ausência de vacinação das crianças”. Poderemos mesmo falar em liberdade de escolha num tema que não vai afectar só a mim e ao meu filho mas sim a todos? Até onde vai essa liberdade sem implicar ou prejudicar o outro? E até onde poderá ir sem ser devidamente punida? Todos temos crenças e ideais, mas até que ponto as mesmas se podem sobrepor a factos que incorrem em problemas de saúde graves nos nossos filhos? Se podemos decidir sobre o que os nossos filhos podem ou não podem ou devem comer, que tipo de roupa vestir, que escola frequentar, se achamos que decidimos de que forma os queremos educar, que caminho seguir, não devemos querer, primeiro e acima de tudo, que sejam sempre saudáveis, fortes e que estejam protegidos? Estamos fartas de saber que não os conseguimos proteger de tudo e todos nesta vida. Para grande infelicidade nossa que sentimos um aperto no peito e um coração minguado quando há algo em que não podemos fazer absolutamente nada para reverter uma situação menos boa. Temos que nos sentir preparadas, informadas e conscientes da verdade que nos rodeia. Se formos pesquisar, os números de morte infantil associados à não-vacinação são assustadores! Quereremos mesmo isso? O pretexto do “todos tinham” poderá ser válido para não vacinar? Todos tinham e muitos morriam… para quê arriscar?

3m’s: É isso que sinto, tal e qual. Acredito que existem casos em que a vacinação criou reacções alérgicas e daí surgiram outros problemas, no entanto acho que a probabilidade disso acontecer será sempre inferior à probabilidade das crianças morrerem com estas doenças. Para mim isto é o mesmo que me dizerem que alguém tinha um tumor maligno e morreu na operação em que esse tumor seria retirado; será isso argumento para deixarem de fazer essas operações?!

ML: Ninguém nega que poderá acontecer ou que já tenha acontecido. Mas se pesarmos na balança, o peso da doença do não-vacinado e as suas graves consequências são deveras alarmantes! Nós – mãe, pai, cuidadores – devemos observar caso a caso! Sabemos que os nossos filhos estão facilmente expostos a tantos microorganismos. Vamos com eles a parques, centros, escolas. Eles não têm poder de escolha, somos nós que decidimos por eles. Estaremos a ser justos ao não os proteger com o que pode e está ao nosso alcance? Eu escolho estar informada mas também deverei escolher agir de acordo com o que é – de bom senso – o mais correto. Falamos de vacinas que estão no plano nacional de vacinação. Gratuitas. Com resultados comprovados eficazes. Com a prevenção praticamente 100% garantida. Prefiro correr um risco de doença e até de morte? Será isso ser consciente? Se sabemos que os nossos filhos podem ficar protegidos de uma doença que pode ser efectivamente perigosa, porquê arriscar? Em prol de quê e de quem? E se deixarmos de uma vez por todas de parar de olhar para o nosso próprio umbigo e as nossas próprias ideias e conceitos de fábulas? O que está à nossa frente são factos. Demasiado reais. Demasiado assustadores. Até onde a minha liberdade de escolha vai impedir a do próximo? Vamos pensar mais no outro. Nas crianças.

3m’s: Sinceramente, se existisse uma comunidade à parte, em que as crianças não-vacinadas convivessem só entre si, sem contacto com os restantes, aceitaria esta decisão dos pais, ainda que se coloque em causa a escolha da criança que ainda não tem voto na matéria, pois apenas mexeria com as suas escolhas. A partir do momento em que taxa de vacinação tem de ser superior a 95% para que o grupo não seja afectado pelo sarampo estamos a falar de escolhas individuais, sim, mas que afectam fortemente a saúde colectiva. Talvez o problema seja esse que levantas – as vacinas serem gratuitas. Sempre ouvi dizer que o que é gratuito é desvalorizado. O acesso à vacinação tornou-se tão fácil ao ponto de as pessoas a colocarem na prateleira dos assuntos “não tão importantes”. Se cada vacina custasse 3000 euros e só fosse administrada na China, como seria um item “valioso” provavelmente seria encarada de outra forma. Gostava que as pessoas não se apoiassem no “diz que disse” e no “caso do amigo da namorada do meu primo” para tomarem decisões tão importantes. Casos atípicos irão sempre existir, mas não deverão ser esses a guiar a nossa opinião, sobretudo quando as nossas escolhas individuais afectam o grupo.

