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O que importa – o resultado ou o processo de aprendizagem?

Existem dois conceitos – processo e resultado – que andam sempre de mão dada, como dois namorados naquela fase de paixão assolapada. Unem-se de tal forma que a certa altura parece tudo a mesma coisa. Contudo, processo e resultado não são sinónimos, pelo contrário, muitas vezes o seu conteúdo é completamente díspar.

Enquanto estudantes, talvez se recordem de trabalhos individuais ou de grupo que vos deram imenso prazer a fazer, em que sentiram que  aprenderam alguma coisa (processo), embora a nota final ficasse aquém das expectativas (resultado). O oposto também pode ter acontecido – detestarem o que estavam a fazer, limitarem-se a concretizar o que vos foi solicitado sem que existisse uma aprendizagem efectiva, o professor adorar o resultado final e dar-vos uma excelente classificação. Poderíamos transpor estes exemplos para inúmeras situações em que o processo (aquilo que aprenderam/como aprenderam) não se traduz directamente no resultado final. No que toca à educação das nossas crianças, passa-se o mesmo.

Por vezes leio alguns comentários de pais que partilham os grandes resultados obtidos com os filhos: “Largou as fraldas em 2 dias”; “Aprendeu a dormir sozinha com 3 semanas de vida”; “Acabei com as birras num ápice”. Quando me debruço sobre o processo, compreendo que a criança aprendeu muito mais do que largar as fraldas, dormir sozinha ou deixar de fazer birras. Quando uma criança larga as fraldas após a exposição pública das suas dificuldades, do seu corpo ou da ausência de prestação de cuidados prolongada para que se sentisse desconfortável, esta simultaneamente aprendeu que aquele adulto não a respeita, não a protege e que a humilha. Quando uma criança aprende a dormir sozinha após passar longas horas a chorar sem que ninguém a acudisse, percebeu que está sozinha, que o mundo que a rodeia é hostil, que não se pode apoiar nos outros nos momentos em que precisa de consolo. Quando uma criança deixa de fazer birras por ser punida fisicamente sempre que tal acontece, esta aprendeu que não deve expressar as suas emoções em frente àquela figura, que aquela pessoa não é capaz de a compreender, que só as emoções positivas são saudáveis, e que a punição física é uma forma eficaz de lidar com a frustração. Em qualquer um destes casos, o resultado é o socialmente desejável, aquele com que a maioria dos pais sonham, e quanto ao processo? O que a criança aprende paralelamente, ainda que não seja imediatamente visível, não pesa?

Alguns de vós deverão estar a pensar: “Sim, esta conversa é muito bonita, mas para que existam resultados não nos podemos focar no processo“. Na verdade, focar o processo pode ser tudo o que precisamos (nós e as crianças). Aliás, na maior parte das nossas conquistas o prazer surge ao longo da caminhada, não na meta. As grandes dificuldades serão aprendermos a viver satisfeitos com o que nem todos conseguem ver – o que realmente é essencial – e a esperar que os resultados surjam a um ritmo muito próprio, sem pressas.

Grande parte dos primeiros meses de vida da minha filha foram passados ao colo, a ser embalada. “Ui, deve ser terrível para adormecer e acordar imenso à noite à vossa procura“. Nem lá perto. Com o tempo (e estamos a falar em muitos meses) percebeu que estaríamos lá sempre que precisasse e que adormecer é um momento seguro, pelo que hoje, com 2 anos, pede para ir para “a cama da princesa” e adormece sem canções e sem colo. A introdução dos sólidos foi terrível – cuspia, chorava, rejeitava. “Ui, deve ser terrível para comer e exigir tudo triturado“. Nem por isso. Ao longo do tempo percebeu que a respeitávamos, mas que não iríamos desistir; hoje come quase sempre tudo sozinha. Os processos foram longos e desgastantes para nós enquanto pais – teria sido mais fácil deixá-la a chorar durante horas e poupar-nos ao cansaço de colo constante; teria sido mais fácil dar-lhe uma palmada, enfiar-lhe a colher cheia de comida na boca, ao invés de fazer refeições que duravam quase 2 horas. Atalhar o processo em buscar de resultados rápidos é sempre uma opção, mas acarreta grandes custos em termos do que as nossas crianças têm de gerir internamente e que levarão consigo ao longo da vida.

Com isto não quero dizer que os comportamentos que servem de atalho utilizados esporadicamente irão arruinar o processo, a excepção não faz a regra; apenas vos quero transmitir a ideia geral de que o processo e a forma como os nossos comportamentos o alteram também merecem ser alvo de reflexão – nem todos os fins justificam os meios.

