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A minha filha bateu-me e eu não lhe bati de volta

Tudo começou quando lhe disse que teríamos de ir para casa (estávamos em casa da tia, um dos seus locais preferidos). Começou por fugir, dizer “não quéo”, até que se tentou esconder. Expliquei-lhe que estava na hora de ir buscar o papá ao trabalho, que amanhã voltaríamos a casa da tia para brincar, naturalmente nada a demovia.

No meio de várias lamentações e queixumes, peguei na minha filha ao colo e quando a aproximo de mim oiço um som algo forte e sinto a cara mais quentinha – sim, tinha acabado de levar um estalo de uma criança com 2 anos. Apesar de nunca lhe ter batido, o meu primeiro instinto pedia que lhe desse uma palmada na mão, nada de muito forte, apenas para que ela percebesse que aquele acto é inaceitável. Contudo, a minha formação rapidamente se sobrepôs ao instinto e colocou-me uma questão pertinente – vais bater-lhe para ensinar que não se bate?. Sei que algumas de vós dirão que é diferente, pois eu sou a mãe, logo posso bater. Novamente, respondo com uma questão – será mesmo essa a mensagem que queremos transmitir?.

Enquanto mãe tenho o dever de educar, aqui existe uma panóplia de alternativas, a maioria viáveis desde que usadas de forma ponderada, consciente e consistente, tendo sempre em conta as características daquela criança. Admito que a punição física é um meio rápido de obter resultados e, como todas as estratégias, pode ser utilizada, no entanto representa uma espécie de atalho educacional quando usada de forma precoce, isto é, produz resultados mais rápidos mas as importantes aprendizagens que seriam realizadas pelo caminho mais longo ficam perdidas, a criança deixa de reproduzir o comportamento apenas por medo, não por lhe dar um sentido. Em termos de manutenção da aprendizagem a longo prazo  – garantir que aquele comportamento não se repete – a punição é traiçoeira, podendo levar a que a criança sinta que quando não existe ninguém por perto para punir aquele comportamento pode ser aplicado (a motivação para não o fazer é externa); já uma criança que dá um sentido a determinado acto e o incorpora nos seus valores, acreditando verdadeiramente nas premissas que lhe estão subjacentes, tenderá a evitar o comportamento independentemente da presença dos outros (a motivação é interna).

As consequências que se seguem a um comportamento – conhecidas por contingências comportamentais – devem ser aplicadas utilizando uma hierarquia. No topo dessa hierarquia estão as contingências “positivas”, que envolvem o reforço positivo e negativo, como o elogio, o carinho, o libertar a criança de algo que considera desagradável. No fundo da hierarquia encontramos as contingências “negativas”, compostas pela punição, como gritar, bater,castigar ou retirar à criança algo que considera agradável. Este ponto, por si só, merece um artigo para que seja devidamente explicado (prometo escrever-vos sobre isto em breve), a ideia que importa reter de momento é a de que a hierarquia deve ser percorrida, sem pressas nem atalhos, esgotando-se todas as alternativas de cada patamar antes de descermos para o seguinte. Posto isto, aceito que dar uma palmada (entenda-se que não estou a falar em agressões pesadas) sem magoar verdadeiramente a criança poderá aplicar-se e não será por isso que daí surgirá um grave trauma; contudo, como referido, tal só deverá ser feito quando todo um rol de estratégias se revelaram ineficazes (não basta experimentar uma vez). Assim, acredito, e é isso que tenho feito, que podemos perfeitamente evitar recorrer à palmada.

Regressando ao nosso caso, modifiquei o meu tom de voz, sem gritar, para que ela percebesse que não aceito o comportamento de bater nos outros; disse-lhe que nos iríamos embora e que estava muito triste com ela. Durante a viagem de carro, em que normalmente vamos a cantar e na risota, expliquei-lhe que me tinha magoado na cara, que estava triste com esta atitude dela e que não se bate a ninguém, daí a a mamã também não lhe bater; acrescentei que podemos falar, dizer que não queremos ir embora, até chorar, mas bater não. Posso-vos dizer que durante o resto da viagem só o silêncio foi audível – ela foi a viagem toda com um ar abatido. Quando o pai entrou no carro ela disse de imediato: “bati na mamã!”; o pai, que vinha todo animado, não a ouviu entre os cumprimentos e abraços, pelo que ela repetiu: “bati na mamã!”. O pai conversou com ela e a certa altura ela pediu-me desculpa. Mais tarde no banho encenou espontaneamente a cena com recurso aos patinhos de borracha que também são mãe e filho – o patinho filho bateu na mãe, a mãe ficou com “dói-dói” e triste, o patinho filho também ficou triste e pediu desculpa.

Não vou tapar o sol com a peneira, entretanto ela já voltou a tentar bater-nos (com apenas 2 anos esta é a forma mais natural de expressar frustração). Como vos disse, este caminho será mais longo, implica que ela se consciencialize do efeito que o comportamento dela tem nos outros. A par disso é necessário promover o auto-controlo, o que fazemos com brincadeiras que envolvem andar rápido, andar devagar, falar alto, falar baixo, pequenas actividades que lhe vão mostrando que pode assumir o controlo das suas acções (ainda é cedo para que haja controlo, trata-se sobretudo de uma sensibilização).

Não digo que jamais darei uma palmada, como referi poderei lá chegar, por enquanto vou percorrendo o topo da hierarquia e para apenas 2 aninhos acho que está a correr bem.

beicinho

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