ML: Acredito seriamente que sim. Quando algo nos é dado sem imposição, temos tendência a duvidar da sua veracidade. Mas quando se trata da saúde nos nossos filhos deveremos estar devidamente informadas e conscientes antes de fazermos uma escolha.

3m’s: Ontem estava a ler a lista de documentos que pedem para fazer a reinscrição na creche da Leti e entre eles vinha a cópia do boletim de vacinas. Nestes últimos dias percebi que, contrariamente ao que pensava, os pais não podem ser forçados a entregar este documento uma vez que a vacinação não é obrigatória. Nesta sequência, nenhuma escola pode impedir a inscrição de uma criança não-vacinada. Até que ponto isto é justo? As pessoas têm direito de não querer vacinar os filhos e eu não tenho direito a querer que a minha filha não conviva com crianças não-vacinadas? E os bebés do berçário que vão estar com estas crianças não-vacinadas e ainda não têm as vacinas? Já pensaste nisto?

ML: A sério? Nem fazia ideia de tal! Como o meu filho não está numa creche, essa informação para mim é-me totalmente desconhecida! Como pode não ser obrigatório? Falamos de questões de saúde importantíssimas. Eu tenho o dever de informar e o direito de estar informada! Serei com certeza a mãe que questionará este tema na altura em que ele ingressar numa creche. Serei com certeza a mãe que fará valer a palavra da razão. Que mais importa que o IRS e quanto nos avaliam de mensalidade, se a questão da saúde e bem-estar da criança não está a ser posta em primeiro lugar? Não sou apologista da exclusão, muito pelo contrário. Mas façamos aquilo que gostaríamos que fizessem connosco. Eu jamais colocaria a saúde de outras crianças em risco em prol de uma decisão MINHA.

 

Quem segue as nossas páginas sabe que adoptamos uma postura flexível em relação à maioria dos temas e acreditamos nas escolhas individuais. Não obstante, quando essas escolhas afectam os outros sentimos que devem ser devidamente ponderadas. Como sempre ouvimos dizer: “com a saúde não se brinca”.

 

 

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Menina, Mulher & Mãe

Tempo, abranda, por favor

Preciso de falar contigo, é importante. Podes sentar-te, prometo ser breve, já percebi que não gostas de esperar, afinal todos os segundos contam. Ainda assim, peço-te que me escutes com atenção e me dês um pouco de ti, Tempo.

Eu sei que outrora te pedi para acelerares, mais do que isso, eu implorei-te. Recordo-me de estar deitada, com a minha filha ao colo, ambas a chorar, ela por algum desconforto ou necessidade, e eu por não conseguir decifrar o que seria – fome? sono? calor? cólicas? (ambas sofríamos de desconfortos e necessidades difíceis de decifrar no início). Sentia-me tão perdida, tão desamparada, tão incapaz de enfrentar este novo desafio, eu, que sempre quis ser mãe e me imaginava neste papel sem dificuldade, agora debatia-me com várias emoções contraditórias. Sim, admito que te pressionei para passares a correr, tão depressa que eu nem desse conta, quase como se eu pudesse fechar os olhos e quando os voltasse a abrir a Letícia já fosse maior, assim já a conheceria melhor, já a compreenderia de outra maneira, a nossa comunicação seria mais fluída.

Hoje, 22 meses depois, quero pedir-te que abrandes, mais do que pedir, quero implorar-te. Está tudo a passar demasiado rápido, chego ao ponto de não querer adormecer por saber que isso significa que se passou mais um dia (ou talvez deva dizer menos um?). Um dia acordei e ela já sabia andar, volto a fechar os olhos e quando os abro ela já quer comer sozinha, já canta e dança, já diz “gosto ti, mamã”. O dia seguinte é sempre recheado de novidades, o que hoje está longe de conseguir fazer, amanhã já faz com destreza. Tudo isto faz com que te queira agarrar, prender-te por um pouco, mas foges-me por entre os dedos, Tempo.

Nunca senti esta felicidade, nunca o meu coração esteve tão preenchido, nunca vivi um amor tão puro, nunca me ri tanto e de forma tão genuína (acho até que o som da minha gargalhada mudou). Descobri que é possível sentirmos o toque de um anjo, aquelas mãos macias curam-nos todas as feridas, apagam qualquer mágoa, fazem-nos esquecer de tudo nos dias piores. Percebi que sou capaz de ser mãe, que consigo criar e educar com amor, que tenho em mim (e em nós enquanto família) o poder de ajudar alguém a construir-se com felicidade. Conquistei um propósito na vida, parei de me questionar sobre quem sou e “o que faço aqui”, não o digo só enquanto mãe, mas também enquanto mulher. Hoje, mesmo nos dias menos bons, sou feliz!