Vivermos com estas noções de que o mundo que nos rodeia é acolhedor, aqueles que nos são significativos respeitam-nos, protegem-nos, compreendem-nos, aceitam-nos, estão disponíveis, são de confiança, estão abertos a todas as nossas emoções, são uma fonte fiável na gestão das emoções (demonstram auto-controlo e aprendemos a partir daí), é essencial, muito mais do que não fazer birras, comer tudo sem resmungar ou fazer xixi na sanita. Estes valores/crenças sobre o mundo e sobre os outros servirão de base para que grandes conquistas (resultados) ocorram.

Perguntemos: “como gostava de aprender isto?”; ao invés de “o que é que esta criança tem de aprender?”.

3m’s – Menina, mulher & mãe

aprender

 

 

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Estádios de desenvolvimento – uma das bases para compreendermos as nossas crianças

O desenvolvimento dos nossos bebés/crianças é composto por diversos estádios, uma espécie de fases de vida pelas quais vão passando. Para compreendermos verdadeiramente as necessidades do bebé/criança, ajustarmos as nossas expectativas relativamente ao que deverão ser capazes de fazer e, consequentemente, reagirmos de forma adequada é fundamental conhecermos o estádio de desenvolvimento em que se encontram – as suas características, os desafios que o compõem e as conquistas que surgirão.

Existem diversas teorias que caracterizam cada um dos estádios de desenvolvimento, sendo a minha favorita a de Jean Piaget. Não obstante, por se tratar de uma teoria extensa e que implica a compreensão de diversos conceitos chave, irei focar-me na componente social e apresentar-vos a Teoria do Desenvolvimento Psicossocial de Erikson.

Segundo Erikson, cada estádio de desenvolvimento caracteriza-se pela presença de um conflito. No fundo, existem dois pólos – um mais positivo e outro mais negativo – em conflito, cabendo ao bebé/criança, e mais tarde ao adulto, enfrentar essa bipolaridade e resolvê-la. Um desenvolvimento equilibrado pressupõe uma resolução eficaz do conflito, procurando-se que a vertente positiva predomine. Tal criará as bases para uma boa adaptação e promoverá a capacidade para lidar com os desafios seguintes.

A Teoria do Desenvolvimento Psicossocial define 8 estádios, designados pelo autor por “idades da vida”. Para que este artigo não se torne demasiado extenso (e aborrecido) irei abordar apenas as primeiras quatro de forma sucinta. No final de cada uma escreverei uma breve reflexão.

1ª Idade – Confiança vs Desconfiança (do nascimento aos 18 meses)

O recém-nascido, enquanto ser completamente dependente, verá no meio a única forma de as suas necessidades serem respondidas. Nesta primeira idade (estádio), ao receber amor por parte de pessoas significativas (as mais próximas) e encorajamento na protagonização de actividades de descoberta o bebé aprenderá a confiar nos outros e em si mesmo. As sensações de ser pouco amado e de não lhe ser concedida atenção terão o efeito inverso, isto é, promoverão a desconfiança relativamente aos outros e às suas próprias capacidades, o que resultará em dificuldades em lidar com novos obstáculos e com situações sociais (ao não confiar nos outros tenderá a retrair-se).

Reflexão: Reparem que neste estádio existem duas palavras de ordem – amor e atenção – que resultam numa aquisição essencial – a confiança. É com base nestes constructos que a criança irá explorar as suas capacidades e realizar novas conquistas.  Coloco-vos(me) algumas questões: Quando deixo um bebé a chorar para que aprenda a dormir sozinho estou a provar-lhe que é amado, que tem a minha atenção e, por conseguinte, que pode confiar em mim? E quando o deixo a chorar sozinho para que não se habitue ao colo? E quando não lhe dou de mamar para que crie horários? Penso que as respostas a estas questões são bastante óbvias. No fundo, estamos preocupados em estimular novas competências, mais autonomia, quando na verdade os nossos bebés precisam apenas de amor e atenção, sendo o verdadeiro desafio desta fase e que realmente influenciará o seu futuro – aprenderem a confiar em nós – ignorado.

2ª Idade – Autonomia vs Dúvida e Vergonha (dos 18 meses aos 3 anos)

Na segunda crise psicossocial a criança procura resolver o conflito entre conseguir fazer as coisas por si e ter de depender quase sempre dos outros. Para conquistar a autonomia, o que implica controlar algumas funções orgânicas, a coordenação motora e a manipulação de objectos, a criança terá de aprender a lidar com a dúvida e a vergonha. Manifestações de comportamento como “birras”, a vontade de realizar tarefas sem receber ajuda (mesmo que com baixo nível de competência) e os “porquês” constantes são reflexo dessa busca.

