Menina, Mulher & Mãe

Mulheres à Obra – mulheres empreendedoras como tu

Carla Lopes e Camila Rodrigues conheceram-se através de um grupo de facebook. Tudo começou com base numa conversa banal em que uma mãe partilhava a sua vontade de trabalhar a partir de casa, a que se seguiu um debate sobre a pertinência de existir um local onde mulheres empreendedoras pudessem partilhar experiências, ideias e recolher informação pertinente sobre a construção de negócios. Carla e Camila puseram mãos à obra – o nome do grupo não foi escolhido por acaso – e decidiram criar o grupo de facebook Mulheres à Obra, visando responder às diversas necessidades de quem procura criar um negócio ou melhorar o que possui.

Devido ao enorme sucesso do grupo e ao interesse demonstrado por outras entidades em criar parcerias, dentro de alguns meses será lançado um Portal. Aqui poderão encontrar formações on-line, cursos na sua maioria gratuitos, links que remetem para sites com informação sobre a criação de empresas, legislação em vigor, artigos regulares sobre diversas questões ligadas ao empreendedorismo, parcerias, listas de entidades de confiança (com as quais já colaboraram) pertencentes a diversas áreas e eventos de networking.

Apesar de existir concorrência – várias pessoas da mesma área – não se verifica uma competição desmesurada entre as “membras” (nome carinhoso dado pelas administradoras) do grupo, sendo que estas cooperam entre si independentemente de trabalharem na mesma área (algumas até criaram pequenos documentos/vídeos onde explicam a base da sua área de negócio). Em termos práticos, estabelecem-se regularmente parcerias, compram-se serviços a preços especiais (várias mulheres criaram um valor tabela diferente para “membras”), esclarecem-se dúvidas ligadas à legislação, divulgam-se eventos de empreendedorismos, partilham-se ideias e dúvidas sobre possíveis negócios (algumas para mães que pretendem trabalhar a partir de casa) e aproveitam-se propostas de trabalho que vão surgindo.

Se tens alguma ideia na gaveta, um sonho antigo, montes de dúvidas e incertezas, junta-te ao grupo – https://www.facebook.com/groups/394280080927656/ – e partilha; aqui ninguém fica sem resposta. Irás encontrar mais de 2000 meninas, mulheres e mães empreendedoras, de diversas áreas, cheias de vontade de (entre)ajudar.

 

mulheres a obra

 

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Menina, Mulher & Mãe

Obrigada, avós queridos

Obrigada por me amarem ainda antes de nascer, por me permitirem saber que os meus pais não são os únicos a amar-me, por pensarem em mim com tanto carinho.

Obrigada por sonharem comigo e me desejarem, ainda que por vezes se sentissem inseguroem relação ao futuro.

Obrigada por apoiarem os papás, por lhes darem colo nas fases menos coloridas, por lhes darem hipótese de repousarem e voltarem mais disponíveis para mim.

Obrigada por cuidarem dos meus pais enquanto eu não existia. Criaram o que de melhor há em mim, construíram a base da minha vida, transmitiram-lhes grande parte do que hoje são e do que amanhã serei.

Obrigada por me deseducarem, pelos doces às escondidas, os snacks fora de horas, os incentivos às malandrices.

Obrigada por todas as brincadeiras, todos os saltos, todos os passeios, por todas as gargalhadas partilhadas.

Obrigada por verem o melhor de mim, por cada lágrima nos olhos quando aprendi algo novo, por cada vez que me levantaram do chão, sacudiram a poeira dos joelhos e me permitiram tentar de novo.

Obrigada por cada abraço, cada mimo, cada beijinho repenicado, cada afagar a cabeça, cada troca de olhares.

Obrigada pela paciência em cada birra, cada suspiro mais profundo, cada aviso carinhoso.

Obrigada por me verem como uma das melhores coisas que vos aconteceu.

Acima de tudo, obrigada por me darem o vosso coração. Vocês vivem no meu e em mim.

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Menina, Mulher & Mãe

A culpa é da mãe

Se escreverem a palavra maternidade num qualquer motor de busca irão reparar que a palavra culpa surge associada (estou a brincar, não faço ideia se isso acontece, apenas sei que tal se sucede na realidade). Assim que damos à luz aprendemos duas lições: 1) para o mundo a mãe é a principal responsável pelo bebé, o pai é apenas aquele assistente que “dá uma mãozinha”; 2) comportamentos “menos desejáveis” por parte do bebé são resultado da nossa pessoa (por nossa entenda-se exclusivamente da mãe). Deste modo, rapidamente percebemos que o pai é um pobre coitado que nada pode fazer, um actor secundário numa peça protagonizada pela mãe; o bebé é um adereço, não lhe são atribuídas motivações nem características próprias, um ser que recebe passivamente a informação e a reproduz.

