Menina, Mulher & Mãe

Para mulatinha até é bonita

Gostava de vos dizer que esta frase foi retirada de um filme sobre escravatura, que foi proferida pelo dono de uma plantação de algodão numa época em que ser racista era quase um valor social; infelizmente, estaria a mentir. Esta frase foi dita à minha filha, em pleno século XXI.

Tudo começa num parque em que neta e avó brincam alegremente. Ao longe um grupo de senhoras observa-as, a certa altura a minha filha aproxima-se e inicia-se uma conversa em que primeiramente procuram perceber se a menina é filha da rapariga loira de olhos claros com quem costuma ir ao parque, passa pela curiosidade (ou coscuvilhice) de saber qual o tom de pele do pai (como se existisse um degradê de tons de pele que separa os “aceitáveis” dos “inaceitáveis”), e termina com a frase “para mulatinha até é bonita“. Não, não foi uma situação excepcional. É frequente as pessoas tentarem perceber qual é o tom de pele do pai – o que nem me incomoda – e acabarem por dizer pérolas como “não deve ser assim tão escuro” ou “a mãe como é loira e branquinha ajudou a menina a ter um tom de pele bonito” (sim, se fosse mesmo negra tinha um tom de pele horrível!). Também existe algum burburinho em torno dos laços que nos unem – já perguntaram se a minha filha é adoptada, se sou ama dela e se tenho outro grau de parentesco que não o de mãe.

Actualmente não vivemos na época da escravatura mas continuam a existir pessoas escravas de pensamentos antiquados, envoltos em teias de aranha e assentes em crenças que cheiram a mofo. A frase desta senhora, tal como as de tantos outros, revela que continua a existir a ideia de que todos os que não são puramente caucasianos estão numa condição inferior. Sinceramente, a questão da beleza em específico não me preocupa, o que realmente me inquieta são os restantes pressupostos associados ao tom de pele de uma pessoa. A minha filha “até é bonita” (lá está, entenda-se que costumam ser feios, ela apenas se safou), mas será que um dia na escola lhe dirão que “para mulatinha até é inteligente”? Será que no trabalho ouvirá dizer que “para mulatinha até é bem-sucedida”? Será que entre os pares será vista como alguém que “para mulatinha até é porreira”? As expectativas em torno dela serão diferentes por ser como é? As oportunidades que lhe concedem serão mais limitadas?

Sim, a minha filha é diferente da maioria das crianças do nosso país, não vamos tapar o sol com a peneira. Numa creche com dezenas de crianças, ela é a única com “aquele tom de pele” e “aquele tipo de cabelo”. Sim, um dia irá aperceber-se, os colegas irão aperceber-se, e provavelmente tentará perceber o motivo pelo qual os seus pais, contrariamente aos pais dos outros meninos, são de etnias distintas. De uma coisa tenho a certeza: nenhuma das suas questões me deixará mais desconfortável do que as que fui ouvindo (assim como o meu companheiro) ao longo dos tempos. Já nos “vomitaram” em cima um pouco de tudo – “uma fina flor vai andar com uma coisa preta?“; “não tens vergonha de entrar com essa gente num café, de ir a um jantar com os teus colegas e perceberem que andas com alguém inferior?“; “já pensaste que vais ter um filho que nunca será igual aos outros meninos?“. Isto é apenas uma amostra, podia escrever um papiro com as inúmeras parvoíces que já tive oportunidade de escutar (já são mais de 10 anos na “má vida”).