As reacções dos pais às tentativas de autonomia por parte da criança irão assumir um papel fundamental na forma como esta resolve o conflito – humilhações, críticas  constantes, repreensões e punições contribuirão para o desenvolvimento de um sentimento de vergonha. A dúvida na sua capacidade para concretizar tarefas, por sua vez, emergirá através dos repetidos fracassos. Deste modo, caberá aos pais dosear a prestação de ajuda e o encorajamento na exploração do meio de forma autónoma.

Reflexão: Falamos imenso em “birras”, em crianças teimosas, como se estes comportamentos fossem anormais. Estas manifestações, ainda que nos possam deixar exaustos e desesperados, são extremamente saudáveis e sinal de um desenvolvimento adequado. Mais do que procurar formas de reprimir estes comportamentos, precisamos (pais e educadores) de encontrar estratégias de ajustar o nosso comportamento nessas situações, pois esse sim poderá condicionar a aprendizagem que procede aquele “birra”. Aceitem esta fase (mesmo que isso implique respirar e contar até 1000) como um reflexo do excelente trabalho que têm feito para que aquela criança cresça.

3ª Idade – Iniciativa vs Culpa (dos 3 aos 6 anos)

Nesta idade da vida a grande questão é: “Serei bom ou mau?”. O foco da criança deixa de ser a autonomia e as suas capacidades e passa a ser a moralidade e a aceitabilidade dos seus comportamentos. A par da linguagem, do pensamento, das habilidades motoras e do pensamento dá-se o desenvolvimento da imaginação e da curiosidade, sobretudo em relação ao corpo e às diferenças entre sexos.

Novamente, a forma como o meio envolvente, sobretudo os pais, reagem à curiosidade da criança irão determinar o seu grau de autoconfiança e de iniciativa. Reacções negativas irão transmitir a mensagem de que a sua curiosidade não é bem-vinda, o que pode provocar inibição excessiva, sentimentos de culpa e ansiedade, assim como pouca iniciativa na exploração do meio.

A resolução positiva do conflito deste estádio promoverá o gosto pela descoberta, a audácia e a capacidade de iniciativa.

Reflexão: Dizermos a uma criança que é má tem um impacto que podemos à partida não prever, pois toca no ponto com que esta mais se preocupa nesta fase. Como tenho vindo a dizer, o comportamento pode ser menos desejável, o que é totalmente diferente da criança ser má. Comportamento e criança (personalidade) não são a mesma coisa e nesta fase é extremamente importante fazer (e incutir) essa distinção.

4ª Idade – Indústria vs Inferioridade (dos 6 aos 12 anos)

Por “indústria” Erikson refere-se à competência, ao engenho, à produtividade no cumprimento de determinadas tarefas. Deste modo, o conflito que a criança enfrenta centra-se no facto de ser competente ou incompetente (muitas vezes por comparação com os pares).

Com a entrada no ensino escolar, novas competências são exigidas à criança, surgem novos desafios e o campo de interacção social alarga-se; esta passa a ser valorizada pelo que faz (competência) e não tanto pelo que é. Assim, o fracasso no desenvolvimento de competências, assim como a falta de incentivo e de apoio, assumem um forte impacto na sua auto-estima, podendo gerar sentimentos de inferioridade/descrença quanto às suas capacidades. Neste caso, o fracasso passa a ser percebido como inevitável e por isso o esforço e o empenho tendem a diminuir.

Na quarta idade existe uma vontade enorme de concretizar novas tarefas com sucesso, de aprender, de desenvolver sentimentos de competência. Quando tal acontece, isto é, quando há sucesso, há um aumento da autoconfiança, do prazer na realização das actividades e na auto-estima.

Reflexão: Contrariamente ao que por vezes os agentes educativos e as directrizes escolares pressupõem, as crianças neste estádio encontram-se motivadas para aprender. O problema, que é tão frequentemente ignorado, reside no tipo de tarefas que apresentamos às nossas crianças, no seu grau de exigência e no facto de ignorarem completamente os seus interesses e áreas de maior aptidão. Antes de ganharem competências as crianças precisam de acreditar que são competentes e isso conquista-se respeitando AQUELA criança em específico, sem pressas. Quando tal não se sucede, estamos a condicioná-las à partida, ditando que o seu percurso seja pautado por fracassos, frustrações e sentimentos de incompetência; e isto, meus caros, vai acompanhá-las ao longo da vida, não só naquele ano, não só naquela disciplina e não só naquela matéria.