Fecho os olhos e tacteio o seu rosto para que jamais me esqueça da textura da sua pele, procuro gravar o seu cheiro na minha memória para que mais tarde o possa recordar, aperto-a com força para que o seu toque se eternize; em breve tudo isto não passarão de recordações. Fico angustiada ao imaginar-me a viver sem estes abraços apertados, sem estes beijos melosos, sem estes olhos brilhantes a observarem (e absorverem) cada gesto meu (e eu os dela), sem este cheiro doce que me acalma (ai, como é terapêutico snifar-lhe o cabelo!), sem as conversas sem nexo sobre o Nemo e o Panda aos sábados de manhã. Bem sei que esse dia irá chegar, nessa altura ficarei orgulhosa por ver este ser maravilhoso a erguer-se, ganhar asas e voar, mas vamos com calma. Quero ficar onde estou por mais tempo, o maior tempo possível, eu pertenço a este “lugar”.

Por tudo isto e muito mais, peço-te que abrandes, se for possível, que pares totalmente naqueles momentos em que nos rimos desalmadamente, em que fazemos promessas de amor, em que encostamos os rostos e assim permanecemos, em que dançamos na rua sem repararmos em quem nos observa; sim, congela os minutos, as horas, os dias, deixa-nos ficar assim, dentro da nossa bolha a acreditar ingenuamente que estes momentos durarão para sempre.

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Menina, Mulher & Mãe

Tem 12 meses? Já só precisa da mãe para mamar

Como sabem, a partir dos 12 meses as mães que trabalham fora de casa e que não estão a amamentar perdem o direito à redução do horário laboral. Esta é uma daquelas leis que me deixam a arder em fúria e  me levam a fantasiar com um encontro com quem as inventou (“agarrem-me que  eu vou-me a eles!“). Será que estas pessoas imaginam o impacto destas leis impiedosas no bem-estar de uma família, no desenvolvimento de uma criança, na auto-estima de uma mulher?

Recentemente, duas meninas, mulheres e mães de quem gosto muito partilharam comigo o seu desespero em relação a esta situação. Em ambos os casos, os bebés estavam quase a fazer 1 ano e por já não se alimentarem com leite materno as suas mães estariam impedidas de manter a redução de horário. No caso da Sofia, mãe do Pedro (nomes fictícios), teria de voltar a fazer o horário nocturno, saindo por volta da 1h da manhã. Sem família para a apoiar, o companheiro a entrar no trabalho às 16h e a creche a fechar às 18h, viu-se numa situação extremamente angustiante – Quem iria buscar o Pedro? Onde ficaria? Ela iria buscá-lo à 1h da manhã e levá-lo para o frio, sujeito a adoecer e/ou despertar? Estas e outras questões permanecem sem resposta. No caso da Joana, mãe do António (nomes fictícios), passaria a trabalhar ao sábado, restando-lhe apenas o domingo para estar com o filho. Reconheço que o trabalho tem de ser feito e que quando a Sofia e a Joana se empregaram nas respectivas empresas aceitaram estas condições; não obstante, as leis servem exactamente para salvaguardar os maiores valores/interesses da sociedade, o que me leva a questionar o que se sobrepõe ao bem-estar de uma criança/família.

São vários os pontos que me deixam indignada. Em primeiro lugar, a falta de noção do que realmente importa na vida de um bebé – só porque o meu filho não bebe leite dos meus seios mas sim de um biberão deixou de precisar de mim, de estar comigo, de sentir o meu calor e carinho? Se consideram que o acto de alimentar se sobrepõe ao amor e ao carinho, deixem-me que vos fale do Abraham Maslow. Este investigador criou uma teoria – A Hierarquia de Necessidades de  Maslow – que, como o nome indica, postula uma sequência hierárquica de necessidades que teriam de ser satisfeitas para que pudéssemos passar para as seguintes (ver a figura*).