Quando te tornas mãe além de um bebé ganhas uns quantos dedos apontados. Curiosamente, esses mesmos dedos desaparecem nos momentos de conquista e vitória, pois aí a “culpa” não te é atribuída – bem-vinda ao mundo dos dois pesos e duas medidas!

… Se o parto corre bem, o bebé um valente, tiveste uma hora abençoada, a equipa médica era boa.

… Se o parto corre menos bem, não soubeste fazer força nos momentos certos, não tens elasticidade suficiente, não te soubeste impor.

… Se o bebé mama bem, é um comilão, um guloso, tu és uma sortuda.

… Se o bebé mama menos bem, o teu leite é fraco/não alimenta, os teus mamilos não têm um bom formato, produzes pouco leite.

… Se o bebé dorme a noite toda, é um dorminhoco, um anjinho, uma bênção.

… Se o bebé acorda durante a noite, o teu leite é fraco, não sabes treinar o sono dele (tens de o deixar chorar e dar-lhe menos colo).

… Se o bebé tem um bom desenvolvimento, é espertalhão, atento, malandreco.

… Se o bebé tem um desenvolvimento menos próximo da média, a mãe não teve os devidos cuidados durante a gravidez, não o soube estimular, protegeu-o em demasia.

… Se o bebé gosta de estar no chão, é dono do seu nariz, independente, um crescido.

… Se o bebé prefere estar no colo, está mal-habituado, é dependente da mãe.

… Se o bebé faz menos birras, é fácil de lidar, bem comportado, um pachola.

… Se o bebé faz mais birras, a mãe não soube impor limites, dar-lhe uma palmada na hora certa.

… Se a criança come bem, é bom garfo, tem boa boca, tem um apetite invejável.

… Se a criança come pouco, a mãe não tem mão para a cozinha, não faz comidas saborosas, põe pouco sal.

Podia escrever uma lista digna de preencher um papiro, exemplos não faltariam. A culpa, atribuída por nós ou pelos outros, sobretudo no início em que nos sentimos mais inseguras, surge com frequência e sussurra-nos frases inquietantes ao ouvido. Nesse momento, agarra-a pelos cabelos, olha-a nos olhos e trata-a pelo nome – responsabilidade. Tu, tal como o pai, são responsáveis por aquele bebé (sim, este filme tem dois actores principais). A vossa principal responsabilidade consiste em darem o vosso melhor, o que é totalmente diferente de acertarem em tudo à primeira. Sim, tenho responsabilidade, tal como o pai (repito propositadamente) , em vários comportamentos da minha filha; já existiram birras que podia ter evitado, fases em que o sono era menos bom por comportamentos que eu mantinha, dias em que comeu menos bem por eu não ter compreendido o que ela queria. No meio de tudo isto existe a interferência das características da minha filha, ela tem um temperamento próprio, tem preferências, já vai fazendo escolhas (sim, ela tem vontade própria). Por último, existem os factores externos, que não são responsabilidade de ninguém, mas influenciam o modo como as situações se desenrolam (como por exemplo a minha filha não ter feito a sesta por nesse dia existir um bailarico junto à nossa casa).

Por último, e mais importante, reparem que a responsabilidade também é vossa quando o vosso filho salta, corre, brinca, ri, sorri, é feliz. Esta responsabilidade não vos é apontada com a mesma frequência, o número de pessoas que vos diz “fazes esta criança tão feliz” é menor. Não obstante, acreditem que em cada salto, em cada correria pela casa, em cada brincadeira, em cada sorriso e em cada riso essa responsabilidade está presente; um dia os vossos filhos irão traduzi-la em gestos e palavras de amor.