Importa também frisar, e a escola deve apoiar os pais nesta tarefa, que o que a criança faz/consegue não dita quem é, isto é, que o seu grau de competência em determinada matéria se circunscreve a isso; deste modo evitaremos que tal se estenda às restantes áreas da sua auto-estima. Somos muito mais do que bons/menos bons nisto ou naquilo!

 

leti zoo

3m’s – Menina, Mulher & Mãe (por Tânia Correia)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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5 lições que desintencionalmente ensinamos aos nossos filhos

Antes de iniciarem a leitura deste artigo preciso que amordacem essa voz que por vezes surge e traz consigo palavras de culpabilização em relação a momentos em que sentiram estar “menos bem” enquanto pais. O único objectivo das minhas palavras é promover a reflexão – vossa e minha – sobre pequenas lições que inconscientemente ensinamos aos nossos filhos. Pretendo que mudem drasticamente de comportamento? Não, longe disso. Recebam estas palavras de coração aberto, moldem as que vos fizerem sentido e usem-nas como uma luz de alerta que vos vai consciencializando do que estão a fazer – a primeira missão será identificarem os momentos em que o comportamento ocorre, só depois, se assim quiserem, o poderão alterar.

Enquanto mãe, por experiência própria e/ou observação de outros pais, fui-me apercebendo de algumas lições que involuntariamente passamos aos nosso filhos. Acredito que a maioria resulta de comportamentos que produzimos por modelagem, isto é, que repetimos aquilo que vimos fazer, o que nos leva a não perceber verdadeiramente a mensagem transmitida. Deixo-vos uma lista das 5 lições mais frequentes.

Lição nº 1 – Deves reagir violentamente quando te sentes frustrado

Há tempos, num parque, uma criança com cerca de 2 anos corria alegremente quando ao passar por baixo do escorrega bateu com a cabeça. A mãe correu até ela e massajou-lhe a cabeça carinhosamente. Alguns segundos após o incidente a mãe deu a mão ao filho e disse-lhe: “Vamos bater ao escorrega, filho! O escorrega foi mau!”; a criança parou de chorar e, com a ajuda da mãe, deu algumas palmadas ao escorrega.

Em situações como a acima descrita, a forma como ensinamos a criança a libertar a frustração e a lidar com a dor é com violência, vingando-se do outro interveniente; além disso, estamos a transmitir a ideia de que a culpa é sempre do exterior e que a criança é quase uma vítima que nada poderia ter feito para alterar a situação. Em ocasiões futuras, quando a criança sentir que o outro a magoou (e desta vez poderão ser pessoas) tenderá a reproduzir este género de comportamentos, pois não aprendeu a aceitar as emoções ditas “menos positivas”, nem lhe foram dadas ferramentas para lidar com elas.

Alternativa: Recordem-se que não existiam soluções ideais, nem “one size fits all” (um tamanho serve a todos). Ainda assim, existem algumas regras de ouro como: a) aceitar a dor da criança (magoaste a cabeça, filho, está mesmo a doer, pois é?), dar-lhe o apoio que precisa (colo, abraços, beijinhos, dar-lhe espaço se assim preferir), e perceber o que pode ser feito para que tal não se repita (filho, corre mais lá ao fundo, aqui podes bater com a cabeça e magoar-te de novo).

Lição nº 2 – Não deves expressar as tuas emoções

Não chores, não sejas maricas”, “Estás triste por causa disso? Que parvoíce!”, “Põe-te lá em pé, isso não doeu nada!, “Não quero ouvir as tuas queixas, fica calado!“. Estas e outras frases fazem parte da nossa vida – ou porque as ouvimos na infância, ou porque as dissemos aos nossos filhos, ou porque foram ditas a outras crianças.

Quando negamos algo a uma criança, esta sente-se frustrada e por isso irá expressá-lo; sim, o choro de uma criança pode incomodar, tal como incomoda alguém ouvir-nos a refilar quando algo nos perturba – o que torna a nossa expressão emocional legítima e a da criança não?

A criança irá revelar as suas emoções, mesmo as ditas negativas são saudáveis – não as perdemos ao longo da evolução da espécie por algum motivo. Impedir a sua expressão irá tornar difícil a sua identificação, o que resultará em adultos incapazes de perceberem o que sentem e de o expressarem adequadamente.