Se por um lado me incomoda que ainda existam pessoas que pensem assim, e que de alguma forma venham a limitar a minha filha, por outro lado vivo esta realidade sem grandes dramas, acreditando que da (eventual) adversidade nasce a vantagem. Todos somos de alguma forma julgados; no nosso caso, enquanto mulheres, facilmente somos chamadas de “gajas, vacas, cabras, porcas” (enfim, todo um rol de animais da quinta), e até “put@s”. No teu caso, querida filha, poderás acrescentar “preta” e ainda ser convidada a voltar para a tua terra (mal eles sabem que a tua terra é esta). Talvez alguns considerem que te lancei um obstáculo à partida, mais um “problema” com que terás de te debater, que te coloquei desde logo numa posição vulnerável; eu acho o contrário. Acredito que, partindo de uma auto-estima fortificada (é sobretudo isto que procuramos estimular), serás capaz de pegar na história de amor dos teus pais, nas tuas vivências (positivas e negativas), e transformar tudo isto numa verdadeira aprendizagem sobre a importância de respeitar os outros e as suas idiossincrasias. Em ti vive o poder do amor, o poder de lutar pela felicidade ignorando as pressões exteriores, o poder de marcar uma posição, e isso, meu amor, será sempre uma vantagem, ainda que te digam que “para mulatinha tu até (isto ou aquilo)”.

3m´s – Menina, Mulher & Mãe

leti rua

 

Anúncios
Standard

8 thoughts on “Para mulatinha até é bonita

  1. Jéssica costa diz:

    Realmente é muito triste também passo muitas vezes por essa situação.
    Já tive até pessoas que só me conhecem de vista nos verem a passar na rua e virem perguntar se o pai do meu filho é preto!
    Fico possessa acho que não havia de haver este tipo de destinação entre uns e outros, são todos iguais, magro, gordo, alto, baixo, preto, branco amarelo…
    As pessoas hoje em dia são mas, e muito mal formadas e a cima de tudo ainda são cuscuvelheiras não dão conta das suas próprias vidas ainda vêem meter o bedelho onde não são chamadas.
    Graças a Deus o meu filho é perfeito, aceito como ele é é só eu o tenho de fazer, adoro o tom de pele morena dele adoro cada caracol que tem, é o resto… É resto, opiniões, não me dêem enquanto eu não pedir porque não são essas que me pagam contas nem me dão de comer.

    Gostar

    • Olá, Jéssica!

      Realmente é preciso ter-se demasiado tempo livre – e a sensibilidade de um parafuso – para nos dirigirmos a alguém com o intuito de saber o tom de pele do pai da criança.
      Quando as pessoas perceberem que, como diz e bem, as opiniões só devem ser dadas quando solicitadas, o mundo girará de outra forma.
      Obrigada pela partilha!
      Beijinhos

      Gostar

  2. É a primeira vez que visito este Blog e não podia deixar de comentar este post pois o assunto não podia ser-me mais familiar. Habituada ao termo “mulata” também eu faço parte deste grupo de pessoas que, apesar do privilégio pelo tom mais claro em relação aos meus semelhantes de tom mais escuro também tenho um papiro de comentários, observações e perguntas que toda a vida foram classificadas de curiosidade ou coincidência mas, na realidade, representam racismo. Desde dizerem que o meu cabelo é melhor do que o dos meus irmãos, que sou bonita porque sou clarinha, até estar ao lado de um senhor negro num balcão e assumirem que estou com ele (em vez de estar com o meu pai, que é branco) até ouvir que é raro ver pretos na universidade, não tenho conta para as coisas hediondas que já ouvi. A pior de todas :Mas tu não pareces preta. Ou seja: não tenho antecedentes criminais, falo português de Portugal, estudei, sou “inteligente”… Para mulatinha nem está mal, aliás, nem parece! Tenho esperança que as coisas vão mudando e que a tua (linda) filha não passe por tudo o que os que vieram atrás foram passando mas vai sempre ouvir. Parabéns pelo post e por abordar este tema que ofende, ainda por cima, quem tem este tipo de comportamentos! Beijinhos

    Gostar

    • Olá, Andreia!