3m´s – Menina, Mulher & Mãe

leti pipiu

 

 

 

 

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Parentalidade Positiva

5 lições que desintencionalmente ensinamos aos nossos filhos

Antes de iniciarem a leitura deste artigo preciso que amordacem essa voz que por vezes surge e traz consigo palavras de culpabilização em relação a momentos em que sentiram estar “menos bem” enquanto pais. O único objectivo das minhas palavras é promover a reflexão – vossa e minha – sobre pequenas lições que inconscientemente ensinamos aos nossos filhos. Pretendo que mudem drasticamente de comportamento? Não, longe disso. Recebam estas palavras de coração aberto, moldem as que vos fizerem sentido e usem-nas como uma luz de alerta que vos vai consciencializando do que estão a fazer – a primeira missão será identificarem os momentos em que o comportamento ocorre, só depois, se assim quiserem, o poderão alterar.

Enquanto mãe, por experiência própria e/ou observação de outros pais, fui-me apercebendo de algumas lições que involuntariamente passamos aos nosso filhos. Acredito que a maioria resulta de comportamentos que produzimos por modelagem, isto é, que repetimos aquilo que vimos fazer, o que nos leva a não perceber verdadeiramente a mensagem transmitida. Deixo-vos uma lista das 5 lições mais frequentes.

Lição nº 1 – Deves reagir violentamente quando te sentes frustrado

Há tempos, num parque, uma criança com cerca de 2 anos corria alegremente quando ao passar por baixo do escorrega bateu com a cabeça. A mãe correu até ela e massajou-lhe a cabeça carinhosamente. Alguns segundos após o incidente a mãe deu a mão ao filho e disse-lhe: “Vamos bater ao escorrega, filho! O escorrega foi mau!”; a criança parou de chorar e, com a ajuda da mãe, deu algumas palmadas ao escorrega.

Em situações como a acima descrita, a forma como ensinamos a criança a libertar a frustração e a lidar com a dor é com violência, vingando-se do outro interveniente; além disso, estamos a transmitir a ideia de que a culpa é sempre do exterior e que a criança é quase uma vítima que nada poderia ter feito para alterar a situação. Em ocasiões futuras, quando a criança sentir que o outro a magoou (e desta vez poderão ser pessoas) tenderá a reproduzir este género de comportamentos, pois não aprendeu a aceitar as emoções ditas “menos positivas”, nem lhe foram dadas ferramentas para lidar com elas.

Alternativa: Recordem-se que não existiam soluções ideais, nem “one size fits all” (um tamanho serve a todos). Ainda assim, existem algumas regras de ouro como: a) aceitar a dor da criança (magoaste a cabeça, filho, está mesmo a doer, pois é?), dar-lhe o apoio que precisa (colo, abraços, beijinhos, dar-lhe espaço se assim preferir), e perceber o que pode ser feito para que tal não se repita (filho, corre mais lá ao fundo, aqui podes bater com a cabeça e magoar-te de novo).

Lição nº 2 – Não deves expressar as tuas emoções

Não chores, não sejas maricas”, “Estás triste por causa disso? Que parvoíce!”, “Põe-te lá em pé, isso não doeu nada!, “Não quero ouvir as tuas queixas, fica calado!“. Estas e outras frases fazem parte da nossa vida – ou porque as ouvimos na infância, ou porque as dissemos aos nossos filhos, ou porque foram ditas a outras crianças.

Quando negamos algo a uma criança, esta sente-se frustrada e por isso irá expressá-lo; sim, o choro de uma criança pode incomodar, tal como incomoda alguém ouvir-nos a refilar quando algo nos perturba – o que torna a nossa expressão emocional legítima e a da criança não?

A criança irá revelar as suas emoções, mesmo as ditas negativas são saudáveis – não as perdemos ao longo da evolução da espécie por algum motivo. Impedir a sua expressão irá tornar difícil a sua identificação, o que resultará em adultos incapazes de perceberem o que sentem e de o expressarem adequadamente.

Alternativa: Validem (aceitem) as emoções dos vossos filhos, ainda que vos pareçam despropositadas/exageradas. Permitam que estes chorem quando precisarem, que refilem um pouco para libertar a frustração, que se queixem quando se magoam. Dizer a alguém para não chorar não lhe retira a dor (física ou emocional) que sente, já receber carinho e compreensão poderá fazê-lo.

Lição nº 3 – Tu não és capaz

Quando, na melhor das intenções, fazemos determinada tarefa pelos nossos filhos – mal os deixamos tentar pois dizemos imediatamente que “a mãe faz” – estamos a transmitir-lhes a ideia de que não são capazes. Quando confrontados com tarefas novas sentir-se-ão incapazes de as cumprir e por isso irão pedir ajuda sem sequer tentar; no caso de não existir ninguém disponível, tenderão a sentir-se perdidos. A longo prazo as várias confirmações de incapacidade terão impacto no seu auto-conceito e na auto-estima.