Alternativa: Validem (aceitem) as emoções dos vossos filhos, ainda que vos pareçam despropositadas/exageradas. Permitam que estes chorem quando precisarem, que refilem um pouco para libertar a frustração, que se queixem quando se magoam. Dizer a alguém para não chorar não lhe retira a dor (física ou emocional) que sente, já receber carinho e compreensão poderá fazê-lo.

Lição nº 3 – Tu não és capaz

Quando, na melhor das intenções, fazemos determinada tarefa pelos nossos filhos – mal os deixamos tentar pois dizemos imediatamente que “a mãe faz” – estamos a transmitir-lhes a ideia de que não são capazes. Quando confrontados com tarefas novas sentir-se-ão incapazes de as cumprir e por isso irão pedir ajuda sem sequer tentar; no caso de não existir ninguém disponível, tenderão a sentir-se perdidos. A longo prazo as várias confirmações de incapacidade terão impacto no seu auto-conceito e na auto-estima.

Alternativa: Ainda que dê mais trabalho, que nos faça despender o triplo do tempo, que sujem imenso durante o processo, é necessário promover a autonomia das nossas crianças. Inicialmente com maior apoio, explicando-lhes calmamente o que fazer, agarrando-lhes nas mãos enquanto as guiamos, passando pelas tentativas em que apenas as guiamos verbalmente, até chegarmos à autonomia completa.

Lição nº 4 – Só existem dois lados (o bom e o mau, o bonito e o feio, o certo e o errado)

O pensamento dicotómico caracteriza-se por uma rigidez cognitiva em que apenas existe o “preto” e o “branco”, não existindo “meio termo”. Ao permanecer num dos extremos o indivíduo julga os acontecimentos, os outros e o mundo de forma rígida. Tal resulta em dificuldades de adaptação, de se compreender e aceitar a si e ao mundo.

Alternativa: Transmitir a ideia de que o comportamento muda e por isso a mesma pessoa poderá agir de determinada maneira numa situação e de forma diferente noutra, que todos sentimos que poderíamos ter estado melhor em certas ocasiões; no fundo, que existe o “cinzento”.

Lição nº 5 – Não confies em ninguém, nem naqueles que te são significativos

Sei bem como é tentador dizer à criança quando não quer ir para casa que vamos comer um gelado quando na verdade a vamos enfiar no carro ou que vamos passear a um sítio bonito quando estamos a ir às vacinas. A intenção é boa, só queremos evitar choros, birras e sofrimento por antecipação. Não obstante, quando a criança se apercebe que a enganámos perde alguma confiança em nós; a repetição destes comportamentos terá impacto na vinculação (relação pais-filho) e na forma como perspectiva os outros e o mundo (pouco fiáveis).

Alternativa: Desde cedo habituei-me a dizer a verdade à minha filha (com os floreados necessários); dá mais trabalho, oiço mais choros, lido com mais birras, mas acredito que crescerá a sentir-se segura sabendo que pode confiar na minha palavra.

Como referi, estas 5 lições apenas irão servir para incentivar a reflexão. Tenho a certeza que o número de valiosas lições que ensinaram e ensinam diariamente aos vossos filhotes é incontável.

 

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As crianças não são feias, más, nem tão-pouco parvas

Esta é má e fria, não gosta de ninguém” – foi assim que uma mãe descreveu a filha a uma amiga que acabara de encontrar. A menina, com pouco mais de 1 ano, estava sentada no carrinho e ignorava a amiga da mãe, desejando apenas continuar a brincar com um coelho de peluche que trazia na mão. A amiga da mãe tentava desvalorizar, referindo que as crianças são assim, mas a mãe continuava: “esta miúda é parva, nunca cumprimenta ninguém! Olha, Joana (nome fictício), és feia, não gosto de ti!“. Confesso-vos que fiquei incomodada ao ponto de sair disparada da loja e as palavras me terem ecoado na cabeça durante a tarde toda.