*imagem retirada da internetpirâmide de maslow

Segundo esta teoria, na base estão as necessidades fisiológicas, tais como o sono, a sede, o sexo e a fome. O indivíduo tem de satisfazer estas necessidades básicas para que possa passar para o patamar seguinte. Deste modo, e é esta a parte que nos interesse, a nutrição é vista uma necessidade fundamental e que se sobrepõe às restantes necessidades, o que parcialmente apoia  esta lógica de que a redução de horário só se deve manter para quem amamenta. Contudo, Harry Harlow veio provar que “nem só de pão vive o Homem”. Este criou uma manipulação experimental em que separava os primatas das mães nas primeiras horas de vida e os colocava junto a duas figuras: uma revestida de algodão com uma luz no seu interior que produzia calor (a chamada mãe de pano); a outra era feita de arame mas tinha incorporado um sistema que permitia a alimentação dos primatas bebés. Como devem estar a deduzir, os macacos preferiam a mãe de pano, sendo com esta que criavam laços afectivos (vinculação). Posto isto, este investigador concluiu que a necessidade de alimentação não se sobrepõe à necessidade de receber carinho/calor e que a figura materna é mais do que uma fonte de alimentação. Retornando à premissa que aqui se discute, faz sentido que a redução de horário seja atribuída apenas a quem amamenta sabendo que “valores mais altos se alevantam”, como a necessidade de receber afecto e calor materno?

Outro dos pontos que me perturba é a discriminação. No caso das mães que optaram por não amamentar ou que não conseguiram amamentar durante mais tempo, devem perder o direito de passar mais tempo com os filhos? Como se para muitas mulheres não fosse suficientemente duro ter de lidar com a diminuição da produção e, consequentemente, o fim da amamentação, um sentimento muitas vezes relatado como de insuficiência, algo que fere a auto-estima de algumas mulheres, ainda são penalizadas desta forma, quase como se lhes dissessem: “Não conseguiste ter leite durante mais de 12 meses, agora terás de passar menos tempo com o teu bebé, para a próxima esforça-te mais!” ou ainda “o teu papel resume-se a sacar das mamas e alimentar a cria, se já não o fazes fica a saber que a cria deixou de precisar de estar contigo, pode passar esse tempo com outra pessoa” (como se fosse dar ao mesmo!).

Esta lei cria ainda outros constrangimentos, como o facto de as mulheres terem de fazer prova – por atestado – de que estão a amamentar. Como se prova isto? “Das duas três”, ou o médico acredita na palavra da mãe, correndo o risco de passar um atestado que se baseia em informação falsa, ou exige que esta esprema as mamas para verificar se efectivamente sai leite. É uma situação desconfortável para ambos e que facilmente poderia ser contornada com a prorrogação da redução do horário laboral independentemente de os bebés serem amamentados; a Ordem dos Médicos sugere que se estenda esta lei até aos 3 anos de idade.

Ainda que se possa argumentar que a redução do horário laboral compromete a produtividade do país, e correndo o risco de estar a adoptar uma visão utópica, acredito que iríamos assistir ao efeito oposto – a motivação para trabalhar poderia ser superior (deixa-me tratar disto tudo para poder ir buscar o meu filho mais cedo); o bem-estar individual/satisfação com a vida aumentaria, o que, como se encontra cientificamente comprovado, teria impacto ao nível da saúde (diminuição das faltas por motivo de doença e baixas por esgotamento psicológico); e, quem sabe, as próprias problemáticas da infância, que nos últimos anos têm vindo a disparar, poderiam sofrer um efeito inverso, uma vez que o contacto com os pais, a criação de uma vinculação segura, a partilha com aqueles que são significativos, são poderosas formas de prevenção e, simultaneamente, “a melhor das curas”. Enquanto não provarem o contrário, continuarei a acreditar nisto.

Aos 12 meses a maioria dos bebés ou ainda não anda ou está a dar os primeiros passos, enfrenta grandes mudanças no desenvolvimento e na forma como perspectiva o mundo, introduz novos alimentos na sua dieta, aprende a confiar em quem os rodeia a partir da presença de uma figura de vinculação sólida que os acompanha, que os levanta quando caem, que os embala quando precisam. Sim, estes bebés (reparem que estamos a falar de bebés!) precisam da presença da figura de vinculação, e a figura de vinculação precisa de partilhar estas novas experiências com o bebé. Será a partir desta relação forte que se irá construir um adulto capaz de confiar nos outros, de resolver problemas, de lidar com a frustração, de gerir as suas emoções, de ser empático. Estes sim são valores fundamentais numa sociedade, que promovem o seu crescimento, e que a longo prazo compensarão largamente cada hora que aquela/e mãe/pai saiu do emprego mais cedo.