Alternativa: Ainda que dê mais trabalho, que nos faça despender o triplo do tempo, que sujem imenso durante o processo, é necessário promover a autonomia das nossas crianças. Inicialmente com maior apoio, explicando-lhes calmamente o que fazer, agarrando-lhes nas mãos enquanto as guiamos, passando pelas tentativas em que apenas as guiamos verbalmente, até chegarmos à autonomia completa.

Lição nº 4 – Só existem dois lados (o bom e o mau, o bonito e o feio, o certo e o errado)

O pensamento dicotómico caracteriza-se por uma rigidez cognitiva em que apenas existe o “preto” e o “branco”, não existindo “meio termo”. Ao permanecer num dos extremos o indivíduo julga os acontecimentos, os outros e o mundo de forma rígida. Tal resulta em dificuldades de adaptação, de se compreender e aceitar a si e ao mundo.

Alternativa: Transmitir a ideia de que o comportamento muda e por isso a mesma pessoa poderá agir de determinada maneira numa situação e de forma diferente noutra, que todos sentimos que poderíamos ter estado melhor em certas ocasiões; no fundo, que existe o “cinzento”.

Lição nº 5 – Não confies em ninguém, nem naqueles que te são significativos

Sei bem como é tentador dizer à criança quando não quer ir para casa que vamos comer um gelado quando na verdade a vamos enfiar no carro ou que vamos passear a um sítio bonito quando estamos a ir às vacinas. A intenção é boa, só queremos evitar choros, birras e sofrimento por antecipação. Não obstante, quando a criança se apercebe que a enganámos perde alguma confiança em nós; a repetição destes comportamentos terá impacto na vinculação (relação pais-filho) e na forma como perspectiva os outros e o mundo (pouco fiáveis).

Alternativa: Desde cedo habituei-me a dizer a verdade à minha filha (com os floreados necessários); dá mais trabalho, oiço mais choros, lido com mais birras, mas acredito que crescerá a sentir-se segura sabendo que pode confiar na minha palavra.

Como referi, estas 5 lições apenas irão servir para incentivar a reflexão. Tenho a certeza que o número de valiosas lições que ensinaram e ensinam diariamente aos vossos filhotes é incontável.

 

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Menina, Mulher & Mãe

Mãe antes dos 25 – as novas mães adolescentes

A minha mãe teve a sua primeira filha – eu – aos 26 anos, na altura era uma idade dita “ideal” para o efeito, a minha mãe era apenas mais uma grávida entre tantas outras com a mesma idade. Embora não acredite em idades “ideais” para ter filhos, o facto de as mulheres engravidarem cada vez mais tarde levou a que a média de idades das recém-mamãs  aumentasse, o que se traduziu numa mudança relativamente ao que consideramos uma idade adequada para conhecer o mundo da maternidade.

Engravidei (intencionalmente) aos 24 anos, fui mãe aos 25 (apesar de me considerar mãe desde o dia em que soube que estava grávida). Quando engravidei estava em Angola, recordo-me de alguns meses antes me perguntarem várias vezes se havia algum problema connosco enquanto casal (problemas de infertilidade), se precisávamos de ajuda (aquelas dicas milagrosas como piscar os olhos 3 vezes, morder um limão e apontar o dedo do pé para nordeste durante o acto), e até de nos verem como “aquele casal que não vai ter filhos”; para os padrões angolanos estávamos fora do prazo. Quando chego a Portugal deparo-me com uma realidade oposta, rapidamente me senti inserida numa espécie de grupo de “mães adolescentes”, grupo esse que anteriormente abrangia as faixas etárias abaixo dos 18 anos e agora passava a estender-se aos 25 anos (ou mais). Posso contar pelos dedos das mãos o número de mães com idades próximas da minha que conheci desde a gravidez até agora, habitualmente era a única mãe com menos de 30 anos na sala de espera do hospital, nos workshops, entre tantos outros. Por vezes travavam-se conversas a partir das quais percebia que, contrariamente ao que imaginava, também era o  primeiro filho daquelas mulheres; havia algum espanto quando revelava que a minha gravidez tinha sido planeada, surgindo frequentemente comentários como “mas ainda é tão nova” e “é corajosa por ter um filho tão cedo“.