Em primeiro lugar, ninguém é, as pessoas estão a ser! Existe uma grande diferença entre “é” e “está a ser” – o “é” envolve rigidez, passa a mensagem de que será sempre assim e por isso não há possibilidade de mudança, criando um rótulo definitivo de “és isto” (esta expressão promove a rigidez cognitiva em que as pessoas analisam as situações em termos de tudo-ou-nada, não existe meio-termo); o “está a ser” transmite a ideia de que o comportamento depende das circunstâncias e que por isso pode alterar-se – numa situação em determinado contexto és assim, noutra já poderás não ser – o que facilita a flexibilidade cognitiva (de pensamento), característica fundamental no bem-estar psicológico. Mais, o “é” cria uma determinada expectativa de comportamento tanto na criança como nos outros – a criança sabe que esperam que seja, por exemplo, agressiva e por isso tenderá a reproduzir esse género de comportamentos; os outros esperam ver agressividade na criança e por isso a sua atenção estará direccionada para isso (a chamada atenção selectiva em que o nosso cérebro, para poupar recursos, procura informação que se encaixe naquilo que procuramos, tal como quando entramos numa loja em busca de um vestido vermelho, se nos perguntarem se existiam muitos vestidos azuis não iremos conseguir responder, a nossa atenção foi canalizada apenas para a primeira cor).

Enquanto cuidadores existem comportamentos que consideramos mais e menos aceitáveis de acordo com as nossas crenças e aquilo que a sociedade defende. Reparem que comportamentos está a negrito pois é isso que está em causa, não a criança em si. Quando digo “já não gosto de ti” a uma criança que faz algo que considero menos adequado não estou a focar o seu comportamento, coloco-a integralmente em causa, o que abrange até as suas qualidades – parece-vos justo? E se os nossos companheiros dissessem que já não gostam de nós porque não lavámos a loiça do jantar? E se a nossa mãe deixasse de nos amar devido à discussão que tivemos a semana passada? Repito: o que está em causa é o comportamento e podemos expressar o nosso desagrado relativamente a isso – “a mãe não gosta que te ponhas em cima da cadeira” – não em relação à criança em si.

Existem palavras cuja única função é magoar, nada se constrói com base nelas. “Feia, má, parva, burra” são apenas alguns exemplos de palavras que destroem a auto-estima de qualquer um, sobretudo quando proferidas por pessoas significativas cuja opinião é relevante. Além disso, são altamente subjectivas, difíceis de decifrar, e por isso em nada promovem a aprendizagem – o que torna uma criança feia? que comportamentos levam a esse título? será que a mensagem que queremos transmitir é que tem de se tornar bonita? Sejamos objectivos no que queremos para que a criança se possa regular – “não quero que estejas em cima da cadeira pois podes magoar-te, fico preocupada contigo”. Depois disto é fundamental apresentar uma alternativa para onde a criança possa canalizar a sua energia – “vamos descer da cadeira, podemos ir brincar a saltar do chão para o tapete”.

Os elogios podem e devem ser aplicados sempre que se justifique. Noto que muitas vezes os pais passam grande parte do tempo a apontar os defeitos dos filhos em público, eu própria já me senti tentada a fazê-lo apenas por estar habituada a que seja esse o registo. Novamente, remetendo para nós próprios, gostaríamos que o nosso companheiro encontrasse um amigo na rua e começasse a apontar os nosso defeitos? Por que o fazemos com aqueles que mais amamos? Que estes momentos sirvam para desabafar, e aqui podem expressar-se algumas preocupações, mas sejam sobretudo um momento de reconhecimento público do valor que os nossos filhos têm, daquilo que mais gostamos neles; como referi, estamos a criar expectativas e isso irá moldar o comportamento da criança, além de promover o seu auto-conceito (como se caracteriza) e a sua auto-estima (como valoriza as suas características).

Por último, as crianças (felizmente) não são mini-adultos! Não esperem que uma criança prefira estar a interagir com uma desconhecida (no caso da amiga da mãe) do que com um brinquedo, não esperem que as crianças expressem afecto por encomenda (podem pedir, eu peço sempre que ela cumprimente as pessoas, mas sei que é natural que tal não aconteça), não ambicionem uma criança robótica que faz tudo que desejamos (se o faz hoje também o fará no futuro e aí já não terá tanta piada). Percebam e respeitem a essência das vossas crianças, tal como elas aceitam diariamente a nossa.

3m’s – Menina, Mulher e Mãe

porco espinho

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Porque é que o meu filho não me obedece? parte 1

Se por acaso tem em casa uma criança “pequena” que tenta fazer as coisas sozinha e refila quando a procura ajudar, que por vezes chora quando lhe diz não e que põe em causa as suas decisões, está de parabéns, tem uma criança saudável!Naturalmente, estes comportamentos não são adaptativos (saudáveis) durante toda a vida, mas nos primeiros anos de vida fazem parte do adequado desenvolvimento da criança. Não se trata de desobediência (não consigo gostar desta palavra), mas sim de desenvolver autonomia.