 

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Menina, Mulher & Mãe

Uma mãe livre é uma mãe mais feliz

Durante os primeiros meses de vida da Letícia, sobretudo nas primeiras semanas, vivi acorrentada. A minha boca estava amordaçada por palavras que havia dito outrora, aprendizagens que fui fazendo, coisas que fui ouvindo, que por sua vez deram lugar a crenças enraizadas que defendi toda a vida. As minhas mãos estavam algemadas, presas a comparações com pessoas que considerava uma referência no mundo da maternidade, às fotos cheias de sorrisos, arco-íris e purpurinas que via as outras mães postarem ainda na maternidade. Os meus pés estavam amarrados e assentes em expectativas irreais que criei sobre o que é a maternidade, o que devemos esperar de um bebé e o que devemos esperar de nós enquanto mães. Tudo isto tornou o meu nascimento enquanto mãe num parto difícil, uma tarefa árdua e penosa.

Sentia-me a ser puxada em diferentes direcções – as minhas crenças, baseadas em teorias que fui ouvindo ao longo do tempo, puxavam-me para um lado, o meu instinto enquanto mãe, algo completamente novo para mim, puxava-me para o outro. Ali andava eu a ser sacudida. Sentia-me frustrada por ter vontade de contrariar aquilo em que sempre acreditei; também sentia medo de seguir o meu instinto e eventualmente prejudicar a minha filha.

Curiosamente, procurei preparar-me ao máximo para a chegada da minha filha –  fui a workshops, a encontros de grávidas, a conferências, fiz pesquisas na internet, li livros – mas nenhuma destas fontes me transmitiu o que era verdadeiramente fundamental  para conseguir enfrentar os primeiros tempos – partir livre, de coração aberto, sem nada esperar de mim e do meu bebé, sem nada defender afincadamente (não partas com certezas), apenas pronta para abraçar a experiência e ir agindo (e reagindo) consoante o que parecer melhor na altura, sabendo que o que hoje é um fracasso, amanhã poderá ser um sucesso e vice-versa (dá o teu melhor, nada mais). Não digas que tens a certeza que não queres/queres amamentar, não digas que tens a certeza que o bebé irá/não irá dormir no berço, não digas que jamais o irás embalar – diz antes que logo se vê.

Ao partirmos para a experiência da maternidade presas a convicções não-fundamentadas – como podemos defender veemente algo que nunca vivemos nem colocámos em prática? – e a expectativas fantasiosas, quase como se fossemos programadas, estamos susceptíveis a enfrentar um choque entre a realidade e o que esperávamos que essa realidade fosse. De repente, uma fase de vida que imaginámos ser maravilhosa torna-se um verdadeiro pesadelo, recheado de frustrações – “porque é que ele não mama sem adormecer?”, “não o posso deixar dormir ao colo!”, “se o deixar mamar sempre que quer vai ficar mal habituado!”, ” ele ainda é demasiado pequeno para sair de casa!”. Perdemos imenso tempo a relembrarmo-nos do que sempre nos disseram, do que é suposto ser o funcionamento normal de um bebé, tentamos que ele se adapte àquilo em que sempre acreditámos (imaginem alguém a tentar encaixar uma forma quadrada num buraco triangular, é isto). Não, o nosso bebé não veio de uma fábrica, não existe um manual universal dos bebés, ele não tem de se adaptar forçosamente a nós e ao meio, cabe-nos sim percorrer o caminho da adaptação de mãos dadas, guiando-o sem nunca esquecer as suas necessidades e especificidades.

Não consigo identificar o dia em que quebrei as correntes. Sei que demorou algum tempo. Quando o fiz, tudo se tornou tão mais simples. Dei por mim a sorrir de novo, a sentir-me capaz de ser mãe, a sentir que a minha filha era e ia continuar a ser feliz. Peguei nos pressupostos, no “by the book“, nas crenças, nos bitaites, nas expectativas tolas, embrulhei-os e atirei-os janela fora (ai, como soube bem!). Lavei-me de todos os restos que poderiam ter ficado “agarrados” e decidi partir do 0, ver a minha filha como um ser único e especial, cujo funcionamento se distingue de todos os outros, apesar dos pontos comuns. Percebi que não existem dicas infalíveis, nem mães perfeitas, nem bebés protótipo. Parei de ouvir os outros e passei a ouvir-nos – a mim, ao pai e a ela. Hoje vivemos livres, claro que lidamos com opiniões diferentes, ouvimos um bitaite aqui, outro acolá, mas a liberdade é isto, dizerem-nos o que fazer e podermos escolher não fazê-lo – haverá liberdade maior do que esta?

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