Habituei-me ao título de “mãe jovem” que me acompanhou durante toda a gravidez. Tive oportunidade de conhecer as suas vantagens e desvantagens – nas consultas e nas ecografias este aspecto era sempre valorizado por funcionar como factor protector (“podia acontecer isto e aquilo, mas como é jovem o risco é mínimo“); no pós-parto uma das enfermeiras exigia que a minha recuperação fosse mais rápida por, segundo a própria, ser “a mãe mais jovem de todo o piso“. Dois anos depois, sou a encarregada de educação mais jovem da sala da minha filha, sendo que tenho alguns anos de diferença dos restantes pais; ao início sentia-me desconfortável com esta situação, parecia a miúda que ia deixar a outra miúda à creche, evitava expressar grandes opiniões por sentir que não seriam tidas em conta, contudo ao longo do tempo passei a sentir-me segura neste papel (ai maternidade, toda tu és aprendizagem!). Noto, também, que por ser uma mãe mais jovem por vezes existe uma maior tendência por parte das pessoas para darem opiniões, como se a idade traduzisse o grau de competência parental.

Uma vantagem inigualável de ter filhos “mais tarde” é o aumento da probabilidade de os avós já se encontrarem reformados e por isso estarem disponíveis para apoiar os netos – permanecerem com eles em casa até os pais sentirem que será vantajoso entrarem para a creche, no caso das crianças que frequentam a creche podem entrar mais tarde e sair mais cedo, podem cuidar dos netos quando estão doentes, evitando que os pais faltem ao trabalho, além de servirem de figura de referência por estarem verdadeiramente integrados na vida dos netos. Outra vantagem prende-se com o facto de existirem ao redor amigas com filhos, com quem partilhar dúvidas, desabafar, receber roupinhas e outros bens em segunda mão que nos fazem poupar una quantos euros – eu não tive essa sorte, fui e continuo a ser a única mãe no meu grupo de amigas mais próximas.

Em nada me arrependo da idade em que fui mãe, agrada-me a ideia de não sentir qualquer pressa de ter mais filhos por “os anos estarem a passar”, de ver o tempo como um mar de possibilidades e me poder deixar levar. Terá sido a idade ideal? Devia ter esperado mais tempo, aproveitado mais a liberdade de viver com menos responsabilidade? Sim, viveria com menos responsabilidades, mas seria mais tempo vivido sem conhecer este amor arrebatador.

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Parentalidade Positiva

As crianças não são feias, más, nem tão-pouco parvas

Esta é má e fria, não gosta de ninguém” – foi assim que uma mãe descreveu a filha a uma amiga que acabara de encontrar. A menina, com pouco mais de 1 ano, estava sentada no carrinho e ignorava a amiga da mãe, desejando apenas continuar a brincar com um coelho de peluche que trazia na mão. A amiga da mãe tentava desvalorizar, referindo que as crianças são assim, mas a mãe continuava: “esta miúda é parva, nunca cumprimenta ninguém! Olha, Joana (nome fictício), és feia, não gosto de ti!“. Confesso-vos que fiquei incomodada ao ponto de sair disparada da loja e as palavras me terem ecoado na cabeça durante a tarde toda.

Em primeiro lugar, ninguém é, as pessoas estão a ser! Existe uma grande diferença entre “é” e “está a ser” – o “é” envolve rigidez, passa a mensagem de que será sempre assim e por isso não há possibilidade de mudança, criando um rótulo definitivo de “és isto” (esta expressão promove a rigidez cognitiva em que as pessoas analisam as situações em termos de tudo-ou-nada, não existe meio-termo); o “está a ser” transmite a ideia de que o comportamento depende das circunstâncias e que por isso pode alterar-se – numa situação em determinado contexto és assim, noutra já poderás não ser – o que facilita a flexibilidade cognitiva (de pensamento), característica fundamental no bem-estar psicológico. Mais, o “é” cria uma determinada expectativa de comportamento tanto na criança como nos outros – a criança sabe que esperam que seja, por exemplo, agressiva e por isso tenderá a reproduzir esse género de comportamentos; os outros esperam ver agressividade na criança e por isso a sua atenção estará direccionada para isso (a chamada atenção selectiva em que o nosso cérebro, para poupar recursos, procura informação que se encaixe naquilo que procuramos, tal como quando entramos numa loja em busca de um vestido vermelho, se nos perguntarem se existiam muitos vestidos azuis não iremos conseguir responder, a nossa atenção foi canalizada apenas para a primeira cor).