A resposta à questão que se coloca no título, aquela que nos surge na cabeça cheia de luzinhas brilhantes cada vez que os nossos filhotes se comportam de forma diferente daquela que desejaríamos,  vive na própria pergunta. Baralhadas? Nada melhor do que um exercício prático para esclarecer.


Imaginem-se a entrar numa pequena sala com uma caixa na mão. Nessa sala existem uma cadeira, uma estante e uma secretária. O vosso objectivo é simples – fazer a entrega da caixa. Ao entrarem na sala tentam pousar a caixa na secretária e ao longe alguém vos diz “aí nem pensar!”. De seguida, procuram encaixá-la na estante e a mesma pessoa nega-vos essa hipótese. Procuram colocá-la na cadeira, depois no chão e ainda entregá-la ao outro interveniente,  a resposta que ouvem é sempre a mesma: “não pode ser!” .
O que sentem neste momento? Zanga e frustração foram as respostas das mães
com quem fiz este exercício (podem parecer-vos exageradas, mas estando realmente em pé com a caixa na mão às voltas pela sala, sem alternativas, é mais frustrante).
Provavelmente, se isto efectivamente acontecesse, iriam perguntar ao outro interveniente, o chato irritante que só sabe dizer “não, não e não”, onde é que queria a caixa – “se não pode ser em nenhum dos sítios que propus, diga-me onde é que quer que ponha a caixa!”.
Antes de lerem o resto do texto, pensem bem no que é que vos está a irritar nesta situação, que aspecto  podia ser alterado para que a vossa vida fosse facilitada.

… vá pensem, não vale espreitar a resposta sem terem uma alternativa (ui que pareço a Teresa Guilherme a dar pistas)…


Se responderam que o que faltava era atirar com a caixa à cabeça do outro interveniente, estiveram perto… perto de se inscreverem num grupo terapêutico de auto-controlo. Como disse desde o início, a resposta está à vista – o problema reside no uso da palavra “não” sem ser seguida de uma alternativa clara sobre onde afinal deveriam colocar a caixa.

A dada altura já todas fomos  o tal chato irritante – “João, sai daí”; “Maria, não te quero a mexer nisso”; “Matilde, assim não”; “Martim, não faças isso” (reparem no meu cuidado a usar os nomes mais “in” de 2016). Todas estas frases nos saem da boca sem que tenhamos de pensar muito, quase que fluem. Contudo, são pouco claras, não oferecem sugestões de como e para onde a criança deve redireccionar o comportamento. Tal como nós na situação da caixa, as crianças ficam sem saber o que podem fazer (dica: vão tentando treinar comunicar pela positiva, ao invés de pela negativa).

Vamos pegar numa  situação real que acontece com frequência cá em casa. A Leti adora os armários, mexer no que está lá dentro, bater com as portas, idealmente partir alguma coisa no processo. Sei que podia passar o dia a dizer “aí não, sai daí, vais-te magoar“, o que ela traduziria como bla bla bla whiskas saquetas. Ao invés, ponho-me ao nível dela, invento uma actividade que chame à atenção e mostro-lhe como é divertida (aqui há que convencê-los de que é mesmo gira, vale tudo, desde fazer caras de quem fez uma plástica que correu menos bem, até soltar ginchinhos de entusiasmo). Por vezes a primeira alternativa de actividade não é bem aceite – não desanimem, experimentem outra e outra, as que forem necessárias, até encontrarem algo que resulte. Poderá ser útil criar uma actividade que produza um efeito semelhante à original; no caso da Leti, como o que lhe apetecia era bater com as portas do armário e ver os produtos a desabar (não é o barulho que me incomoda, é a forte probabilidade de se magoar), coloquei as almofadas em frente ao sofá, por trás escondi alguns bonecos e mostrei-lhe como atirar com as almofadas e fazer os bonecos cair (adorou!).

Se leram outros posts meus, penso que já perceberam que não acredito em soluções milagrosas, nem em “one size fits all” (um tamanho serve a todos). Acredito, sim, que cada criança tem necessidades e motivações muito próprias, o que se traduz em estratégias diferentes para cada uma, estratégias essas que precisam de ser reajustadas regularmente (o que hoje resulta lindamente, amanhã já não resulta tão bem). Recordem-se que as crianças estão em constante desenvolvimento e que existem outras variáveis que podem explicar as fases em que ficam mais agitadas – sono, fome, dentes a nascer, calor, saltos de desenvolvimento, entre outros.

