Parentalidade Positiva

5 lições que desintencionalmente ensinamos aos nossos filhos

Antes de iniciarem a leitura deste artigo preciso que amordacem essa voz que por vezes surge e traz consigo palavras de culpabilização em relação a momentos em que sentiram estar “menos bem” enquanto pais. O único objectivo das minhas palavras é promover a reflexão – vossa e minha – sobre pequenas lições que inconscientemente ensinamos aos nossos filhos. Pretendo que mudem drasticamente de comportamento? Não, longe disso. Recebam estas palavras de coração aberto, moldem as que vos fizerem sentido e usem-nas como uma luz de alerta que vos vai consciencializando do que estão a fazer – a primeira missão será identificarem os momentos em que o comportamento ocorre, só depois, se assim quiserem, o poderão alterar.

Enquanto mãe, por experiência própria e/ou observação de outros pais, fui-me apercebendo de algumas lições que involuntariamente passamos aos nosso filhos. Acredito que a maioria resulta de comportamentos que produzimos por modelagem, isto é, que repetimos aquilo que vimos fazer, o que nos leva a não perceber verdadeiramente a mensagem transmitida. Deixo-vos uma lista das 5 lições mais frequentes.

Lição nº 1 – Deves reagir violentamente quando te sentes frustrado

Há tempos, num parque, uma criança com cerca de 2 anos corria alegremente quando ao passar por baixo do escorrega bateu com a cabeça. A mãe correu até ela e massajou-lhe a cabeça carinhosamente. Alguns segundos após o incidente a mãe deu a mão ao filho e disse-lhe: “Vamos bater ao escorrega, filho! O escorrega foi mau!”; a criança parou de chorar e, com a ajuda da mãe, deu algumas palmadas ao escorrega.

Em situações como a acima descrita, a forma como ensinamos a criança a libertar a frustração e a lidar com a dor é com violência, vingando-se do outro interveniente; além disso, estamos a transmitir a ideia de que a culpa é sempre do exterior e que a criança é quase uma vítima que nada poderia ter feito para alterar a situação. Em ocasiões futuras, quando a criança sentir que o outro a magoou (e desta vez poderão ser pessoas) tenderá a reproduzir este género de comportamentos, pois não aprendeu a aceitar as emoções ditas “menos positivas”, nem lhe foram dadas ferramentas para lidar com elas.

Alternativa: Recordem-se que não existiam soluções ideais, nem “one size fits all” (um tamanho serve a todos). Ainda assim, existem algumas regras de ouro como: a) aceitar a dor da criança (magoaste a cabeça, filho, está mesmo a doer, pois é?), dar-lhe o apoio que precisa (colo, abraços, beijinhos, dar-lhe espaço se assim preferir), e perceber o que pode ser feito para que tal não se repita (filho, corre mais lá ao fundo, aqui podes bater com a cabeça e magoar-te de novo).

Lição nº 2 – Não deves expressar as tuas emoções

Não chores, não sejas maricas”, “Estás triste por causa disso? Que parvoíce!”, “Põe-te lá em pé, isso não doeu nada!, “Não quero ouvir as tuas queixas, fica calado!“. Estas e outras frases fazem parte da nossa vida – ou porque as ouvimos na infância, ou porque as dissemos aos nossos filhos, ou porque foram ditas a outras crianças.

Quando negamos algo a uma criança, esta sente-se frustrada e por isso irá expressá-lo; sim, o choro de uma criança pode incomodar, tal como incomoda alguém ouvir-nos a refilar quando algo nos perturba – o que torna a nossa expressão emocional legítima e a da criança não?

A criança irá revelar as suas emoções, mesmo as ditas negativas são saudáveis – não as perdemos ao longo da evolução da espécie por algum motivo. Impedir a sua expressão irá tornar difícil a sua identificação, o que resultará em adultos incapazes de perceberem o que sentem e de o expressarem adequadamente.

Alternativa: Validem (aceitem) as emoções dos vossos filhos, ainda que vos pareçam despropositadas/exageradas. Permitam que estes chorem quando precisarem, que refilem um pouco para libertar a frustração, que se queixem quando se magoam. Dizer a alguém para não chorar não lhe retira a dor (física ou emocional) que sente, já receber carinho e compreensão poderá fazê-lo.

Lição nº 3 – Tu não és capaz

Quando, na melhor das intenções, fazemos determinada tarefa pelos nossos filhos – mal os deixamos tentar pois dizemos imediatamente que “a mãe faz” – estamos a transmitir-lhes a ideia de que não são capazes. Quando confrontados com tarefas novas sentir-se-ão incapazes de as cumprir e por isso irão pedir ajuda sem sequer tentar; no caso de não existir ninguém disponível, tenderão a sentir-se perdidos. A longo prazo as várias confirmações de incapacidade terão impacto no seu auto-conceito e na auto-estima.

Alternativa: Ainda que dê mais trabalho, que nos faça despender o triplo do tempo, que sujem imenso durante o processo, é necessário promover a autonomia das nossas crianças. Inicialmente com maior apoio, explicando-lhes calmamente o que fazer, agarrando-lhes nas mãos enquanto as guiamos, passando pelas tentativas em que apenas as guiamos verbalmente, até chegarmos à autonomia completa.

Lição nº 4 – Só existem dois lados (o bom e o mau, o bonito e o feio, o certo e o errado)

O pensamento dicotómico caracteriza-se por uma rigidez cognitiva em que apenas existe o “preto” e o “branco”, não existindo “meio termo”. Ao permanecer num dos extremos o indivíduo julga os acontecimentos, os outros e o mundo de forma rígida. Tal resulta em dificuldades de adaptação, de se compreender e aceitar a si e ao mundo.

Alternativa: Transmitir a ideia de que o comportamento muda e por isso a mesma pessoa poderá agir de determinada maneira numa situação e de forma diferente noutra, que todos sentimos que poderíamos ter estado melhor em certas ocasiões; no fundo, que existe o “cinzento”.

Lição nº 5 – Não confies em ninguém, nem naqueles que te são significativos

Sei bem como é tentador dizer à criança quando não quer ir para casa que vamos comer um gelado quando na verdade a vamos enfiar no carro ou que vamos passear a um sítio bonito quando estamos a ir às vacinas. A intenção é boa, só queremos evitar choros, birras e sofrimento por antecipação. Não obstante, quando a criança se apercebe que a enganámos perde alguma confiança em nós; a repetição destes comportamentos terá impacto na vinculação (relação pais-filho) e na forma como perspectiva os outros e o mundo (pouco fiáveis).

Alternativa: Desde cedo habituei-me a dizer a verdade à minha filha (com os floreados necessários); dá mais trabalho, oiço mais choros, lido com mais birras, mas acredito que crescerá a sentir-se segura sabendo que pode confiar na minha palavra.

Como referi, estas 5 lições apenas irão servir para incentivar a reflexão. Tenho a certeza que o número de valiosas lições que ensinaram e ensinam diariamente aos vossos filhotes é incontável.

 

lições

 

 

 

 

 

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