Enquanto cuidadores existem comportamentos que consideramos mais e menos aceitáveis de acordo com as nossas crenças e aquilo que a sociedade defende. Reparem que comportamentos está a negrito pois é isso que está em causa, não a criança em si. Quando digo “já não gosto de ti” a uma criança que faz algo que considero menos adequado não estou a focar o seu comportamento, coloco-a integralmente em causa, o que abrange até as suas qualidades – parece-vos justo? E se os nossos companheiros dissessem que já não gostam de nós porque não lavámos a loiça do jantar? E se a nossa mãe deixasse de nos amar devido à discussão que tivemos a semana passada? Repito: o que está em causa é o comportamento e podemos expressar o nosso desagrado relativamente a isso – “a mãe não gosta que te ponhas em cima da cadeira” – não em relação à criança em si.

Existem palavras cuja única função é magoar, nada se constrói com base nelas. “Feia, má, parva, burra” são apenas alguns exemplos de palavras que destroem a auto-estima de qualquer um, sobretudo quando proferidas por pessoas significativas cuja opinião é relevante. Além disso, são altamente subjectivas, difíceis de decifrar, e por isso em nada promovem a aprendizagem – o que torna uma criança feia? que comportamentos levam a esse título? será que a mensagem que queremos transmitir é que tem de se tornar bonita? Sejamos objectivos no que queremos para que a criança se possa regular – “não quero que estejas em cima da cadeira pois podes magoar-te, fico preocupada contigo”. Depois disto é fundamental apresentar uma alternativa para onde a criança possa canalizar a sua energia – “vamos descer da cadeira, podemos ir brincar a saltar do chão para o tapete”.

Os elogios podem e devem ser aplicados sempre que se justifique. Noto que muitas vezes os pais passam grande parte do tempo a apontar os defeitos dos filhos em público, eu própria já me senti tentada a fazê-lo apenas por estar habituada a que seja esse o registo. Novamente, remetendo para nós próprios, gostaríamos que o nosso companheiro encontrasse um amigo na rua e começasse a apontar os nosso defeitos? Por que o fazemos com aqueles que mais amamos? Que estes momentos sirvam para desabafar, e aqui podem expressar-se algumas preocupações, mas sejam sobretudo um momento de reconhecimento público do valor que os nossos filhos têm, daquilo que mais gostamos neles; como referi, estamos a criar expectativas e isso irá moldar o comportamento da criança, além de promover o seu auto-conceito (como se caracteriza) e a sua auto-estima (como valoriza as suas características).

Por último, as crianças (felizmente) não são mini-adultos! Não esperem que uma criança prefira estar a interagir com uma desconhecida (no caso da amiga da mãe) do que com um brinquedo, não esperem que as crianças expressem afecto por encomenda (podem pedir, eu peço sempre que ela cumprimente as pessoas, mas sei que é natural que tal não aconteça), não ambicionem uma criança robótica que faz tudo que desejamos (se o faz hoje também o fará no futuro e aí já não terá tanta piada). Percebam e respeitem a essência das vossas crianças, tal como elas aceitam diariamente a nossa.

3m’s – Menina, Mulher e Mãe

porco espinho

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A minha filha bateu-me e eu não lhe bati de volta

Tudo começou quando lhe disse que teríamos de ir para casa (estávamos em casa da tia, um dos seus locais preferidos). Começou por fugir, dizer “não quéo”, até que se tentou esconder. Expliquei-lhe que estava na hora de ir buscar o papá ao trabalho, que amanhã voltaríamos a casa da tia para brincar, naturalmente nada a demovia.

No meio de várias lamentações e queixumes, peguei na minha filha ao colo e quando a aproximo de mim oiço um som algo forte e sinto a cara mais quentinha – sim, tinha acabado de levar um estalo de uma criança com 2 anos. Apesar de nunca lhe ter batido, o meu primeiro instinto pedia que lhe desse uma palmada na mão, nada de muito forte, apenas para que ela percebesse que aquele acto é inaceitável. Contudo, a minha formação rapidamente se sobrepôs ao instinto e colocou-me uma questão pertinente – vais bater-lhe para ensinar que não se bate?. Sei que algumas de vós dirão que é diferente, pois eu sou a mãe, logo posso bater. Novamente, respondo com uma questão – será mesmo essa a mensagem que queremos transmitir?.