Nem sempre seremos bem-sucedidas, contudo garanto-vos que apresentar alternativas/sugestões de comportamentos é “meio caminho andado” para que a criança redireccione a sua atenção e se foque noutras actividades. Além disso, estamos a dar  sinais claros sobre o que esperamos dela – dizer que quero que se porte bem é do mais vago que existe, explicar que prefiro que monte uma torre de cubos do que se meta em cima da cadeira é mais esclarecedor. Importa referir que as expectativas sobre o comportamento dos nossos filhos, isto é, dizer-lhes abertamente o que espero deles, têm um papel fundamental.

O que aqui vos apresento são apenas alguns dos muitos factores facilitadores do ajustamento comportamental. No próximo post iremos mais a fundo, falando dos estádios de desenvolvimento psicossocial. Fiquem por aí!

alternativas

 

 

 

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Sê aquilo que queres ver o teu filho ser

Sai da frente, oh camelo!”(insultar), “Estes velhos só sabem fazer filas“(ofender), “Não sabes fazer nada de jeito!”(menosprezar), “É-me indiferente se gostas de mim ou não!“(camuflar emoções), “Ah, não tenho paciência!“(intolerância). Estas e outras frases são ditas todos os dias, revelando, ainda que discretamente, a nossa visão sobre o mundo. Podemos tentar desculpar-nos, pensando que “na maior parte das vezes que digo coisas destas não estou com os meus filhos” ou que “a minha filha é pequena, ainda não percebe“. Contudo, há aqui um aspecto que importa relembrar – a minha filha pode não me ouvir a dizer determinada coisa, mas observa todos os meus comportamentos e tudo o que lhe transmito advém de crenças/valores que, ainda que os camufle, estão cá.

Actualmente vivemos numa sociedade muito mais sensível às necessidades das crianças, aos factores que as estimulam a crescer e desenvolverem-se como cidadãos felizes. Existem inúmeros grupos de pais que discutem estas temáticas e procuram soluções para os novos (alguns nem tanto) desafios da parentalidade. Ainda que estejamos preocupados em reduzir o consumo de doces na infância, em criar programas escolares mais apelativos, em incentivar o desenvolvimento pessoal a par do desenvolvimento intelectual, e em acabar com as questões de género (os meninos gostam de carros, as meninas de barbies), esquecemos-nos do essencial – muito do que os nossos filhos são depende daquilo que somos. De que adianta encher a minha filha de programas de desenvolvimento pessoal se cada vez que estou frustrada culpabilizo os outros, insulto e falo mal do mundo? De que vale incentivar programas que transmitem valores como a compaixão se quando passamos por alguém que precisa de ajuda eu finjo que não reparo ou me mostro indiferente? De que serve as escolas abordarem as questões do respeito pelas pessoas idosas se cada vez que as vejo começo a verbalizar uma série de preconceitos?. No fundo, como posso exigir determinado comportamento ou valor se eu não o pratico/sigo?

Estas e outras questões inquietam-me, fazem-me sentir que olhamos muito para fora, tentamos mudar e moldar as nossas crianças,responsabilizamos a sociedade pelos comportamentos que estas adoptam, ignorando que nós também temos de nos transformar, que a maior mudança tem de partir de dentro – de nós enquanto pessoas que agora são pais. Precisamos de ser sinceros!

Não sou, de todo, superior a isto. Diariamente dou por mim a dizer e a ter comportamentos que são o oposto daquilo que quero transmitir à minha filha.Anoto-os mentalmente, revejo-os e tento pensar em alternativas para adoptar numa situação semelhante (o trânsito é um óptimo campo de treino!). Assim que possível, experimento o novo comportamento, dou espaço para perceber como me senti a aplicá-lo e, se necessário, tento melhorá-lo. Ainda que a Leti seja bebé, a mudança de comportamento requer o seu tempo, por isso há que começar logo.

Ser mãe/pai é isto – sair da zona de conforto, ajudar um ser humano a construir-se enquanto me reconstruo, ter a responsabilidade de envolver todos no processo de aprendizagem, inclusive nós próprios, ter oportunidade de formar pessoas melhores (seja lá o que isso for) e, pelo meio, melhorarmos também, é puder ser a mudança que gostaríamos de ver nos outros. Os nossos filhos permitem-nos reaprender alguns valores básicos, voltar a apreciar pequenos detalhes que, com o tempo e a pressa, ficaram para trás. É através deste processo de (re)descoberta conjunta, desta coerência entre a pessoa que quero ver o meu filho ser no mundo e a pessoa que sou, que as crianças evoluem, criam e aplicam novos comportamentos que lhes fazem sentido – afinal, viram a pessoa que mais admiram no mundo a fazê-lo!

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