      Se por um lado me apetece dizer-te que lamento que tenhas passado por isso, por outro sinto uma vontade enorme de sorrir ao ver que conseguiste dar uma bofetada de luva branca a todas essas pessoas que acharam que “para mulatinha” não seria suposto alcançares isto ou aquilo. Go girl!
      Apesar de as coisas terem vindo a melhorar continua a existir esta ideia de que tudo o que não é puramente branco será sempre menos bem-sucedido, menos “inteligente”, menos educado. Quanto mais nos aproximar-mos da raça caucasiana, como acontece com os ditos “mulatos”, mais perto estamos da salvação. Os comentários que referes revelam exactamente isto – por seres mais clarinha que os teus irmãos és mais bonita, se fosses branca então, ui, serias um encanto (haja paciência!).
      Este post pretende abrir a discussão sobre este tema e sensibilizar as pessoas para uma realidade que, ainda mais “controlada”, continua a existir.
      Quanto à minha filha, não sei como será o seu futuro, mas procuro todos os dias reforçar a sua auto-estima para que não se deixe limitar por eventuais comentários/julgamentos.
      Obrigada pela partilha!
      Beijinhos

      Liked by 1 person

  3. Kátia Catulo diz:

    Lembrei-me, a propósito deste post, de quando cheguei a Lisboa, em 1979, vinda de São Tomé e nascida de pais indianos. Tinha 6 anos e percebi na pele essa coisa de ser diferente. No autocarro, o lugar ao lado do meu ficava quase sempre vazio, na escola tinha amiguinhos e coleguinhas, mas à primeira discussão, atiravam-me à cara a minha suposta diferença, no jardim, na praia e até na catequese havia sempre quem reparasse e mandasse a boca. Havia até os que, por gostarem de mim, abriam uma excepção para o meu caso especial.

    Mas isso foi há muito tempo. O país era outro, as pessoas mal saiam das suas casinhas, quanto mais viajar, a televisão era a preto e branco e o único divertimento a sério era a feira popular. Seria natural que agora as coisas fossem diferentes, certo? A verdade é que não está igual. Haverá, pelo menos, a vergonha de uma boa parte em reconhecer em voz alta que é racista, o que já é um bom começo de conversa. E há também os que entretanto cresceram neste “novo” ambiente de respeito e de curiosidade pela diferença.

    Mas esse racismo dos anos 80 – que já era um racismo de décadas (e séculos!) anteriores não desaparece. Está-se no campo das mentalidades e, como se sabe, elas não desaparecem assim só com uma passagem do pano em cima do pó dos móveis. Toda a gente sabe disso, verdade? Então porque é que se fala tão pouco sobre isso? Porquê tanto silêncio sobre o assunto? É incómodo? É pois, mas haverá outra maneira de lidar com o assunto? Se a terapia funciona para casais, filhos, traumatizados de guerra e tudo o resto, também deverá funcionar neste caso. 
    Este post reacendeu-me essa esperança, é um contributo pequeno, como são todos os contributos importantes. Só me resta dizer que, entretanto, cresci, ganhei amigos de todas as cores, perdi alguns, mas não por causa das cores e, essa cena de ser diferente, deixou de fazer diferença na minha vida. Desapareceu, sem traumas nem ressentimentos. Mas, entretanto, gostaria que as crianças de hoje tivessem uma experiência diferente. Bora lá por o dedo na ferida para ela sarar mais depressa!

    Liked by 1 person

    • Olá, Kátia!

      Muito obrigada por esta partilha tão importante. Como diz, antigamente as coisas eram piores e acredito que tenha passado por situações duras. Fico feliz por perceber que conseguiu dar um significado a toda esta experiência e que actualmente vive livre desses fantasmas.
      O intuito deste artigo é exactamente esse que refere – abordar uma temática que continua a afectar algumas pessoas mas que, por ser um assunto sensível, acaba por não ser abordado. Não falar das coisas não as melhora. Acredito que as mentalidades, muito devagar, se vão alterando, mas que para que essa mudança aconteça efectivamente há que sensibilizar as pessoas, mostrar-lhes como se sente quem está do outro lado, fazê-las ver as suas figuras tristes.

      Beijinhos e parabéns por ser tão bem resolvida 😉

      Gostar

    • Olá, Mónica!

      Sim, haverá sempre essa possibilidade, mesmo que não seja feita de forma clara, as expectativas mais baixas em relação às capacidades das nossas filhas poderão limitá-las de alguma forma. Não obstante, enquanto mães atentas, acredito que conseguiremos aperceber-nos e actuar se necessário (quero acreditar que vai acontecer cada vez menos).
      Obrigada pela partilha!
      Beijinhos

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s