Enquanto mãe tenho o dever de educar, aqui existe uma panóplia de alternativas, a maioria viáveis desde que usadas de forma ponderada, consciente e consistente, tendo sempre em conta as características daquela criança. Admito que a punição física é um meio rápido de obter resultados e, como todas as estratégias, pode ser utilizada, no entanto representa uma espécie de atalho educacional quando usada de forma precoce, isto é, produz resultados mais rápidos mas as importantes aprendizagens que seriam realizadas pelo caminho mais longo ficam perdidas, a criança deixa de reproduzir o comportamento apenas por medo, não por lhe dar um sentido. Em termos de manutenção da aprendizagem a longo prazo  – garantir que aquele comportamento não se repete – a punição é traiçoeira, podendo levar a que a criança sinta que quando não existe ninguém por perto para punir aquele comportamento pode ser aplicado (a motivação para não o fazer é externa); já uma criança que dá um sentido a determinado acto e o incorpora nos seus valores, acreditando verdadeiramente nas premissas que lhe estão subjacentes, tenderá a evitar o comportamento independentemente da presença dos outros (a motivação é interna).

As consequências que se seguem a um comportamento – conhecidas por contingências comportamentais – devem ser aplicadas utilizando uma hierarquia. No topo dessa hierarquia estão as contingências “positivas”, que envolvem o reforço positivo e negativo, como o elogio, o carinho, o libertar a criança de algo que considera desagradável. No fundo da hierarquia encontramos as contingências “negativas”, compostas pela punição, como gritar, bater,castigar ou retirar à criança algo que considera agradável. Este ponto, por si só, merece um artigo para que seja devidamente explicado (prometo escrever-vos sobre isto em breve), a ideia que importa reter de momento é a de que a hierarquia deve ser percorrida, sem pressas nem atalhos, esgotando-se todas as alternativas de cada patamar antes de descermos para o seguinte. Posto isto, aceito que dar uma palmada (entenda-se que não estou a falar em agressões pesadas) sem magoar verdadeiramente a criança poderá aplicar-se e não será por isso que daí surgirá um grave trauma; contudo, como referido, tal só deverá ser feito quando todo um rol de estratégias se revelaram ineficazes (não basta experimentar uma vez). Assim, acredito, e é isso que tenho feito, que podemos perfeitamente evitar recorrer à palmada.

Regressando ao nosso caso, modifiquei o meu tom de voz, sem gritar, para que ela percebesse que não aceito o comportamento de bater nos outros; disse-lhe que nos iríamos embora e que estava muito triste com ela. Durante a viagem de carro, em que normalmente vamos a cantar e na risota, expliquei-lhe que me tinha magoado na cara, que estava triste com esta atitude dela e que não se bate a ninguém, daí a a mamã também não lhe bater; acrescentei que podemos falar, dizer que não queremos ir embora, até chorar, mas bater não. Posso-vos dizer que durante o resto da viagem só o silêncio foi audível – ela foi a viagem toda com um ar abatido. Quando o pai entrou no carro ela disse de imediato: “bati na mamã!”; o pai, que vinha todo animado, não a ouviu entre os cumprimentos e abraços, pelo que ela repetiu: “bati na mamã!”. O pai conversou com ela e a certa altura ela pediu-me desculpa. Mais tarde no banho encenou espontaneamente a cena com recurso aos patinhos de borracha que também são mãe e filho – o patinho filho bateu na mãe, a mãe ficou com “dói-dói” e triste, o patinho filho também ficou triste e pediu desculpa.

Não vou tapar o sol com a peneira, entretanto ela já voltou a tentar bater-nos (com apenas 2 anos esta é a forma mais natural de expressar frustração). Como vos disse, este caminho será mais longo, implica que ela se consciencialize do efeito que o comportamento dela tem nos outros. A par disso é necessário promover o auto-controlo, o que fazemos com brincadeiras que envolvem andar rápido, andar devagar, falar alto, falar baixo, pequenas actividades que lhe vão mostrando que pode assumir o controlo das suas acções (ainda é cedo para que haja controlo, trata-se sobretudo de uma sensibilização).

Não digo que jamais darei uma palmada, como referi poderei lá chegar, por enquanto vou percorrendo o topo da hierarquia e para apenas 2 aninhos acho que está a correr bem.

beicinho

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